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fevereiro 27, 2005
precisa-se de uma empresa de mudanças
desgosto de relógios. trazem às mãos o tipo de pensamentos que cegam o que é realmente importante, do que necessita de um amadurecimento que dispensa ponteiros de pressa e exacta limitação de horizonte
desgosto de relógios, mas a chuva que hoje veio limpar o mundo lembrou-me do eterno fluxo das coisas, no seu sorriso de clepsidra inocente
acaba aqui a respiração deste livro. ao nervosismo que fundou este movimento pessoal de desapossamento, cedo o meu grato elogio: sinto-me hoje menos humano e mais humano que há cerca de um ano atrás
foi um ente que neste meio se formou, desenvolveu e aqui encontra naturalmente o seu findar. descobre-se que a informação carece de esterilidade, que as palavras são algo talvez mais real, mais imanente na sua transcendência ao género humano, do que se poderia pensar. e cresceram os mistérios de qualquer ente: através da palavra se derrubam as fronteiras sitas a montante e jusante da explosão constante que movimenta o significado através dos significantes
do ente que aqui cessa. do ente que, quase inevitavelmente entre outros entes - como se de um elo de uma corrente multidimensional se falasse - se retira para o descanso da escuridão, do tão necessário silêncio
quem escreve - e falo agora do animal que se oculta por de trás das palavras - perturba a ordem mágica: provoca iluminações explosivas nas noites de quem lê, semeia os frutos assassinos do presente. e a estas forças as palavras dizem sim; e a estes segredos as palavras riem numa orgia de prazer desenfreado; e a estes corpos etéreos, a estas cabeças de olhos e línguas transparentes as palavras emprestam a sensualidade do toque, o testamento que materializará a memória da emoção
basta. esta foi uma caminhada em direcção ao vazio. cá chegado, encaro o absoluto sossego pelos sentidos que, como previa, me informam do meu engano: houvera sido, fui mais uma vez enganado pelas categorias. apenas acertara, acertei num ponto: servi de veículo a algo que, pela altura que ganhou, me mostrou a pequenez de tudo. a pequenez e a absoluta extensão do desassossego
ainda: aos que serviram de portão a obras de arte que motivaram a minha profunda admiração: obrigado pelos sustos que me pregaram. também disso alimentei o incêndio das minhas noites
transponho a linha. puxo a maçaneta. fecho a porta. não me transformarei numa estátua de sal. prefiro o prazer da dor, a fragrância do holocausto
[pedro moura]
fevereiro 02, 2005
prefácio à destruição
 [dedodopé - uma palavra vazia]
tendo como ponto de partida o fim, impera voltar ao início para se poder descobrir quem na realidade se é. empreende-se então a jornada, um pé primeiro, outro de seguida, passos que principiam inseguros, ganham cor, forma, cheiro, velocidade, em direcção à destruição do tanto que impede a liberdade da existência. as roupagens empregues na viagem são da cor do desassossego, do questionar incessante, doloroso, dignificadas pela purificação dos sentidos e das experiências assim nasce a narrativa, melhor dizendo, a batalha entre o que se situa a montante e a juzante da palavra, limando-a com a crueldade utilizada para com o diamante. ateiam-se os fogos, prepara-se a fornalha, ajeitam-se os cadinhos, despeja-se a matéria prima a partir do rubro da destruição, verte-se o líquido sangrento no molde, só então se percebendo de que molde se trata. surgem, a par dos passos, as palavras, os significados destruídos e renascidos a partir da cinza do caminho
alcança-se um ponto mais puro, mas que não seja bastante para o alcançar do sossego: aí mora a perfeição, inalcançável não por definição, mas por confissão do que se sente. mais viagens se empreenderão, mais corpos serão descascados, descaroçados e apresentados à boca faminta dos dedos. do fim alcançou-se um outro meio, mais alto e de ares mais rarefeitos
à paragem necessária inscrevem-se nas asas cansadas as etapas da viagem, mastiga-se o gelo para saciar a sede, permite-se a morte ao corpo, sob a promessa do cumprimento eterno da dívida: ir, sempre
janeiro 21, 2005
corredor
[título e autor desconhecidos]
infringi-me e esqueci-me de me erguer a partir da sombra que se desenhava, absorta em sonhos e fantasias, na cama desfeita. calmamente tracei um caminho até à porta, e fiquei-me a ver-me ir. abandonando a casa tirei do chão um punhado de terra. engolindo-o retomei à postura vertical: era de novo homem
ouvi a minha voz falar, numa tentativa de me calar os sentidos. perante a impossibilidade de tal empresa constatei-me em comportamento maníaco, num assomo latejante de fanatismo e crendice. alcancei a rua de costas, puxei pelas minhas mãos o meu corpo, arrastei-me como se da órbita arrancasse um olho
senti o frio da língua que se não encerrava na boca. veio uma mulher, uma mãe de órfãos que ma chupou. uma atitude em favor do silêncio. chega bem a dor que nos atormenta quando se expõe os dedos à desgraça da multidão, e ao nosso redor outros seres não respiram que não sejam canibais. senti o frio e os lábios da mulher não me aqueceram: eram brancos, como neve, como uma paixão de gelo, como uma queimadura intensa
infringi-me e virei o peito para dentro na tentativa de respirar melhor. vi-me a navalhar o ventre com uma costela, e da ferida jorraram imagens, músicas, crianças. em vão procurei no meu corpo as minhas mãos: estava a agarrar nelas com um sorriso de guilhotina. suspirei-me e sustive-me na beira das narinas, enredado nos pêlos que se emaranhavam em volta do clítoris. suspendeu-se o sol e a sombra desapareceu. um grito e o espaço entrou em revolução: o sangue escorre sempre pelas bermas do tempo
janeiro 15, 2005
totem
 [taurus - ton koppens]
vêm vestidas de música tresandam a gritos histéricos de alegria e fogem e nascem enjaulam-se com os fios de luz que deitam dos olhos amanhã é sempre uma lembrança que urge queimar desleixar como se o retirar uma pétala a uma flor desregulasse o vasto equilíbrio das esferas das noites por onde as mãos vermelhas se erguem em susto
e escrevem sem maiúsculas chamam os gatos para o dever do toque do fascínio latejante das danças perdidas às peles dos que se despem e comem na boca umas das outras loucas pela profundeza que em tudo habita rasgam-se em línguas pelas janelas que ousam abrir
há quem lhes chame a morte e não há seara por perto para mondar
há quem lhes chame a vida e não está nunca um sol tão forte que queime que eroda da inverosimilhança dos traços as cicatrizes do espaço
as palavras revelam-se opacas insuficientes para tão distantes corpos para os corpos que bebem da taça redonda os seus próprios dedos: há em permanência e suspensão a imagem eterna do mundo gravada no frágil tronco viril
engrinaldada a árvore, caem as folhas
janeiro 13, 2005
[Salvador Dali - título desconhecido, talvez women skull and me looking aside, talvez..]
dai um corpo de escamas à consciência azuláceos louvores à canção e miséria à opulência
transvesti a loucura de sons e cheiros idiomas e costumes: a aniquilição da evolução do estado perto
é sempre a primeira letra a primeira letra? sim, a primeira letra, a tal em que empiezas como quem emperra sinto-a como o desejo
acertas, corrigeme-la se nem um traço tenho... corrigeme-la e nada mais te arremessarei se nada nunca me havias arremessado mas diz-me, o segredo não há segredo, apenas a condição e a percepção..? fugidia, enganosa como traços de dedos na noite como, se em mim existo e de fora recebo o alimento os contornos.. sim, os contornos, e interrogava e sou interrogado por ti mesmo por mim mesmo por mim mesmo
como se de duas asas se tratassem num uníssono difícil de contentar
quanto medes?
quanto queres que eu meça?
janeiro 12, 2005
tráufago
há uma força incontrolável que advém da presença da palavra no mundo, um poder de tal forma avassalador que destrói num instante de tempo todo o enorme edifício de bambu que responde pelo nome humano
e com essa força há fragilidades, e com esse poder se criam maravilhas: o princípio do apocalipse foi o nome, o primeiro grunhido que se replicou, permaneceu, mudou e gerou todo o universo de significados, significâncias e signos que preenche agora o nível que por sobre da humanidade se nos ergue
somos meros veículos, incubadores e suportes de uma estrutura muito mais vasta: um andar do edíficio de fractais que nunca começa nem nunca acaba
mas somos, e este ser acarreta a terrível responsabilidade da existência, sombra que se ergue solitária e vazia nos vasto planalto a que fomos inadvertidamente erguidos
como a criança que viu diante da sua anterior falta de consciência o primeiro morto, assim nos encontramos, frente ao desafio da responsabilidade, do ultrapassar a infantil idade das fés e das crenças construídas e colocadas como suaves muletas: um velho passou e rasteirou a haste que nos amparava o espírito acima da terra
doem, as palavras: nem sempre o disse, nem sempre o soube, preciso foi que sobre mim visse a espada do desespero pausada, suspensa numa impossível beleza de vazio, e que a tivesse puxado com as minhas mãos (antes sem linhas na palma) para o abismo que se esconde na minha cabeça. afinal sempre haviam doído, as palavras: simplesmente as desconhecia
pensava nisto no preciso instante em que olhava para o carro do lado e me auto-seduzia com o look glamoroso de uma mulher que fumava como se carregasse em si todos os mistérios do mundo. o raciocínio acaba com um rotundo desapontamento: nenhuma palavra se me revelou do fumo que incauto era expelido pela boca projectada da mulher carbonizada. mas era bonita, e se se olhasse com atenção via-se um reflexo estranho, mareado, nos seus olhos castanhos
janeiro 08, 2005
a significação do desejo e da passagem
repara, já é noite, já os velhos recolheram às suas conchas de recordações. repara, nunca a noite foi tão oblíqua que acolhesse nos seus braços amorfos os telhados de toda a cidade: os gatos nunca dormem sabe-lo, e nunca me cansa repetir-me que o sabes: as palavras são navalhas afiadas, beijos de paixão que recuperam às mãos dos insatisfeitos a necessidade da guerra.
longe estarão os passos quando às asas cederes os olhos de nada adianta gritares para dentro, pois a tua voz não ecoa em ti. não tens paredes a rechear esse labirinto fantasmagórico com que vives o que de ti desconheces. para lá da frontaria da tua boca há uma música que preenche o caminho que te é correcto. como tu também eu me perdi antes da terceira pancada: a peça que levamos a cena é toda ela bastidores e unhas reais, cabelos pelo chão e sexos sujos, sorrisos de perdição, olhares para o vazio em busca de ti na audiência invisível: há que nunca acreditar nas luzes que te ofuscam a pele, com que tentas ofuscar a tua própria pele
e no entanto já a noite coseu o manto das almas. os gatos nunca dormem
terás a garantia dos teus próprios dedos? da língua que se te desconchava ao ligeiro toque do vento? vejo-te em renúncia, e indo beber água à fonte sempre me deparo com as interrogações que estruturam o universo: logro alcançar uma saciedade que está sempre um momento após
quantas... quanto peso suportam duas pálpebras e um corpo estendido no chão? pergunto-me pergunto-te
e com a questão principio a sensação de violência com que te assalto a mente. deliro, e nesse delírio arrependo-me mil vezes de nunca ter chegado à conversa com uma árvore, de sempre me ter quedado pelo medo de gritar sem esperar eco como recompensa: somos eternas solidões que deambulam por entre a multidão à espera de encontrar alguém com os olhos fechados, de nos vermos para que nos possamos matar
a alegoria da mão pintada, tinindo em suaves filigranas pela teia da nossa memória
gostava que parasses, que me dissesses da tua mudez enquanto pelos nossos braços uma brasa cavasse um poço de real vazio
pára! cala-te que não te posso mais ouvir. a tua boca incorre-te em gestos dos quais não terás nunca o vislumbre: é uma boca doce, intermitente como a pendularidade das emoções. e não a controlas, visto ser de um vermelho que se esquiva com uma sabedoria milenar a toda e qualquer tentativa de dissimulação
é assim que te leio: fraca, madura como um pêssego agostino que se tem de colher cuidadosamente - sempre gostei de comer directamente das árvores
repara, não cai a noite do seu pedestal, e as aves assemelham-se a um corredor de olhos invisíveis que nos delapida as costas, que trai a atenção e nos mata enquanto nos ama - ou nos ama enquanto nos mata, uma significação bastante diferente
repara, não há sombras. e, no entanto, está cheia a lua, prenhe de ansiedade
passas-me de soslaio ao ombro do pensamento, e nunca te conheci antes que pudesse albergar na minha garganta um ou mais fragmentos que te-me alimentassem o beijo
da esfera com uma mão pintada
janeiro 05, 2005
holografia
Virtual Dialogues - Patrick Boyd
trazem dias e reticências nos colos rarefeitos irmãs das mãos mães holísticas do espaço nomeado
são gomos sem casca acidificam a esterilidade do mundo com o alimento que escondem no verso dos olhos
as paisagens perdidas interrogações impossíveis de sustentar surgem os horizontes mais longíquos que tudo e um homem redescobre-se na impossibilide da sombra como que perdido pelas malhas fractais da sua existência
as crianças conhecem-se em fogo quando da memória foge a necessidade da recordação e pelas mãos irmãs se faz sentir o revestimento genesíaco do intenso grito branco
catalisa-se uma admiração terrível quando umas das crianças conhecidas numa qualquer quarta feira inscrita num calendário irreal aos primeiros raios da noite desenha com a ponta do pé esquerdo olhando sorrateira para a lua que surge acima do vermelho coração solar uma palavra proibida pela língua dos homens definidos pela sombra
frincha a frincha revela-se enfim a direcção dos brilhos do mar negro a impossibilidade de sentido fora da palavra o esquartejar da verdade entre alfa e ómega
holos! holos! tudo é tudo é tudo é nada é figura é representação é simultâneo é difuso é impossível é imaginável é nada é nada é tudo quando nasce a criança cega que encarne a próxima ariadne que traga na mão direita a adaga que finalmente permita a permanência no labirinto mas com o seu cabelo sem saída sem entrada sem perspectiva
holos! holos! quanto mais fundo se olha mais o mesmo se vê até ao infinito quanto mais alto se perscruta mais o mesmo se vê até ao grande infinitésimo
olhe-se para o lado procure-se alargar o horizonte circular até à esfera dos passos em volta afogar o tempo no oásis do esconderijo do mundo nos olhos da criança cega do homem sem sombra na mão holográfica que se segura a si mesma indefinidamente
janeiro 04, 2005
helderaldicus ou "talvez devesse partir isto em partes"
gosto dos que julgam que sabem. odeio-os. voto-lhes um desprezo tão grande como o de uma montanha a um rato. no entanto, toda a gente sabe que o rato foi parido da própria. coincidências, nada mais que isso. sei-o quando desço as escadas: o adormecimento somente pode ser despertado pela morte. ou pelo pensamento dela. ou melhor, pela ideia de não existir. o processo de transição, em si, até se reveste de algum interesse. o interesse pelo processo. o medo pelo estado resultante e as mãos pelo corrimão lembram-me da debilidade das pernas que hei-de ter. e o ranger do soalho dos degraus projectam-me para os meus ossos daqui a uns anos agora as sombras, essas acompanham-me. são minhas amantes. podia passar umas quantas vidas a conviver em delírio vivencial com as sombras. especialmente quando não consigo distinguir as sombras na escuridão. descer as escadas e não acender uma única luz, eis um auge maior que todas as emoções da vida de algumas pessoas saber-me observado pelos passos em que me descrevo. e saborear a sensação de ser indisto no negrume, na sombra que não existe por fora da pele. admito: vizinhos, quem vai aí, o diabo ou deus ou outra merda qualquer? um ladrão, um marginal assassino, violador, pior: alguém que vos vai obrigar a retirar um olho e a fazer transferências milionárias da vossa sacrossanta conta bancária. os bancos deviam fazer publicidade com metamorfoses de cidadãos normais em porquinhos rosa lavadinhos a rua: o algoz e a liberdade. carros barulhos luminárias amarelas a imaginação e uma vontade enorme de me meter debaixo de umas rodas, só para ver como seria. não: não a não existência. aí o limite mas da voracidade da noite, especialmente no inverno, recrudescem fantasmas que não existiam antes. e todos os fantasmas são bons para a orgia dos sentidos. não fosse a magia o maior dos estimulantes, e toda esta realidade de inferno seria um céu entediante sei que existe pela sombra ténue com que ilumino as passadeiras, e tenho noção do ridículo do meu pensamento: mas é mais clara que tudo o que vejo, não que tudo o que sinto se afirmasse que me crescem caninos por dentro, talvez ninguém acreditasse; neste estado das coisas, limito-me à faca e ao macete: limpeza, acima de tudo no final de contas, não me queriam asséptico? asséptico me têm. a mim e ao que vou possuindo jack the ripper, jack the nibbler, jack the singer parece uma merda do hitchcock, que pelo próprio nome devia ter uma tesão do caralho com estas coisas. muita tesão, mas pouca concretização. os filmes à realidade, eis a preferências de um fraco. pqp, ou seja, puta que pariu, com todo o respeito às putas. sem elas, esta merda não se aguentava ah, mas devia agora dizer algo transcendente, poético, mágico. algo como: pelas entranhas da noite sou inevitavelmente despido da pele que marca em limite o espaço / do tempo que passo, enquanto por todo o cosmos estrelas nascem, morrem, se transmutam em desejos que tudo absorvem bah, bbah, poli-bahhhhhh pena não estar a chover. a limpesa (com esse, só para dar a impressão que não me enganei) recorda os pais que vestem os filhos com preservativos antes deles ejacularem o semáforo para peões, o verde o vermelho o amarelo o púrpura, a vontade de descarregar na rua a carga anal que me vai no cérebro admito para mim mesmo a vossa corrupção, a doença que me atravessa o ser todo o santo masturbado dia: a necessidade de pureza não é poesia, é verdade, por muito que custe aos estroinas que se escondem por detrás do encantamento das palavras; por muito que me custe a mim hoje, neste preciso dia, perdido no lençol do tempo, dei por mim a pensar quebonitaqueéaloiçadestamontra: o prenúncio do prepúcio (e eu que me passo com rimas) o veneno: dr strangelove, the bomb, the bomb, the bomb in lisbon, the bomb in my self, what is the bomb in myself the ultimate weapon: things as they are from whom? me who is me? me is me me is me? meisme? mesmo, mesmo com toda a chatice de viver, de fudir, de comer, da subjugação a conceitos, a prenúncios, aos profetas, aos proxenetas e a moral? como diria uma amigo meu: crime e castigo, pune-se a pessoa ou o acto? não interessa: pune-se quem mais facilmente puder ter o epíteto de culpado por exemplo: se eu agora me for embora sem acordar esta pessoa, talvez tudo não tenha passado de um sonho um sonho como o que (b)milhões de pessoas ousaram ter desde há umas dezenas de milhares de anos atrás
eudeamonia, a puta do paraíso
e eu carregado de um pensamento: mijar. ok, ok. não é poético, não é lírico, é sarjético. e? se eu dissesse que o meu alívio passava pela destruição de algo de mim na imundície do tecido social, talvez fosse mais bonito nahghhh...... mijar na rua, atrás de um poste cuja luz se projecta para a frente de mim, amiga, escondendo-me da polícia, dos políticos, dos outros postes. ppppppp
a gaja do corto maltese a esconder-se de mim por detrás do ecran.... vaca, lá porque não tenho um brinco no ouvido esquerdo (sim, ouvido e não orelha) não quer dizer que tenha mais princípios que esse cabrão (que belo copo beberíamos... pergunto-me quem seria morto nessa história)
champagne
agora a estória, de como eu soube que um gajo se tinha apossado da alma de outra pessoa sem saber que essa pessoa era ele próprio, que por sua vez tinha impersonificado alguém (num intervalo de tédio) que tinha morto quem?: lui même vejo uma sombra no charco da água da tarde, e apercebo-me que não quero olhar para cima: a dor seria demasiada para que a pudesse suportar. pelo menos aqui, pelo menos agora, quando a luz é mais intensa, embora seja escuridão
sobressaem as sombras que me agarram, não os corpos, não as peles e muito menos as unhas
chega à altura em que as sensibilidades se misturam com os sentidos, e daí surge uma torre de babel que não prejudica ninguém: antes estimula
sentimos que a bebida já não é a bebida, e o desejo já não é o desejo: antes a raiva pela contingência da existência e afinal, onde é que o cabrão do universo se situa? não sei não sabes sei como assim apenas sei descobre o filamento por onde largas o teu passo o teu passo? o teu passo o teu olhar o teu passo pelo qual se guia um tempo indistinto e as pessoas se perseguem para além do suportável por aí um assomo de leveza e tudo se perde num turbilhão pacífico de sexo tudo, talvez tudo talvez nada, que sabes tu tudo tudo tudo e no entanto, tanto que fica por descobrir quando fechas os olhos e sentes que nada é bem o que é, antes o que nunca será sim, o canto do desespero nada saberes que já não saibas a problemática do conhecimento a impossibilidade do conhecimento os espaços interiores a impossibilidade de sintonia entre o que és e o que não és a solução? a morte? não, a fé a fé, a crença o fedor das plantas o fedor das plantas, o sentimento do vazio sempre a incoerência és e não és és e não és foste e não foste fui e não fui foste e não fui
a água, o público que me assalta apenas por ter as mãos manchadas de sangue, o fluido menstrual, sou homem, menos que homem, menos que nada, sou a minha própria morte, a tua própria morte mas fujo, ainda consigo fugir, o que funciona ainda é confiável: as poças de água são ainda fontes purificadoras, oh balham-me os deuses (que eu não sou religioso).... por todas as águas que me assaltam, por todos os fogos que me queimam, por todos os calhaus que me apoquentam, eu digo que respeitarei todos os corpos deitados na noite, tanto até à fonte do seu tormento, tanto até que todas as nuvens derramem a ÁGUA pela noite fora e o que existe se sinta purificado como se morto
outra estória, a da dor que se sentiu a passar de corpo em corpo por cada amante que caía à voracidade da vida: o prazer indistinguível dos assassinos e por angústia a coragem há quem me diga que é mago, capaz de transformar a alquimia em filosofia e a filosofia em crença: tudo me é desconfiável, e no entanto a crença em tudo é totalitária há a igualdade nas coisas, nos conceitos, na matéria. e não se parafraseia um schopenhauer. até porque ele nunca teve a passar por ele cem viaturas enquanto parado num semáforo: tudo é rápido distingo as palavras, preocupamo.nos pouco com a forma, chateamo-nos quando tudo para e procuramos um limite, procuramo-lo tão próximo de ideias que nos veiculam pelos mecanismos habituais: drogas, como as adoro
algo eu sei: o que vocês escrevem, entre o que sentem, o que pensam, o que vivem: há um véu de transmutação, de ocultação, de defesa de mim próprio sei isso (o que é esta merda de "mim próprio"?) nada é sequer aproximado à verdade: tudo é forma: e a forma é o que configura a arte, não o conteúdo. há tudo por desbravar, mas tudo já foi desbravado. bastou o agarrar na imaginação para tudo o que era simples desaparecer
a poesia entedia-me... não, minto. entedia-me o pouco valor que se dá à forma. tudo são convencionalismos, hábitos, rotinas. cada um identifica-se com aquilo que está dentro da sua esfera de conforto, e pouco mais. os mestres: publicidade
sei lá descrever o sentimento de me arrepiar com algo; tenho vergonha de dizer que uma flor me dá tesão, tão comum é o sentimento em termos culturais precisa-se de uma nova escala de valores... MERDA, precisa-se que desapareçam todas as escalas de valores, que a alquimia volte a ser um mistério e a identidade da magia volte, venha preencher a nossa vontade de falar just keep talking talking all over talking about everything speak about this and that express what you are feeling redeem yourself from your own secret release your mouth your face into the great mirror of knowledge constructed
and always you shall walk like this always up always different always starting from another place
this way you'll walk the desert you'll know what you're not not what you are 'cause that's something you'll never know
or else the mistery the joy would disapear would disapear would disapear would colapse into a void greater than you
vento fronteira a paz da guerra comigo mesmo a paz da bondade contigo a droga a vida?
tudo, e nada que se possa chamar de nada o trem que parte e nunca tem uma locomotiva que se possa chamar de chão bitola, e desgraça que se transforma em mito os cães que uivam e transportam a noite em noite que resvalam pelas bermas da estrada por onde conduzo pelas fragas dos abismos que me reconhecem e destroem estrada caminhos céus comem as bocas de quem quer falar e consomem sem um olhar sequer à fronte k cápas gambozinos crianças adultos battleships the bomb e um dos quatro cavaleiros, percebes?
há asas que tens de alcançar e que te fogem sempre e olhares que desafiam o desconhecido, o medo de tocar eu sempre terei um prazer mórbido em ver caras por muito sombrias escuras ocultas que possam estar
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as onomatopeicas centopeias revoltosas vão continuar outro dia o mijo não é suficiente para que as palavras se soltem e voltou: igual mas com menos mijo
Sabias que onde existe pensamento sobre o que não existe existe falta de existência de ti? O espaço que não ocupas com vulgaridades é é mais ou menos exactamente igual a se o ocupasses desaparece de existires nessa aparência sonâmbula egoextrocêntrica
acorda, tem um orgasmo ou dois e volta a dormir mas desta vez faz-me um favor: ressona.
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focagem, a força de trazer a farsa ao teatro sentes? consegue.se vislumbrar a face do horizonte o cerrar dos olhos leve lascivo uma descrição subtil da interpenetração enquanto mozart brinca no requiem e o gajo cujo nome acabava em 'eri' salieri a sinfonia da morte mais forte que tudo na vida ouves
ouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouves
ouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouves
ouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouves
ouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouves
ouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouves
ouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouves
ouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouves
ouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouves
ouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouves
ouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouves?
o silêncio
que te preeeeeeeeeeeenche, o corpo e quando tudo falha, o coma em meio à rua preenchida por dedos os algozes (de novo) que consomem os terrenos queimados por onde aqueles, os outros, espaços se vomitam a si mesmo
uma coisa sei: a solidão habita em todos os espaços e nós somos apenas um arquipélago arquipé-lego ar-quiiiiiiiiiiii-pé-largo o peta pan da desgraça do capinhão grancho da façanha de tirar a morte da vida enquanto um orgasmo pervade a pele a pele a pele a pele a forma que se foda o conteúdo este não é o poema continuo fode-te helder estou demasiado ébrio para não te respeitar e demasiado ébrio para te respeitar
o que aconteceu entretanto? veio o medo sem que por ele se desse, instalou-se confortavelmente na poltrona ao calor seco da lareira, sonegou a partir das suas fronteiras invisíveis as várias capacidades expressivas dos dedos, da língua, da imaginação. tudo mudou, e ninguém se deu ao trabalho de perceber a intrusão da preguiça, do luxo... não, tudo isto é mentira, falsidade - qual auto-crença - da culpa ser algo que sempre assume uma causalidade de origem exterior é bem mais profundo o alcance do processo imperceptível que se operou por debaixo do queixo, sempre projectado para longe de tudo: trata-se de um caso que envolve actos homicidas. suicidas, corrija-se a assassina expressão a bem de alguma correcção semântica revela-se enfim a grande ilusão: a perfeição humana, consubstanciada na desinteressada procriação de conforto e na moralmente louvável construção social: leva a mão a dirigir a lâmina ao próprio peito que a alimenta. finalmente a percepção da realidade: não se dota o instrumento de nenhuma estrutura que possa permitir o basear do passar dos dias em capítulos que não estejam já escrito no livro das regras dizem: o vazio ascético frente ao mundo como meio para a ascenção da alma a patamares mais etéreos. ninguém preveniu ninguém acerca da extrema rarefação do ar, das enormes dificuldades que enfrentam asas que não podem respirar
alto lá. tudo isto é uma invenção, uma ficção de espelhos envoltos numa luta fraticida pela criação de novos reflexos. como calha alguém a tamanho embrenhamento de díspares vontades? cheira-se no ar a crueldade, o egoísmo próprio das plantas que largam ao vento e aos insectos o alimento, voluntariamente alheadas das consequências de tão primitivo comportamento, de tão antigas patranhas. como é possível nomear o universo se a mais simples coisas, o mais básico sentimento , assume uma tão variada quantidade de caras? voltamos à mesma ladaínha de sempre, a palavra é incompleta, la la la, os significados são prisões de arco-íris, pu pu pu curucucu, todo o esforço de conhecimento é vão devido à inevitável limititude do sujeito que visa conhecer, ih ih ih larga-me seu bruto, a utilização da linguagem como forma de pensamento configura-se, à partida, enquanto mecanismo de produção de conhecimento, tão ridícula como tentar fazer um desenho com um papel num lápis, gnah gnah uuuuuuuiiiiiiiii, pela lógica facilmente se chega à conclusão da definitiva paradoxalidade representada pelo termo 'conhecimento', CHEEEEEEEEEEEEEEEEEEGA
cheddar. está tudo fudido. como se sai do labirinto do absurdo quando a vista a partir das saídas do mesmo se assemelha a um labirinto infinitamente mais complexo, feito de duas paredes paralelas impossíveis de alguma vez mostrar onde levam? bem se tenta ser humano... talvez haja mesmo um ponto de não retorno, a partir do qual o mar passa a céu e da linha do horizonte florescem belas paisagens de trevos e formas fantásticas e magia e crianças a serem respeitadas pelos mais velhos. talvez, quiçá (apeteceu)
percebe-se a razão do cancro. a parte da natureza de que a malta alegremente se gosta de excluir, deslumbrados pelo nosso grande umbigo humano, borrifa-se obviamente para os dicionários onde vêm inscritas e explicadas palavras como 'sentido' ou 'destino' ou outras quejandas: limita-se então a passar a entediante eternidade a criar novas formas, enquanto forma de diversificação do universo. compreende-se o tédio que não seria se tudo estivesse quietinho, ordenadinho e limpinho como esta malta humana tanto gosta de ver as coisas. no limite, e dentro do limite desta nossa ridícula capacidade de compreensão, poder-se-ia perfeitamente advogar que tudo o que existe poderia bem ser nomeado de cancro. obviamente com as suas infinitas variações, quer em termos de forma, quer em termos de conteúdo e de outros conceitos do tipo que agora escapem aos dedos. alas, também se dá a certos fenómenos nomes como amor, ódio, velocidade, tempo, etc.. quando não se faz a mais minúscula ideia do que tais 'coisas' possam ser. grandes chapéus de chuva. porque não substituir o termo 'palavra' por 'chapéu de chuva'? parece bem mais exacto e indicador do que se está aqui a falar ('quais foram os chapéus de chuva exactos que ele utilizou?', 'repete lá esse chapéu de chuva?', 'quando ela me cumprimentou, fiquei sem chapéus de chuva. foi embaraçante..')
assim o resto do cosmos passava a contar alegremente com um bocado mais de humor na sua vivência monótona. o grande objectivo das grandes mentes humanas seria andar a partir chapéus de chuva nas cabeças uns dos outros. alguns mais ousados poderiam mesmo usar golpes de mais baixo (profundo?) nível para levar a sua avante ('não é que o sacana me apanha de costas e...'). ah, como a vida seria mais colorida. chapéus de chuva de todas as cores, formatos e tamanhos
BASTA! mas que merda é esta? não tarda parava-se aqui de escr
dezembro 24, 2004
projectilíneo
[misha gordin - doubt - gl3-06]
uma palavra o início de um poema desde logo a expressão da maior dificuldade com que um ensemble de dedos se pode deparar será que o sol tem semelhantes dúvidas indagando-se diariamente sobre qual a janela onde irá bater ao grito da aurora
tu que me lês és inevitavalmente humano e não me apetece escrever para humanos raramente me apetece vejo-nos como uma superfície limitada em demasia embora com olhos olhos que partem das vísceras para inventar universos
um olho é ridiculamente pequeno estupidamente grande para a sua manifesta pequenez
daí à voz três palavras não há pior ouvido que a boca nem pior beijo que o dos lábios em particular quando se entretêem a lamber com o som que produzem o conjunto de paredes que os rodeiam : não me apetece escrever para e c o a r
consubstancia o que de mim recebes (mero emissor sou) no mais completo que possas ser reinventa o que ouves pelos jogos de espelhos que te identificam esquece-me mais aos meus dedos à minha pele ao meu pensamento - nunca acredites em algo que não seja pelo menos reflectido, transmutado por ti
e no entanto não me apetece escrever para ti talvez pelo avassalador tédio que sinto ao ler o que de mim sai o que já me não pertence - passamos toda a existência a desagregarmo-nos - a devolvermos ao todo o tanto que nos deu, vai dando mas que me desagrada vislumbrar aprisionado nessa tua terrível esfera de gente
satifaz-me com um gesto perigoso: fecha os olhos, imagina que és um cadáver imobilizado a vislumbrar estas palavras passantes em bando pela exígua sala da morgue - lembras-te que os pássaros passam o dia a esculpir o vácuo?
não me grites que os mortos não sabem ler claro que sabem aliás, o alfabestismo é das principais causas de morte
satisfaz-me, nada te custa afinal estás morto frio como sempre tentaste estar
agora observa a composição relê-a de trás para a frente baralha as estrofes os versos as palavras os caracteres
repete-os busca-lhes o significado até deixares de os ver e nada mais sejam que construções, traços informes relâmpagos brancos na escuridão dessa sala onde te meteste
digo-te: gosto de ti não penses nunca o contrário nem te lembres que apenas to digo para que te sintas menos só aprendi há muito o peso indizível da solidão é transparente, a puta mede-se em pés de gigante
tenta só lembrar-te que és tu que lês não eu que escrevo ; nisto reside toda a magia da criação ; pois ao estar aqui ; neste pardieiro de palavras ; tu sentas-te ao colo dos meus dedos ; escreves comigo estas palavras ; essas palavras que te peço - liberta-as do eco - liberta-te das paredes (deixa-me em paz, não me apetece escrever para humanos)
o sol quando nasce não é igual para todos há janelas que visita primeiro
dezembro 20, 2004
tangôo
,piazzola ,libertango
desde já se esclarece que a responsabilidade por esta perna que se inscreve, por esta cabeça que se desunha, por este lábio superior em arco de contrabaixo, se encontra totalmente atribuída e circuscrita à estrita esfera da música obviamente, por aqui ninguém se deseja alhear a este grosso fardo, já posta a luz a um canto, a voz subitamente virada para dentro, nada se conclua dos dedos esticados cercada, a prisão que limita salomonicamente o corpo, vocifera em prejuízo da sua condição de espelho: o labirinto dos traços no ar
dança-se lá perto do cabelo, culminando a janela da consciência com vidraças sem estrutura, reduzindo a opacidade das portadas à cristalinidade do orvalho de fim de outono hoje, no preciso instante que sempre passa, um rio cortou um homem que lá entrara em dois, arrastando consigo tronco, cabeça e braços num precípicio de mares narcolépticos; estancando sexo, pernas, nádegas, joelhos e pés no preciso ponto em que o rio deixou de passar, tropel obtuso de urgência
vê-se pelo buraco da distância o jogo de silhuetas e desertos que fronteiram dia e vida, impera em todo o quadro a sedução do preto, do vermelho, do dinâmico jogo que transporta o pensamento de forma a abstração
e sempre a onda, o ritmo imparavelmente caótico que leva, ao auge do espaço em volta, ao rasgar contínuo da fronteira sempre a roda, a roda a rodar numa periodização inconstante dos saltos: o verbo de fogo vence sempre o que falha e desonra a tradição, a gaivota que aprende o alimento das altas montanhas e se sacia com a brisa branca dos sonhos, que se destrói porta para nunca se conseguir fechar
,liberzzola ,piatango
dezembro 10, 2004
at 1 cm, col 1, row 1, page 1 é suposto ser uma hora qualquer. não acredito que seja qualquer espécie de tempo. reteso-me ao sentir o casulo invisível que me rodeia os dedos, os olhos: a premonição do caos. resisto-lhe. martelo teclas, ouço ruídos diferenciados, rogo para que parem por um instante a peça
- a peça - tenta não tocar a linha que separa a língua do sexo - o sexo doce - sustenta no caderno das mãos a filigrana da existência - a fragilidade que te envolve quando perdes de vista os olhos - os olhos misteriosos dispersos na paisagem - não rios nem peixes, várias camadas de olhos - peças de preto, peças de branco - um jogo com um dedo uma raposa uma equação - talvez onde se toquem o barco e o mar - não - não a silhueta da angústia de a nada ser permitido o toque - o toque que compreende na sua leveza a mágoa da força - não - não a companhia - estigma de solidão lunar embriagada de cabeças - entorpecida de drogas holísticas - recebemos os necrófilos quando não tínhamos fome
indago-me da causa de tamanha vastidão na esfera desgastada em meu redor. já tentei a fuga para os umbrais das portas: o sismo teima em não vir. procurei mesas, sanitas, os mais ridículos objectos que estão por inventar, a lógica paranóico-emocional. refiz-me pelas paredes que rodeiam as cidades, pelas sombras que as habitam; contei pelos dedos demasiadas estórias, tantas que me levaram ao esgotamento das gavetas, dos cruzamentos cósmico-sinápticos onde inscrevi a tinta-de-conta mais informação que aquela que me era permitida
- tens medo - não tenho medo - tens medo de ter medo - não tenho medo de teres medo - tenho medo de não ter medo - tens medo do medo não ter medo de não ter medo - não tenho medo - precisamos de uma nova linguagem - de um novo útero supra-existencial onde a miopia dos dedos - seja fertilizada e daí surjam belas flores - sem medo - com medo
talvez seja da luminosidade inquietante, mas vejo as teclas e não vejo os dedos, dir-se-iam que de uma transparência de vácuo. sei-o, é um sinal. ignoro-o. ignoro todas as peças. tenho sempre a impressão de que já esqueci demais para que estar vivo seja uma possibilidade credível. presumo-me portanto em suspensão quasi-contemplativa
- leve - pesado - sem verbos - sem braços sem dedos sem transparências exceptuando a do sexo - com medo das palavras pesadas que transportem pelo pescoço correntes elos fechaduras - sem chaves - como quando olhei para a nossa cara e me apercebi que o espelho - reflectia indefinidamente - a única variação possível do múltiplo: - suspensão supra-uterina da fragilidade entropicamente angustiante - a partir do milagre da agregação - não milagre: a base da vida - medo
novembro 26, 2004
intensamente delineados os caminhos da chuva e as artérias vazias os sentimentos em vígilia pela calada das portas fechadas
mantêm-se as vozes loucas fechaduras sem chaves nem abertas nem fechadas
pelas alamedas arbóreas o gravitar dos magos: insuficiência da compreensão e magias pontes fumo deleite das flores pelas horas do sono inúmeras sucessões de anjos metálicos em brasa uma dualidade de queimados - conheces as palavras ignotas com que falam as folhas? -
catalogam as mulheres invisíveis as coisas dão origem ao fruto e ao nome rebolam pelos troncos raiados de sangue logo mil vozes se levantam se destroem se amam
haverá um tremendo deserto e ruas amizades adultérios e camaleões paladares decisões e mar imenso e trovões dança olhos e mãos e dedos espelhos voracidade e desmortes e desvidas e nada mais que a imaginação
um deserto com covas caminhos da chuva onde passa a leveza dos intervalos andando sob peles de puma ondulando de-formando o espaço dos muitos mundos
espera-se o vento rasga-se a pele em vozes que anunciam o fim da propriedade do interesse do anima mundi e com o vento segue-se para todo o lado por todo o lado sem âncora sem tempo
hoje talvez chova
novembro 25, 2004
"hoje tudo me inspira intenso prazer."
de quem sabe que tal escreveu
pretendendo o azul rescuo o sal da noite do dia que dormiu chegam-me num basta as palavras da prece como se um barco apenas precisasse da água para navegar
sei pelas suaves pedras da noite da existência dos rios por onde viajam os poemas por onde se renova o espírito dos perdidos
pelos passos velhos reconheço os muros altos navego sem sul pelas escadas de pedra
nasço e pergunto-te pelas árvores pelos frutos maduros que morriam aos últimos sóis de agosto
finjo como vivem as pessoas faço-te um movimento de assentimento de que sim que embarcarei em breve na tua travessia não na tua não na minha numa qualquer sem grandes criteridade na escolha
(somente pelo meu desconhecimento das linhas e dos pontos)
janelas abrem-se pelas manhãs do desejo e ficam a ver a rua sem nunca se abeirarem do abismo sem nunca o toque se concretizar branco esquecido
dói-me uma dor de ver de em tudo descobrir ou o prazer ou o pânico calmo de saber-me menos que mim e com uns olhos tão grandes
talvez me deixe ficar na leveza opiácia do silêncio da besta em pose de conceito inútil oculto pela luminar ruminância das fronteiras de lixo das gárgulas infantis que me rodeiam o filigrana da barraca
queimaram-se uns livros terrível notícia para quem não sabe ler foi aqui - vê - a metro e meio uma hecatombe de sangue pastoral desferida pela mão que se passeia pelos espelhos em busca de calor
os fragmentos que te leio retêm o condão da minha calma ondulada torcida por desplante de pai leve por implante da mãe
os fragmentos que te leio caem-me como bonbons envenenados no goto lasso em que me envolvo pelas noites devastadas
chegaram-me os perfumes da madrugada inclusos num leque mais vasto de sentires chegaram e assassinaram a memória quais caracteres amaldiçoados em formato de esfinge
alerta imerso num imenso prazer
novembro 23, 2004
lembras-te de te ter dito que as asas têm um preço? riste-te na altura, como sempre te rias quando a tua boca se erguia como dois picos de montanha entre um vale de deslumbre. tentei fazer a mesma cara séria que repetidamente falhava em te apresentar. talvez tenha sido sempre assim, talvez as verdades mais dramáticas hajam sempre merecido um abraço de boca solar. e sexo após o riso, após o abismo revelado e a zombaria costumeira da vida a tudo o que a ultrapassa. deste-me um apertão com tudo o que tinhas e não tinhas. viémo-nos os dois, ordeiramente, numa enorme necessidade de um sentir com o mínimo de interferências o eco de cada um no outro lado da casa que momentaneamente éramos. agora morreste, caíste sem perceberes como dessa imensa altura a que te tínhamos transportado
falámos em tempos das metáforas, e da extrema utilidade de que estas se revestiam na necessidade de compreensão que todas as consciências têm. a existência sem as metáforas seria como a chuva sem nuvens: deixariam no fio causal e subjectivo do sentir o pensamento um hiato impossível de suportar. falámos até ao fim das metáforas, e transformaramo-nos numa mescla indecifrável de prazer e medo. falámos até ao encerrar das pertenças, e tudo nos pertencia, nos perfilhava num acolhimento onírico de caos genésico primeiro desapareceram da memória as gavetas, suplantadas num holocausto de desarrumação pelos fios de luz entrecruzados por onde nos balançávamos num misto de desejo e pânico. deixámos de usar peúgas, passámos a calçar os pés com o lençol manchado de nós. não conseguíamos perceber onde estava o puxador da gaveta onde intuíamos que elas estivessem. e falámos até ao silêncio da incompreensão tradutória entre o corpo e o mundo. desapareceram os poltergëists que pintavam alternadamente a janela de luz e treva. cresceram-nos caninos no interior das cabeças dos dedos: a nossa pele passara a tela
ouves-me debaixo desse cadáver abandonado, ouves-me a tossir-te a falta de ar nos pulmões, a vomitar-te a aventura do esófago? sei onde estão as tuas asas! sei onde estão as tuas asas. sei onde estão as tuas asas, tropecei nelas numas das muitas evangelizações à sinalética vertical das cidades por onde me deito sabes que o entendimento vem da falta de ar? como podes respirar nessa ofegância descompassada, olhar para mim com esses olhos de estátua grega, atrever-te a levar-me pela mão mar acima? trago marcadas nos meus dentes as tuas muitas línguas, a acidez corroente do teu sorriso ao ouvires desta voz envenenada os símbolos da destruição; no meu sangue, a pureza apocalíptica do teu sangue quando te dizia ser eu a tua morte através de ti retira-me a estas almofadas para que te possa devolver a terra que me meteste na boca, para te explicar que finalmente o meu coração parou, de forma a permitir ao corpo a temperatura dos teus gestos, dos arabescos arcanos que te me povoavam os espaços do centro do que rodeia o universo
nunca te falei da poesia, da vibração que continuamente empurra o diapasão da vida e da morte, da sinfonia dos satélites e do tudo que a tudo suporta. não me esquecera: lembrara-me cristalinamente, em cada tiro que te dei, da importância do desequílibrio e da mutação. não me arrependo, pois agora sorrio eu como tu sorrias. sei eu o que tu sabias; haverás sabido em algum tempo o que eu sabia, o que eu continuamente aprendo e olvido? não me toques. apenas te perguntei se te lembras de te ter dito que as asas têm um preço. não percebo o que me segredas: tudo é um toque na escuridão para mim. ceguei pelas asas que encontrei no chão, abandonadas por um anjo que não caiu, que aprendeu a voar sem elas peço-te, atenta-me: não me toques. vê se te recordas. do que te disse
lembra-te: nada desaparece. nada. apenas se esquece, apenas se apaga da calçada do deserto à fúria do vento que tudo ilumina penso ter-me esquecido do que nunca se conjugou, e os vazios deixados pela minha sombra marcam-se nos muros, nas árvores por onde vou frutando, nas flores e nos camaleões. talvez me tenha esquecido do que nunca devera ter lembrado, do enredo da música e da melancolia do orgasmo, do tapa-olhos que é a metáfora e das rosas que esmagara-mos -talvez- entre as palmas das nossas mãos, pintadas a sangue e sal que interessa se me esqueci: vanitas vanitatum, et omnia vanita. larga-me os braços dos teus dentes gastos, dos teus dentes digitais. penso que me esqueci de ti, mesmo sabendo que tal graça implica igualmente o esquecimento de mim. tudo se vai, e tudo vem e nada permanece por mais que uma vontade; que interessam gavetas e peúgas. lembramo-nos os dois do que perdemos-nos, das folhas e folhas que abundavam pelo ar do quarto da palafita incendiada, das conversas, de tudo o que contribuiu para a soberba desertificação dos passeios, das escadas, das portas, dos cruzamentos. de tudo o que aprenderamos na desconstrução da torre de babel nos esquecíamos mal avistávamos um sonho tresmalhado e nos punhamos logo a tremer nada interessa. tudo interessa e seria preciso pisar o chão para se aprender a escrever, daí o meu fato de folhas em branco, de gravata de bic. seria preciso pisar o chão, e nada mais que isso seria o descanso indesejado cansaste-te das asas, sei-o pelas aflições que me povoam os nervos. porque não escutaste a minha cara séria, porque me forçaste à boca o sexo a cada sorriso que cantavas, porque me puseste a mão na barriga quando o que me rasgava não se podia tocar? lembro-te, a cada troada do gongo da barca. lembro-te, e embarco num abraço ao nevoeiro de cada vez que me beijas e desapareço
lembras-te? as asas?
novembro 15, 2004
padrão absurdo-digital
[veronica decided to die - natasha gudermane]
chegou o tédio à boca, vomitou-se numa golfada invisível pelo mundo conhecido, percorreu calçadas e mãos fechadas, alojou-se nos bolsos como uma bactéria em hibernação, em espera principaram as chuvas, mas o frio ainda se sente no verso do agasalho. algo zune ciclicamente em todo o lugar, afastando qualquer tentativa de silência de forma estrutural via-se na poças, procurava-se nos olhares arrepiados das pessoas que passavam sozinhas, sempre sozinhas; vasculhava com os dedos as nuvens ao som do desejo incompleto de alguma paz, como se o seu corpo se lhe vestisse de prisão, o mumificasse dizer o seu corpo é englobar em frase olhos, quadris, pés e toda uma quantidade enorme de diferentes qualidades materiais que supostamente deveriam dar algum jeito: neste caso a sua única função é atrapalhar ainda mais o já de si enorme embaraço que se pode observar quando se coloca um microscópio no seu umbigo e uns sapatos nos pés e quem diz frio diz vontade de não se sentir morto. afirma um grande senhor que morrer, sim senhora. mas de pé. como se fizesse alguma diferença a maneira como se morre. ele queria morrer num explodir vagaroso do corpo: primeiro o afastar suave dos dedos a partir das mãos; depois os mamilos iniciariam o seu caminho pausado até à fronteira inexistente do universo; a sua pele, os seus tecidos, começar-se-iam a afastar uns dos outros, devagar, num esforço constante de observação de todo o processo. Tudo iria, assim, como os passos demorados que um cometa dá pelo cosmos ficaria algo no preciso lugar onde ele estava: o tédio? os olhos? o nariz? o coração? talvez que ficasse apenas algo até agora oculto dentro das ligaduras do corpo, algo como um berlinde, ou uma unha de jaguar. quem sabe até se não ficaria um velho, bastante enrugado, ou uma história infantil que se contaria repetitivamente até ao fim de qualquer coisa, do tempo, por exemplo. ou uma cidade, cheia de pessoas, e com bonitas vistas aéreas a partir de grandes elevadores magnéticos que atingiriam a estratosfera. ou talvez um folha, de papel ou de árvore, que fosse devassada por pegadas ou pelas estações, e se visse sempre rejuvenescida a cada primavera que se seguisse. ou talvez ficasse apenas todo ele, intacto, mesmo com os seus dedos e as suas entranhas espalhadas por aí, um fígado numa gruta em alpha centauri, uma unha em betelgeuse, um tufo de cabelos num ponto distante do universo após o irresistível contacto com um buraco negro; mas ele intacto, inteiro, íntegro, com tudo a menos mas igual: apenas mais leve, um leveza inenarrável por este sistema de coordenadas
e o frio continuava, e o vento trazia a sua canção aos seus ouvidos, e o desejo crescia devagar, como quem se espreguiça pelos cantos da galáxia, sentindo o rasgar penoso das fibras e das ideias
passeava-se agora menos gente pelas ruas, era noite. e pela noite decorrem sempre fenómenos que durante o dia não teriam hipótese de ver a luz - salvo seja -: a fantasia abandona os esgotos e procura a visão das estrelas antigas, aquelas que já foram animais e deuses surge o absurdo analítico como contrapeso à alavanca da realidade, às infinitas centelhas e ressonâncias da cidade principiam a surgir letras em orgia
esquadro esquadro árvore-martelo pincel-lágrima sinfonia-sífilis-la mancha jactos azuis pelo mar prenhe sensações de sentimentos emocionados em bilhar pela tabelas da razão escopro-prumo rubro de sexo desconcertante-nuvem gélido quasar na baía de lisboa visto-tratado para os lados de xangai-magalhães esquardo-esquardo não há dois lados no espelho não há dois espelhos no lado-chumbo-gás hoje foram proíbidos os sorrisos inventou-se a roupa transparente sem peso um javardo comeu a fava da árvore-martelo defecou um bêbedo na esquina do intendente lavadinho lavadinho-infante faca e a dança das carcaças música por todo o escuro morte da palavra fim da consciência assassínio da memória a redução ao tédio de tudo do tédio ao tédio para quê? o mundo na mão tudo compreendido sem surpresas sem surpresas sem admiração sem desconhecido sem medo sem medo sem vida sem vida sem si mêmocado
saiu o caracol da casca para se assoar
novembro 02, 2004
eu e um mundo cheio de tantas coisas olhos nos olhos
por alguma razão é de noite e os mundos são de dia
não me lembro de me terem dito que havia arco-íris à noite
cresce-me na testa uma barriga de grávida pontapeia-me violentamente a consciência
despejo-me constantemente em busca de sossego braços e olhos bem abertos
outubro 28, 2004
quem está aí? eu eu quem? eu, tu tu, eu? eu, tu está escuro, não te vejo não te vês sim, não me vejo. e tu, vês-me? não me vejo não me vejo está escuro sim, está escuro, embora a lua se apresente cheia sim, cheia de luz vês a luz da lua? não, não vês a luz da lua como sei então que está cheia? como tu sabes tens uns olhos bonitos tens uns olhos bonitos, parecem a lua escuros? sim, tenho olhos pretos como a sombra da noite como os meus os teus toca-me toca-te toca-te, tenho fome tenho fome, carrego pulmões repletos de solidão como respiras? não respiras não, não respiras. estás entre mundos e não respiro em suspensão em suspensão existo? não existo. lembro-me de me ter engolido de me ter engolido? a fome e do nome de algo sim, uma palavra proibida que disseste quando golpeaste com uma faca a memória sim, a tua memória foi inútil, apenas ficou escuro sim, ficaste no escuro ficaste no escuro está escuro, não me vejo não te vejo queria tocar-me não me tocas, tens mãos negras de lume carregas a maldição do ofuscamento carrego todos os demónios da vida cheiras-me, sei-o pelo pó que me assalta pelo pó escuro que soltas pó de terra? pó de estrelas, pó do meu sangue não acreditas nisso não acreditas em nada. só se crê quando há luz e sombras não há sombras não há sombras mas há lua cheia e não te vejo não te cheiro, sou um necrófago respeito a vida, sou um necrófago comes corpos de luz em putrefação comes a luz dos corpos em putrefação e estás escuro. quem és tu? quem és eu? um elo perdido entre a vida e a morte disseca a razão e tenta decidir tentas decidir sob o eclipse da escuridão tentas decidir sob o eclipse da escuridão sou a fome sou a fome sou a fome escura que se alimenta da fome és um ensaio. que faço aqui? que faço aqui não há vento não há vento que arranque dos pulmões a solidão? sofres sofres das histórias que te contaram sobre a lua a lua escura que vês a lua escura que vês esqueci-me de te perguntar o que sou esqueci-me de me perguntar o que és tens lume?
outubro 25, 2004
canção da distância
janela por onde passa o olhar cume que ultrapassa o horizonte corpo que se prende dentro da própria pele explode com o perfume da imensidão
pelo ar troam as vozes da escuridão desferindo apelos na mancha precisa do esqueleto da armadura que reverbera com a tempestade não é o vento não são as aves que nocturnas se escondem não és tu eu faltam de novo palavras com dimensão suficiente para o entendimento dos mistérios
talvez uma mão uma mão vermelha de escamas ou um apelo um apelo que transcende a partir do umbigo do tempo e se dissemina insonoro pelas ruas pejadas de desassossego leve e preciso como uma corda de nylon que rompesse em pescaria a tua traqueia imaculada
e falo-me quando te invado a boca invento como que uma devastação simulada quando te banho com a aura do sexo cego torno-te de ninguém resgato-te de todas as coisas para inventar um novo casulo onde possas finalmente dormir
sonhar
e eu possa perceber-me lá longe onde sempre me espero
outubro 24, 2004
feels so good
practicamente tudo morrera e na terra restavam somente sombras disformes os gritos dos equívocos as sementeiras estelares dos corpos em luta naufrágio
perguntaste a razão e o sopro apenas conseguiu transmitir uma palavra:
nem eu consegui ler o que dissera tal a estranheza da pele em rota de colisão pelo ar esquecera-me? óbvio, e o vermelho deixara de o ser
nas mãos o trapo de um vestido sem sangue, imaculado nos olhos uma lembrança: a masturbação da presença das gentes rompideiras pelos campos de pasto
desde sempre me custara respirar - tenho o peito demasiado pequeno para tanta coisa - supliciara-me até à exaustão em metafísica e sexo - maus indícios para quem tem medo da morte - dir-me-ias se te desse o meu ouvido vivera a violência desarmante da pureza: caminhei do vale para o pico roubei-me pelo caminho à gula das aves - o princípio da magreza - conheci-me, morri mil vezes
sei-o tudo morrera mas o sorriso que me desenhava a boca musicava a transcendência do proibido a desmaterialização era mais que necessidade: o crepúsculo do abandono
naufrágio construi um barco afundado repleto de tesouros de corpos de cansaços guerra paz imensidão
outubro 22, 2004
o fumo o fumo o fumo
ar livre nas fodas que mando no arbusto da vizinha enquanto mando os meus olhos para lá dos anéis de saturno
há aqui um vazio e eu ainda não o encontrei embora sinta que por ele fui encontrado muda-se o acto da frase e não há mudança visível fora da poesia
sei das vilas incendiadas pela festa e dos passos dos lugares velhos por onde besta e homem eram mais que dois e das alavancas e das roldanas - quantos homens ergui com uma só mão - e da química e da explosão do átomo e da penicilina - dividi fotões em dois - e do ambiente e da rede _sei do homem que se despedaçou ao impacto do tempo em seta
prometeu? de férias
as leis, os deuses? no miguel bombarda (a mad people's hospital, for the foreign ones)
e eu caralho e eu, onde raio fico eu ainda por cima após este caminho de destruição com os dedos na palma das mão o sexo escorregadio pelo espírito e por olhos uma língua - ponto de interrogação -
frequentadas as fossas da noite redimidos os pecados na repetição nasce sabe-lo o desejo de degustação do caos da sua primitividade idílica o enorme colchão do sonho
cave ne cadas as asas podem ser extensas abruptas prefere a noite, o frio o conforto da invernia por sobre a pele nua e prefere também a queda e el son caliente o suícidio temporário das sensações asas, ficam bem abertas no ar ou por sobre um altar
vejo um cão a mijar no lugar onde eu havia apontado o meu sexo chateou-me - mas que raio, até o cães têm direito a uma mijadela-
vai dizer isso a um humano ou a uma pulga
seguiu-me após me ter observado dediquei-lhe pouca atenção entrei, comprei cerveja continuei para casa e como não havia transporte público ou privado metidos ao barulho o filha da puta do cão segui-me até à entrada do prédio derivei
lembro-me de me ter sentado despejado um bocado de cerveja no chão a meu lado a língua do cão a maravilha da vida a consciência - o que é? - igual tudo igual o cão sentado o cão sentado o vento e as luzes cheiro a alcatrão e terra molhada o frio da mão esquerda pêlos na direita muitos pêlos cabelos carne a pouca luz ao fundo a ilha o carro que para sai miúda passa por nós entra na porta passa - olhou? - o cão bebe mais cerveja que eu houvera despejado - não há pretéritos mais que perfeitos nos lábios de bêbedos, ou fui ou vou ser -
e um pensamento sobrevem - um cigarro - não to dou _dizes_ fumo-o à mesma nas curvílinas fumaças construo um carrossel percorro-as eu próprio em desafio desenho um mundo imperfeito na impossibilidade do papel de música falta um quarto para o relógio - fim de pensamento -
olho para os quadros embora em B&W tudo me parece colorido estou-me a fudir para tudo o que me rodeia e amo tanto tudo isto ao ponto de tudo presentear com nomes arrogar-me ao poder de deus - antes do inferno - ao ponto de ter o verbo que dá vida e dar-lo a tal ponto que toda a paisagem é de nados-mortos : asfixia
this fire is out of control it's gonna burn this city (X até à exaustão)
são demasiados rios e no entanto tão poucos e em todos mesmo os inexistentes sou carregado
queria dizer-me grande como grandes são o sexo, o poder, a admiração o cabrão do meu morse teima que teima como se de um desejo se tratasse em pontuar: pequeno minúsculo rícidulo vacuoso não fora o nome
- qual nome? -
outubro 21, 2004
evohética
quando os girassóis cantarem e do vento mais não restar que uma leve brisa retornarei à gadanha mundana e trarei no olhar uma aura vermelha de satisfação
não há muros ou paredes para a tempestade lesma: deixa a casca e marcha destemida por sobre as folhas caídas da terra sem que o olhar dos mortos te fira ou belisque a mucosa frágil
reparto as mãos em garras na procura por crianças perdidas de desejo que empreendo pela noite pela sombra pela escuridão - os meus olhos só vêm quando fechados - pela pele levantada do universo
lembras-te quando as bocas eram afiadas os sonhos de uma atrocidade aberrante e nas palavras se transportava uma língua sem estrutura procurávamo-nos por onde sabíamos nunca estar e o tempo era um jogo sem regras sem remorsos com medos puros: a gota de água que víamos cair lentamente deitados na dureza da inocência
ensinaram-nos que a verdade é a memória sei hoje que a memória é a mentira e a mentira a verdade e a verdade a mentira da memória olha-me fixamente para o rosto OLHA-ME
não tenhas mais medo que o necessário esta merda vai dar toda ao mesmo mesmo que muito o não queiras sabes, vais renascer mesmo quando deres o passo OLHA-ME diz-me o que descobres quando me fitas sem usares os olhos quantos diferentes te sentes ser quantas mães tens por que caminhos perigosos te dispersas e encontras
eu sei está frio olha-o de olhos bem fechados há tesouros em ti que só essa chave pode desvendar abre os poros à tormenta permite-te a limpeza do espírito o sorriso demoníaco da orgia comunga destrói saboreia a sinfonia mágica dos elementos
é inútil a procura por mim estou disperso nem eu me conseguiria encontrar nem eu me quero encontrar existo numa latência de temporal tudo beijo por tudo sou penetrado insensível ao que é memória ao que é verdade ao que é mentira solto só
outubro 20, 2004
shall obey
[jumping between rocks - rob gibb]
a tribo que cessou a respiração um cromeleque
a surpresa do homem que adormecera transportado para o centro: o umbigo de um círculo de pedras
na memória do homem uma certeza desconcertante: à sombra de cada rocha uma pessoa escondida
no olhar a hesitação do crepúsculo mão que treme mão que treme o pânico do desconhecido
o medo da solidão acompanhada perfilado pela silhueta de suor rio à deriva na pele angustiada
pela eternidade da noite inexistente a ousadia da pergunta do passo da descoberta: a paralisia do mundo
holocausto sem cores nem sons
eis a descrição da morte a vida de um homem aprisionado na coerência
outubro 14, 2004
trânsito
[misha gordin - shout-gl2-12]
ameaça, o cheiro do espaço deturpa os sentidos, as sombras desenham o mundo em volta numa instalação de ódio e indiferença o feiticeiro avança com passo firme e alma insegura: não há magia que sobreviva às garras da noite eterna
não se vêm mães, e no entanto de cada esquina surgem multidões de crianças luminosas não se vêm mãos, mas em cada parede há sinais e palavras proibidas pela lei a cada centímetro uma sensação de espelhos, de uma casa de espelhos onde se misturam sonho, passado e sangue dispersas pela pele: as tácticas de rapina olhos profundos de morte, desejos escarlates que antecedem o gesto dos lábios cobertos de cieiro - há um frio metálico na planície urbana que corrói os ossos e deixa intactas as vísceras -
o homem nú prossegue o caminho sobre si próprio recolhe-se progressivamente no seio do deserto que transportou toda a vida observa, rasga os papéis de parede, bebe sofregamente música, a que se vê vibrar nos intervalos das rugas, suave, picante, cósmica
surge no céu a vespa cega pelo alvo, desesperada pela condição amarela e negra - o que é afinal preciso para o irresistível desequílibrio do sujeito? - esbarrando na cabeça da esfinge multicéfala: revela-se finalmente a inata multiplicidade de tudo pelo sangue branco que tinge de negro a areia
não há regresso a casa nunca houve casa, apenas passagem tudo passagem, nunca nada o mesmo, nunca a coerência, a integridade a magia é uma operação de transformação não de retorno
também, para que serve a coerência para viver para sempre quando já se morreu?
a criança encontra o nada sorri sói só
outubro 07, 2004
o acordar de deus
(arquivo histórico)
era um dia de um ano qualquer, cerca do dia médio, o sol dourava a praia suja Na orla as ondas beijavam languidamente o areal, deixando atrás de si uma espuma borbulhante e arrastando para o mar canas velhas, sacos de plástico e preservativos usados
um bando de gaivotas molestavam um casal de septuagenários, bombardeando-os com alvas poias putas das gaivotas que não nos deixam em paz manel vamos mas é embora daqui rasgando o ar com estridências que ecoavam na vastidão e se colavam agudas aos nervos
numa duna reveladora duas bichas loucas olhavam nuas a praia, altaneiras e bronzeadas, duas estátuas de pila ao léu com a palma de uma mão virada para cima e a outra a segurar uma anca musculada olha zé, olha ali aquele puto tem um rabo apetitoso comia-o todo tem juízo o puto é menor ainda ias preso quero lá saber comia-o todo á mesma
mais ao lado um grupo de surfistas com o fato meio aberto até à cintura e rodeados de miúdas louras quasi-menstruadas emborcavam cervejas e fumavam charros de erva enquanto instruíam um novato sobre a melhor forma de apanhar a onda pá, a onda é só ficares à espera deitadinho, percebestes, concentras-te estilo meditação oriental e quando ela aparecer tu percebes logo como? topas-la ao longe, é tótil e depois? depois dás aos pés que nem um louco sentes a cena a fluir metes um joelho na prancha um pé na prancha, sentes a adrenalina a subir-te aos tomates e pões-te de pé tótil só assim? ya meu dás uns tralhos nas primeiras vezes mas é só até apanhares o jeito estou a ver compreendestes mesmo bem? guida dá aí mais uma sagres que já tou seco de estar há tanto tempo fora do mar
por cima de tudo, no alto da arriba, estava uma cruz de pernas para o ar que parecia ter alguém agarrado a ela olha manel, já não bastavam as gaivotas ainda está para ali aquela maluca agarrada àquela cruz parece que nem vê aqueles pássaros pretos à volta dela vamos mas é embora daqui mania de praia de nudistas que tu tens só para ver umas míseras ratas ao léu não te chego eu ahn? quando era nova chamavas-me coelhinha assanhada e agora só te queres é babar com essas putéfiazitas já não me amas velho cabrão
no meio da praia, se é que se pode dizer que uma praia tenha meio, estava uma garrafa de vinho não duas vazias com um tipo deitado ao lado As garrafas estavam ali há tempo demais ao sol Acordaram o tipo foda-se acorda lá deus é sempre a mesma merda este gajo todas as noites pensa que está na última ceia, encharca-se que nem um porco com os amigos e nós é que temos de aturar a brincadeira. Quem inventou o espírito do vinho o vinho com espírito uma mula surda e cega o carregue
nisto o corpo que estava dentro do sobretudo como é que este gajo não tem calor vira-se para as garrafas e com um gesto afasta-as para outro mundo
deus tinha acordado porra, onde é que eu vim parar? resmunga e manda umas nuvens taparem um bocado o sol que o encandeia onde é que está a maria, essa gaja só me faz é destas
deus levanta-se e olha à volta merda dos paneleiros sempre a galar um gajo Completamente estremunhado ressacado com uma dor de cabeça de bradar aos céus despe-se veste o fato de banho que uma gaivota lhe deixa cair ao lado e arrasta-se para o mar nada como uma banhoca de mar para curar esta borracheira
a caminho tenta-se lembrar do que se passou na noite anterior ora deixa cá ver estava eu e a maria no sétimo céu a ver o show, apareceu o judas o abraão e o diabo, a corette veio-se espojar para cima de mim a seguir ao espectáculo, emborcámos tinto até nos babarmos belas mamas que tem a corette e ha a maria passou-se com ciúmes começou a dizer que é sempre a mesma merda, que nem quando foi para fazer o teu filho tu vieste, mandaste uma pomba estúpida e lá tive eu de abrir as pernas A UMA POMBA enquanto tu te devias andar a divertir vá lá maria, deus é grande tem de ligar a todas as criaturas e a corette anda com problemas problemas? problemas tenho e eu tu não me ligas nenhuma estou mesmo a ver, parva da maria aproveitou que eu estava bêbado e deve ter-me trazido para a praia e a corette ela não me largava assim nisto deus pressentiu algo, olhou para trás ah porra, maria, tinhas de crucificar a miúda e logo de pernas para o ar agora obrigas-me a ir até ao purgatório para ela não ficar sentida comigo raio de ciúmes já quando foi a história das línguas de fogo te passaste está bem que eram homens mas estávamos todos bêbados e essas coisas da homossexualidade também não são assim tão más afinal que moral tem de ter deus?
perdido nas suas lembranças nem reparou que já tinha chegado ao mar e que caminhava sobre as águas velhos hábitos um homem tem de ensinar um filho a fazer as coisas e ganha certos vícios que posso eu fazer, olha olha ali um velho a afogar-se será que o salve? bem vou lá fazer a minha boa acção do dia, já que estão sempre a dizer que nunca ajudo ninguém deus dirige-se em direcção ao velho que esbraceja sofregamente para se manter à tona e que ao ver aproximar-se um homem a caminhar sobre a água – curte puto, olha só aquele tipo a dominar é assim que tens de fazer naturalmente tás a ver a rasgar a onda – queda-se espantado e deixa-se afundar Deus chega ao pé do lugar onde ele se afundou faz uma pose bíblica mete um braço dentro na água e puxa o velho para cima violenta tosse engasgado deus põe-lhe a mão no peito e este pára miraculosamente de tossir
que fazes a nadar tão longe da costa o velho olha para deus e diz atónito vi uma sereia que estava a cantar ali e queria apanhá-la pronto era só o que me faltava mais um louco vá, caminha comigo até à margem caminhar? sobre a água? mas... como? não perguntes, eu sou deus tens de ter fé em mim mas mas nada de mas o senhor tem estranhas formas de se manifestar mas mas deus de calção de banho anda, caminha – curtam meus aqueles tipos devem ser altos cromos estão os dois a surfar em cima da mesma prancha que cena – e vão caminhando até chegar à praia O velho pergunta mas deus o que fazes tu aqui na costa da caparica numa praia de nudistas visito os homens vejo como vai o meu rebanho vivo entre eles para que eles me sintam te sintam? sim, sintam a minha presença divina entre eles de calções de banho? divina? és é uma grande besta meu mentiroso divino o quê? falas assim com deus? deus só se for dos bêbados e dos aldrabões o quê, ousas dirigir-te assim perante deus? assim antes assim que com uma puta no colo três bêbados e uma falsa virgem ao lado e quatro garrafas de champanhe tombadas na mesa diabo és tu? não, o pai natal e o coelhinho da páscoa. Nisto o velho muda de corpo e de feições e revela-se o diabo – olha zé aquele tipo ao longe parecia velhote mas ao perto é bem apetecível porra zé tira lá o olho dos putos haaa olha afinal não são os putos tens razão aquele com os ares de diabo fica para mim -
és sempre a mesma coisa tu e essa mania infantil de te disfarçares e a tua mania de fazeres milagras, como é que a classificas de adulta? deixa-me rir Emporcalhas-te, largas a maria naquela espelunca para vir para a praia com a mamalhuda da corette brincar às virgens e ao espírito santo com sabor a tinto e ainda dizes que eu é que sou infantil o que vale é que já te conheço merda da gaivota que se não nos larga juro que lhe pego fogo então e a corette ali em cima espetada numa cruz como é que explicas aquilo se a maria não veio adivinha lá querido deves pensar que és o único que se pode divertir bem vamos lá deixar-nos de conversa fiada e vamos mas é comer qualquer coisa que já estou esgalgado de fome e hoje de tarde ainda tenho de ir fazer um trabalho mais fotos? sim para uma revista do social, imagina ao que deus se tem de sujeitar
bem antes as dondocas solarium que uma sereia imagine-se ainda dizem que deus tudo vê a nadar atrás de uma sereia que estava a cantar e tu acreditaste até parece que as sereias não existem existem estúpido mas não é aqui
ao se dirigirem em direcção à esplanada o puto novato da surfada vem ter com eles com o sobretudo de deus na mão olhe olhe esqueceu-se do sobretudo. O puto era novo tinha o cabelo castanho despenteado e tinha uns olhos grandes de cor indefinida âmbar cinzento verde e umas mãos grandes que seguravam a prancha esqueceu-se do sobretudo obrigado puto mas já não preciso disso não precisa e deixava-o na praia pode ser que alguém precisasse dele ah eram vocês que estavam a surfar juntos na mesma prancha há um bocado ahhh pois sim éramos nós e onde é que está a prancha deve ser uma longboard brutal a prancha pois bem já a devem ter levado levado? uns amigos nossos que passaram por aqui ahh está bem vocês costumam vir aqui – manda lá o puto embora e vamos mas é comer – bem não muito era porreiro se me pudessem dar umas dicas dicas? de surf queria mesmo aprender ah de surf pois olha se não te impressionas facilmente podes vir connosco ali ao bar que nós iniciamos-te na nossa doutrina – lá está este gajo com o espírito de evangelizador gostava de saber para que serve a porra da padralhada – porreiro está bem só vou ali buscar as minhas coisas
entretanto passou uma gaivota que largou uns óculos escuros ao pé de deus que os apanhou os colocou e mandou as nuvens irem dar uma volta para destapar o sol que dia belo digno de um genesis e raio das gaivotas muito gostas tu de pássaros a próxima gaivota que passar rasante acaba a apagar as chamas da paixão no sal do mar que mau feitio que tu tens mano nem parece que somos irmãos quais irmãos qual quê tu e a tua mania lá porque andei contigo ao colo e te mostrei as artes do putedo não quer dizer que sou teu irmão raio do puto faz toda a merda e eu é que fico com o epíteto de mau da fita vê lá mas é se ressuscitas ali a corette eu ainda não a mandei para o purgatório portanto faz lá o que tens a fazer e manda-a ir ter ali ao bar que sempre é uma companhia mais agradável do que tu
as bichas loucas ao verem deus e o diabo dirigirem-se para o bar da praia agarram atarantadas nas suas coisas vestem uns fatos de banho reduzidos e põe-se a caminhar com o cú espetado em direcção ao seu alvo Eis senão quando passa uma gaivota a rasar ao diabo estás fudida faz um gesto e a gaivota entra em combustão espontânea porra pá larga lá os animaizinhos em direcção ao zé que manda tudo ao ar e começa a correr aos gritinhos à frente da gaivota que se despenha incendiária em direcção ao mar acabando o zé por tropeçar numa das namoradinhas de um dos surfistas estás-te a meter com a minha chavala que se juntam e lhe dão uma valente carga de porrada enquanto a gaivota faz o mar soltar um pequeno silvo de vapor fervente quando se acaba de consumir na lânguida onda que não pára de beijar o areal com uma espuma borbulhante e de arrastar para o mar canas velhas, sacos de plástico e preservativos usados
deus estou farto de levar com estas merdas dos homens a toda a hora
setembro 25, 2004
preâmbulo
antes que a noite se cale: o vento que cesse de criar inimigos as mãos que se transvistam em amantes e que do lado sombrio do mundo nos visitem as paisagens por onde os passos não foram perdidos
antes que da noite morra a luz: já nas ruas correrão os nectares da artéria cortada e nenhuma repressão será exercida sobre os olhos e nem mães nem pais nem deuses ousarão retirar do algodão da almofada uma lua que, prenhe, ilumine a realidade
antes que à noite se encontre o desaparecimento: morreram os murmúrios dos bêbedos à ditadura do gargalo os suspiros dos amantes ocasionais anseiam pela próxima amnistia a terra, serena, volta a unir-se distinta ao mar e tudo parece tão sereno tão terno tão cruel como o chacal que inocentemente rasga à gazela os nervos
madrugada
peço-te, retira-me do corpo o espírito e ama-me apenas a pele, não queiras encarcerar nos calabouços do prazer a semente feita de poalha metafísica apercebo-me que essas palavras, as tantas palavras que logravas receber como se fosse o vento que sempre se acerca do abismo da enseada marítima, as sôfregas palavras que de tanto se ouvirem deixaram de se reconhecer, essas palavras significaram tudo, até a morte que agora se anuncia partiu dessas palavras a ordem maldita, o decreto marcial que condena os que ousam amar sem propriedade, sem decoro, sem uma imprescindível atenção à ordem criada pelos homens para que se não desfigure a máscara que segura as estátuas nos seus pedestais nessa antiga ânsia de liberdade, nessa paixão pela bebedeira que as noites e a imaginação infundem nas criaturas que se sentem desconfortáveis com os nomes que lhes deram, nesses sexos de sombra que apenas se sentem quando advém o abandono, a solidão, aí o terreno onde as palavras assumiram contornos dantescos, pandimensionais, proibidos não me peças para parar, não mo peças: estas são as minhas últimas primeiras palavras após este instante, este intervalo de tempo em que as coisas não oxidam e o espaço em volta é finalmente vazio, virão os dias inexistentes, uma nova forma ocupará o espaço do caroço cirurgicamente removido do núcleo do cancro em que, cumprindo o previsto, me transformei pára, não regues mais as minhas mãos com as tuas lágrimas essa é a água da vida, o adubo e o ladrão das terras, o rio que se exangue quando a cara se transforma de esfera perfeita num planeta coberto de vales, de podridão, de oceano antigo cobre-me de solidão preta, ama-me como se te entregasses incondicionalmente à grande vastidão do universo, como se finalmente tivesses alcançado a pergunta perfeita, aquela de que se não pode voltar mais: o apocalipse do espírito sei-o, escusas de mo dizer: nada temas, estas lâminas que sentes cravadas nas minhas costas doem-me menos que as cicatrizes que trago nos cadernos imprecisos da memória fui eu o autor desta tentativa de hominicídeo, não lances a voz ao céu, não finques os pés no chão, retira-me do corpo o espírito, ama-me apenas à pele, esquece-te das minhas palavras, apaga-me de tudo o que não seja o teu sexo: retornemos por momentos à infância, antes de o cosmos ter sido nomeado como te sinto quando me sussurras que os teus dias são preenchidos de pesadelos e as tuas noites de deleites, quando esperas de mim uma reacção, um sinal, algo que te possa confortar: o teu mundo acabou, melhor, nunca existiu, deixou de alguma vez ter existido quando entrei fundo dentro de ti e, não sei se com um propósito, rompi as cordas que te moviam soubeste então que quando se rasgam certos tendões se passa a andar melhor sentiste então que a dor não é um preço a pagar pelo prazer: o prazer é a dor e a dor é o prazer, e tudo mora em tudo, e há perguntas que é impossível não se fazer diante do teatro de nós próprios reneguei-te em todas as ocasiões que se aproveitavam da minha soberba para te colar as palavras que emanavam do meu suor à boca: o medo em altura alguma te pedi o que quer que fosse, pois sabia já então que a dádiva não parte nunca de uma iniciativa: simplesmente acontece e se as minhas mão te invadiram repetidamente o estômago, foi apenas para, conhecedor dos alimentos podres, te impedir uma má digestão sempre gostei de te acarinhar as entranhas, especialmente quando dormias e nos teus ouvidos podia ver as pequenas fadas da grande floresta a acariciar os faunos ao compasso da respiração pesada especialmente quando dormias há uma saída, sei-o, e sabe-lo tu, apenas não tens um nome para que ela possa existir, um nome ao qual se possa aplicar um verbo e transformar o tempo em acção concreta não to direi, o nome não to darei, não porque não o mereças, mas sim porque mereces que ele nunca transponha a barreira dos teus lábios és-me de uma necessidade superior a ti própria, o que me leva à inevitabilidade da remoção do teu nome da minha memória por isso te peço: ajuda-me agora, nunca te pedirei nada mais ajuda-me sem que eu to peça, sem que me tenhas de ver morrer antes que a luz da conversa atravesse o espelho da minha janela acorda, por favor, acorda e abraça o meu corpo como se as tuas mãos tivessem dedos de bisturi e a tua língua uma tenaz que me purgasse do espírito ACORDA, que a noite quase pare o dia, que o sangue do parto invade já o palco do horizonte, derramando um líquido laranja diluído na frescura que acontece na parede acorda, meu amor, acorda-me deste sonho desgraçado desperta os pássaros que trago no olhar
setembro 19, 2004
fandinga
dez sombras rasgadas um cento de braços a sair da janela e uma criança que de repente se descobre sozinha
lançadas no jardim pintado de preto as futuras fontes da dor procuram um olhar um falo longo de ilusão que as transporte (perdidas como o vento que escapa ao próprio abraço) da carne para o papel da solidão para a tela para o baile perdido da aldeia
e começa o cortejo: princípes, princesas ducardos, durquesas brochados, bruchesas e as sombras e os braços e a criança esmurrada e sozinha só zinha e tanto barulho tanto brilho tanto trato cortesias e desvelos (até poliram os cotovelos) e as sombras e os braços e a criança assustada bum cabum cabum que passa agora o cabeça de atum com rabo de cheque bum cabum cabum bum bum lá vai ela a bela virgem para o altar do holocausto como um carneiro empurrado pelos dentes afiados das revistas bum bum cabum bum e tantos cordões e sombras e a noite que protegem esta gente da fealdade do mundo da sua própria cara no espelho as cordas presas na cabeça pernas braços
e a criança abandonada despida do fato que a mão da mãe especialmente preparara para tão ilustre futuro (todas as mães sabem o futuro dos filhos) a criança sem mãe nem mão de mãe que mesmo transportada para o centro do deserto sabe pelo sorriso que cresce dentro de si pelo revólver que lhe sobe da cintura para a fronte pela súbita calma que lhe invade agora os pés e que passa para as mãos subitamente secas de um metal frio e das mãos para a explosão a bala o olho o amaldiçoado olho que insistia em dar às mãos o desejo de tocar insistente como uma mãe a alimentar o seu fruto enlouquecedor como a necessidade do orgasmo após a ressaca e da água após a ressaca do orgasmo
(a criança que sabia da necessidade de solidão ao abandono do orgasmo)
há uma sombra que arranca à janela três braços com dois deles torna-se na próxima criança a nova criança de novo sozinha o outro braço segura-lhe à porta dos lábios um cigarro (queres fumar antes antes de te vires de morreres da solidão da cara sem rosto?)
setembro 08, 2004
a'petite
[apple shot - autor desconhecido]
parece uma jaula que percorre como um animal ferido de morte de olhar baixo de raiva dorida andar arrastado da perna para o pescoço espalhando tatuagens de sangue pela pele que se não vê de fora
escondido do mundo oculto de si
à boca não assoma a memória dos acontecimentos só sobram as feridas cobertas de um pus branco, lascivo chagas infectadas como um luto recente e todas as suas entranhas se arrepiam ao passar dos seus gemidos sincopados
oculto do mundo escondido em si
pesam-lhe duas medidas as duas certas as duas erradas
por fim sossega e permite-se aos sonos um por dentro de seguida para fora
sossega e sente-se aguardar numa vigília insone, silenciosa de aranha que habita a teia que a fez
ele sabe: às mãos não voltarão as garras tem mandíbulas afiadas a boca do estômago onde repousa e espera inquieto estático
tem fome
setembro 07, 2004
a vergonha do corpo
foi por ali que segui, num descuido transtornado pelas mãos que me tremiam, pelo queixo altivo que com enorme esforço mental teimava em ostentar aos olhos indiferentes do mundo
e soube, quando pressenti a tua voz longínqua, que não havia esperança, que nunca tinha havido esperança: apenas a ilusão que teimou durante todo o tempo em sustentar um corpo, um milagre do acaso, com meros bafejos de fogo frio
sei-o, pelos meus olhos agora mais abertos. sei-o, e já não é um calafrio que me percorre a epiderme. sei-o, e já sou eu fogo aprisionado em gelo. gelo, a pele e o que a toca
depois, chegaste com a tua língua de espinhos e despejaste um balde de dedos cortados sobre o meu cadáver nu, raptado pelo chão. nunca mais falei: soubeste-me calar, cercear o focinho com o açaime intransponível do desespero que a eternidade sem sentido traz
bastou apenas esse tanto para te virar os olhos e recuar: avançar como sempre devia ter avançado, sem olhar para trás, para o que se situava realmente pela frente
não suportei a traição de continuares viva depois de me despires. sempre te expressei a miserável herança que te podia deixar, numa vontade louca de te encontrar cravada de unhas na jugular, nas veias das frontes, exangue desse sangue branco que teimavas e insistias em me verter nas palmas das mãos
já não as tenho, descansa: não me faltará mais esse nectar. agora podes-te rir à vontade; é uma das muitas vantagens de estar para lá do horizonte, a nobre arte do desprezo
podes-te insinuar com uma estrela no sexo, com lantejoulas de corais por sobre o peito homicida; ousa até tatuar as pernas com as gravuras do apocalipse: tudo será em vão
sei o que oculta esse teu ar de menina lasciva, prenhe de vida; essa tua aura de vulcão activo, de buraco negro, de sorvedouro de almas: percebe, eu concebi-te, fui eu - quando havia um eu e não um palácio de espelho estilhaçados -, fui eu que te avisei:
"tudo o que possuis morre antes do toque do olhar, não olhes o espelho"
agosto 24, 2004
[stretching - dianacora niccolini]
como um tremer sempre desconhecido ao entrar no cenário do sonho, sou raptado pelos dedos sem que por tal dê conta desenham-se em formação sindical ao meu redor, numa reinvidicação pelo alimento que os impeço de colher no vasto jardim onde antes haviam largado as sementes e eu imóvel, como se dentro de um sonho dentro de um sonho dentro de um sonho e sem nunca conseguir acordar para fugir à falange violenta que me agride os olhos e chicoteia o espírito em fuga numa corrida desenfreada pela imobilidade, pela capacidade do suícidio, pela libertação da forma antiga da pele com que ia cosendo mantas de retalhos aqui e ali cosem-me os lábios, os dedos; impedem-me o discurso justificativo na apneia forçada no vasto mar simbólico
faço-o por eles, mas eles são filhos, só compreenderão quando sentirem a necessidade da ressurreição pelo silêncio
é noite, e todas as noites são iguais quando o sono é uma rede com várias camadas e a cabeça uma lâmina individual sem olhos e é por esta noite que sigo refém destas torres esfumaçantes que almejam desesperadamente a poluição da pureza do que é silente e alvo e é nesta noite que me encontro de novo alto-forno e pilha de carvão, em uso apenas das chaminés, com dedos letais apontados ao coração: o terror da escrita
quando era novo diziam-me que a escrita alivia a solidão: hipócritas
as palavras são ladrões que não nos entram pela casa dentro: são o próprio recheio que abandona o lar e se vai drogar e prostituir pelo mundo fora
agosto 11, 2004
o tempo derramado
[autor desconhecido - monte nagler]
o som deslumbre a voz a tua
esqueço-me desse tanto que nunca senti
dos teus beijos perdi o rasto das tuas mãos olvidei a terra no teu seio ocorreu a desmemorização de mim sempre que surgia no horizonte do incêndio: o final das nossas longas conversas
esqueço-me esqueço-me
e é ao acordar desta canção que surge o vislumbre da boca que fere da tua da tua sua puta de braços sua tua tu que me beijas tão interiormente que me deixasprostradonopasseiosemmúsica à mercê das três mil mães que me cobiçam os dedos carbonizados
[segundo corrimento[
pelas obras brumas das mãos pelos feros rios que queimam como um carinho no momento errado lá lá nesse inalcançável terreno de areia e cactos e vento onde podes estar só só privada até da lembrança do meu esquecimento
é lá que eu sei nesses terrenos de mar sem água: jamais me conseguirei esquecer dos teus olhos do hálito a morte que emanavas por sobre os meus dedos tensos da sombra que projectavas directamente no meu fígado das cordas com que me dependuravas do candeeiro do céu para afugentar os espíritos da lembrança
nunca te conheci nunca te tive só se esquece o que já se lembrou e da noite em que me penetraste numa violência só possível sem o contacto da imaginação com o sentir só restou o sabor a esperma de sonhos espalhado pela pele
e os lábios mortos espalhados pela planície da memória na terra onde o tempo não é tempo antes espiral
]how much dirty hands can you handle in a lifetime, ya cunts?]
natural born looser
[two shadows - elena ray]
no i no me all the world all around i'm the victim i'm the murderer everything written in my eyes from dawn
seizing the city in my eye sphere i feel stupid for not living tomorrow when i'll be myself nothing other
sold and stolen locked up by traffic i'm free i'm the man i'm the successful motherfucker gorgeous inside from the abyss a champion with gloves twenty-four seven no enemy no surrender no mercy
never dies never dies never fucking dies
one to one from feet to hair straight up in the face straight up in the life straight up like fire
want me? just pay the price
i know what i'm all about i know what i know and what i don't know everything's a sure the whole universe a fulfilled promise from mine and unique viewpoint
nothing stops mine desires life's a pathway paved with the mirrors i've breed on the backyard of my own skin
but still it's not enough it's never enough not the money not the cunts not the cocks not the cocaine not the prestige not myself other than my self
never enough it's never enough never enough never enough to something i don't know how to name never enough to my narcissistic love never enough to touch my skin and feel like a natural born special
never enough to stare at my face and find some reason to keep on pushing
but yet i keep pushing i keep on pushing
natural born looser success as a man's clothe question beneath my own skin
i’m a natural born looser i live ten thousand years pretending i’m what i'm not
vai valendo serem algumas vidas diferentes dentro de uma mesma vida
como se fora de dentro que se narrasse o que espuma por fora e de nada adiantasse o rebolar pelo corpo abaixo ao vértice do umbigo à lancinante dor da separação do distanciamento por entre o tempo não ido por entre os braços que me tentam abraçar a fuga parar-me antes que fique antes que morra e de nós nada mais reste que uma fotografia amarelecida na gaveta esquecida de uma qualquer mesa de cabeceira como se fora de fora que viesse a mão que me adormecesse pela manhã da vida fora
agosto 02, 2004
ballet killaa
[sem titulo - charlie shreiner]
Justamente neste vértice do vazio Com os pés unidos em pontas O revólver: um novo dedo na tua mão Observavas o horizonte esférico Como só se consegue fazer no ponto no centro do universo
E eu conseguia ver o abismo que se te desenhava no olhar Uma grande mancha de um vácuo vermelho-baço Como quem acabasse de morrer e da ferida na língua Se projectasse em direcção ao umbigo Um grito mudo de sangue Calcinado à passagem pela pele Pelo corpo Por ti
Tal deserto a tudo engolia À passagem pelo teu peito rasgou-te o externo Sugou-te os pulmões como um alcoólico Ficou ainda mais deserto Do alimento do teu ar
Vi-te as covas dos olhos a aumentar A ocupar toda a cara Como uma criança que tenta abrir mais os braços Para dizer o quanto gosta de ti - sabes lá tu o tamanho do abraço que dás –
O braço que tenta chegar à tua cara Eras uma adaga cravada firme no nada Rasgando uma fenda de tempo atrás de mim Rasgando um buraco na cabeça Sei-o Sei que tentaste ter tantos olhos Tantos quanto necessitavas para te ver E sacrificaste a tua mão à tua própria morte
Poupaste os pés: Sempre permitiam ajudar a ver mais além Onde quer que estivesses
Sei-o E sei-te Puseste os teus olhos a olhar de dentro dos meus
scrrrrríame
[danae - gustav klimt]
talvez tenha sido hoje, e eu nem sequer tenha notado. vi a lua e as nuvens e as luzes. senti o calor da carne onde é suposto senti-lo. o coração bateu mais. mas eu nem sequer consegui levantar os olhos de mim mesmo. e por aí estive, estando enquanto mergulhava, e não estava há sempre um contexto temporal, uma memória e jeitos consentâneos com um qualquer instante. e nada mais que isso me sentia até me ter apercebido da falha então bebi e chorei poder-te-ás perguntar das línguas que ouso falar quando em estado lunar apenas obterás um grunhido, tampouco uma desfaçatez de um sei lá
e eu sinto-o, perto, à pele, como quem se sente por debaixo de di mesmo: talvez tenha sido hoje que a música ultrapassou os limites e me largou naquela rua seco como uma planta do deserto que já morrera apenas uma estrutura desconjunturada e um grito
julho 28, 2004
res insomnia
[sem titulo - judah s. harris]
gastas as palavras, surge o advento da metamorfose, e com ele toda uma velha panóplia de quase imperceptíveis modelos que se tentam infiltrar adentro à carapaça da tartaruga
que tudo não passa de um ciclo à margem do tempo já o sabia, assim como também sabia dos devires que vou desenhando pelas vastas planícies estelares da insónia
sinto a minha pele como se de um areal se tratasse, e dirijo-me à minha assembleia de demónios transmutado na personagem de de um velho pescador: tento recolhê-los a todos na rede dispersa para um único cruzamento do covil - aquele onde as paredes estão cobertas pelos caracteres estranhos que esqueci do futuro, pelas flores brancas do passado
assim pretendo encher-me tanto que me esqueça de mim, até ao ponto limite em que tenha de ser resgatado pelas sombras que não intento, que não quero nomear
e de repente vejo-me com mil mãos, dez mil dedos, cada um com uma boca, bocas de todas as formas, a gritar um arrepio ensurdecedor pelos intrincados labirintos que vou conseguindo manter à margem desse algo que contra vontade ainda suporto pelos dias do tempo inventado, em equilibrismo cada vez mais insustentáveis: o mim
os dois joelhos que vou mantendo, às expensas da (des)necessária verticalidade, inevitavelmente fraquejam; e eu comprovo uma vez mais a estranheza de ressurgir algo que me sustém distribuído no eixo dos pólos mentais: este estranho instinto de vida, que em vão tento compreender
passar do nome, compreender, para destruir: é sobejamente sabido (e igualmente recusado) que nada que se conheça existe, que somente existe o que provoca medo, e é inteiro no seu insignificado
talvez que se compreendesse este fatum pudesse morrer, me libertasse então desta pele cansativamente lambida pelas turvas, turbulentas águas que insistem no assalto ao meu covil - e com a morte viesse finalmente o abismo das palavras transparentes que serviriam para me reproduzir assexuadamente em nova forma, em essência recriada a partir do espaço vazio
o tédio do cansaço, da incapacidade da surpresa: o limite conhecido do mundo: eis o eterno fado que te tento passar, numa urgência de leveza: apenas mais uma manifestação da vergonha do existir, do nojo que me invade ao não conseguir subjectivizar-me em sombra eternamente vagabunda, em romaria de fome independentemente do próprio corpo que se houvera interposto entre mim e a luz num crime de nascimento projectado
ser uma sombra paralela, sem perspectiva possível, dispersa, nem convergente nem divergente até ao infinito
tantas sombras quantas as estrelas que lançam a sua luz sobre o universo, todas projectadas sem perspectiva pelo círculo do universo: o projecto para a destruição do ego
o precisar de um corpo para ser sombra: a limitação do múltiplo à identidade
esta náusea que me envolve quando sinto as palavras gastas... sei de onde vem: dos demónios que me esqueci propositadamente de invocar, por sentir que não me chegam dez mil dedos para a todos providenciar assento e refeição
e que ultrajados pelo afastamente se lançam em vingança pertinaz, tomando em mãos (sim, em mãos) a cruel tarefa de me não permitirem cerrar as pálpebras, dormir, morrer, reinventar-me, sonhar-me um poliptíco em construção
a ironia da insónia: os demónios que a provocam não podem eles mesmo dormir
engulo o tempo ao recolher dos membros para o labirinto da carapaça, em defesa tão inútil quanto angustiada contra a tentativa de fusão dos meus espelhos numa única esfera baça, de pele
(arroto de tempo: uma água das pedras e um cigarro)
julho 23, 2004
leva
[sem titulo - greg summers]
(pressente, onde se atravessa a liberdade aí nascerá a morte dos cheiros antigos)
já que saltas pesada por esses muros opacos repara há rabiscos inscritos no cimento que une os tijolos repara no sangue que te escorre dos dedos (contempla) asas brotam do frágil calcanhar da fenda assassina e na ferida em que perdes os sentidos atrofiados (atrofiantes) entreabre-se a porta por onde irrompe de novo a agilidade
(nada temas nesse sonho nem abismo nem falésia salta na imagem da tua pródiga leveza)
ao longe faróis trespassam a treva alimentando os vagalumes que te percorrem o interior das pálpebras na esteira do lençol espelhado em que mergulhas (que levantas como criança ressuscitada) descobertos esses antigos muros opacos transparentes perante a tua sombra agora rabiscos transpostos para a espuma do desejo
(fecha fecha os olhos com força sentirás o significado a instantes a segundos da pele)
dei-te o que não tinha (ou seja devo-te tudo) sem esperança de um olhar no vértice do ombro onde pudesse plantar um desassossego mais (uma árvore perene vermelha sonora)
não te consegui dar o que tinha tive medo que te pesasse (e segredas-me no ouvido da boca as tuas façanhas) como o céu pesa sobre a ondulação rebelde prefiro-te leve asas apenas sem corpo sem medo sem amarras que te prendessem ao cais inundado
(não é uma lágrima apenas uma estalactite de sal que embeleza a estátua sem olhos vai)
pressinto-te para lá do fio da navalha onde passo os dias a dançar visões inventando amigos nas nuvens incapaz de me lançar nos universos que vou narrando na pele dos dias imensos (aponto um cano de papel com lentes e procuro-te nos vales e montes que rasgam o nosso nome nas palmas destas mãos felinas)
vivo agora de recolher o lixo que deixas por aí (que uso como almofada nos abrigos da cidade eminente) sem asas nos pés amaldiçoado com penas nas mãos do espírito vogando cruzando os cheiros antigos ao procurar a travessa da liberdade inscrevendo nos interstícios dos tijolos (dos muros opacos) os rabiscos que sei usares para saciares a sede de infinito as palavras onde repousas a boca da alma num beijo ensandecido de inquietude sôfrega
(esqueceste algo dentro de mim de que talvez nunca te dês conta que talvez te tenha roubado num escrúpulo de leveza)
sei que voltarás quando os muros se opacizarem ao primeiro sinal de peso ao ressurgir da prisão das pálpebras à impossibilidade do saciar dessa sede demoníaca
(dar-te-ei de novo tudo o que não tenho e voltarás a partir com asas renascidas na fragilidade dos calcanhares)
julho 16, 2004
no trabalho
no caminho
sabendo-me eu caminho
sabendo-me eu livre sem que tal se concretizasse
não sabes, mas digo-to daqui
nunca tive um orgasmo como quando brinquei com o josé
e o trouxe em dia de anonimismo maternal para a 'tua' cama
e o filho arranca do pai os tomates
e toma a seu cargo a tarefa da evolução
espero que não penses ser do teu gene o fruto que comigo morreu
é teu apenas em segunda geração
não teu
não nosso
do que se segue
porque é esse o papel dos pais:
impedir que o que vem dos filhos cresça
fomos então o outono
e podes levar as tuas súplicas aflitivas para a vizinhança de outra
cona qualquer
sei do josé o que sabe a árvore de um fruto seu
crescerá e aprodecerá
- ou será comido -
mas o meu ódio por ti é tanto que o que mais me custa
é não ter dado ao meu filho a sua irmã
a sua filha
porque só a partir do fruto a árvore se livra da semente
quando as andorinhas seguem para o sul
e deixam a cidade livre para as pombas reinarem por sobre tudo
como principiar algo algo como um princípe um submisso entidade nunca
o espaço entre o que é entre o que foi e apenas existe na sombra das palavras dos traços das linhas que os dedos desenham à sensualidade da escrita
e falando dos lábios: quais as linhas da língua qual a fronteira inexistente das bocas? um desatino constante, a fome a vontade incomensurável de comer de saborear
há casas no mar sem habitantes sem passos que lhes trasmitam o desassossego beijos sem rosto que se cruzam na propriedade do outro na escravatura de nós mesmos
e se se fala de princípio subjai sempre a questão do ponto de começo
que tal se começássemos pelo fim?
nós, apetece-me sabes, sempre que entro dentro de ti, mesmo sem caralho à mistura, sinto que te quero e não te quero: há sempre uma ambivalência associada ao tempo que nos tomamos enquanto o dia vem e não vem talvez porque digas sempre que tudo continuará, mormente as línguas que saiem do corpo e as palavras que insistem em desvelar as mais ínfimas curvaturas do tempo e não me fodas: o tempo é uma medida, e não se misturam 'feijões com batatas' que se fodam as batatas e os feijões pára com isso não quero nem desculpas nem obrigados não quero nada a não ser o nada que somos. ponto da janela vejo o barro moldado das telhas, e procuro-te em meio às asas que fremem pelo azul baço não nos encontro não te quero porque não te quero possuir mete-me esse desejo no cú o que queremos (não só tu) é nós próprios instanciados pela puta do prazer e da vida no outro mas sempre cada um de nós, numa união que é incompreensível fora deste apartamento (ah, as palavras) não me venhas com o podíamos ser diferentes somos diferentes eu sei tudo o que dizes tem sentido a questão não é essa percebe, o que nós procuramos é a perca total do sentido sim, o que em si próprio pode ser considerado como uma procura de sentido mas, ouve, ouve, nós não somos dialéticos, muito menos partes distintas ou disjuntas não! cala-te! acabou o champagne, acabaram os cigarros, acabámos nós de ecoar um no outro foda-se, não és capaz de te libertar das coisas? acalma-te. sabes que sou teu amigo, que apenas desejo que vivas
"para quê? para morrer?"
o corpo sofre a decapitação da cabeça a cabeça a higiene do espaço e surge inseguro o príncipio da mutação
ele há bocas sem sal em meio ao oceano olhos que sem agulhas conseguem vislumbrar o que se esconde no seu verso e braços que quando se abrem abraçam
kalentisciosatantemente rebela-se a luz contra a razão ao mesmo tempo que numa praça em meio à planície a razão não se compreende ausente de fé descobrem-se os espíritos que não vivem nem acima nem abaixo abaixo da copa das árvores
palavras que trazem a magia e permitem o ousar no inultrapassável são a própria essência da vida o regaço das mil rosas da raínha sedenta de prazer a repetição infinitésimas vezes da palavra 'mais'
refluxo iterno da vontade dos dedos dos dedos com outro polegar
julho 09, 2004
[sem título - natasha gudermane]
não existissem as mãos nunca dedos haveriam que contar tal como o vento na necessidade de narizes puros a neve sem mácula o sentir desprovido de hipóteses
não existissem os olhos e tudo seria diferente mais pensado menos intuído um paraíso de cegos daqueles que para ver apenas necessitam do que sentem sem ver
não existissem os cães e chamarmo-nos-íamos não humanos mas animais quiçá omnívoros quiçá porcos e comeríamos tudo o que nos rodeia se a tal aspirássemos
não existíssemos e pelo paradoxo em mãos nasceria o poema a inconstância que marca o tempo a própria morte alongada pelo prazer
não existisse o que existe e um pé não seria um pé um orgasmo não seria um orgasmo uma folha não seria uma folha e tudo seria o que não é e tudo o que é seria menos que si próprio
a palavra que se escreve quando se está só sem a palavra sem a mão que se aproxima e toca
 [autor e imagem desconhecidos]
deixa-me rir esta estória não é tua gozas do sonho e do querer mas nunca aceitaste uma lágrima do regaço à nascente noite a noite o choro e o riso
deixa-me rir ou então entra dentro de mim vem ser eu por um instante largar-me à noite sufocante
deixa-me rir trazer à lua o animal que pára e que teima que morde os seus próprios dedos que tira da sua língua a própria rima escondido pelos demais não nos venham falar de amor~
pois é pois é há quem espere por nascer a vida inteira há quem espere sempre o momento por dizer a palavra inteira
deixa-me rir não há serpente que te não abocanhe quando te pões com os porquês há sempre um teatro à espera
deixa-me rir para quê palhaços quando te basta o sangue quando os teus dedos te dizem do mapa proibido e essa boca se contrai em prazer
deixa-me rir e é por esses lábios que surge em mim a vontade sufocante de te afogar num suspiro num mar de sons sibilantes
nãomevenhasfalardeamor
[obrigado palma, à grande puta que nunca nos há-de parir]
(sem títlulo . phil preston]
qual a página onde está inscrito o teu nome a folha cuja seiva tem a mesma cor do teu sangue o corpo cujos vincos hajam trazido uma sombra similar à tua quais as matas quais os caminhos
quando narras o teu nome pelas conversas intermináveis não te parece isso tão pouco tanto como as marés do mar
como o ponto de interrogação que peca pela eterna omissão pela omnipresente lembrança
lêmo-nos naquela noite e foi uma leitura sem substantivos sem adjectivação éramos tempos verbais sem saber se de futuro pretério ou presente se tratava éramos gerúndios e fugimos à condição corpos apenas absolvição dos pecados da inércia
pelos nossos nomes se nomeava o teu e toda a minha pele era inexistente - como a superfície do mar - pois embora remassem mil olhos de encontro à âncora não se encontrava no nosso corpo onde fundear
e foi só quando morri - e parti em mil asas de espelho . que percebeste não serem as tuas costas virgens o teu sexo puro a tua boca de rosas as tuas mãos pântanos onde me perdesse eternamente
julho 06, 2004
enlacse
[water serpents ii - gustav klimt]
como se fossem irmãos e primos numa roda de sangue pelas guelras dos progenitores por pescoços, por guelras pelos sexos desfeitos de inexistência pelas manchas que surgem na pela à masturbação incauta da mente
como se de quadrados e triângulos se compusesse a tua imagem e dos timbres brancos com que perfazes os dias se formassem imagens de mares e sóis a busca constante do que se esconde para lá das veias no fluxo dos dedos pejados de angústia dos dedos disformes ao som da harpa dissonante dos dedos sem pele dos dedos sem um propósito como se não existisse sentido na existência e daí nada mais viesse que não girassóis angulares
como se pelos caminhos que percorro alguma vez encontrasse alguém e aos meus pés chegasse um suspiro um toque uma dádiva tua em meio a esse teu sono e um beijo que me soubesse a pele na pele que soberba me percorre a pele virgem de janelas virgem de portas virgem de rios que não confluam para o mar
como se dos teus lábios saísse algo indizível como se fora o teu nome nascido de uma ostra em que a forma opalina tomasse por gosto o teu gosto e lambesse com a tomada da boca o espelho da minha silhueta imperfeita mas divina irreal mas impossível como o sonho em meio ao sono como o nome em meio à voz
como se pela dívida do grito uma planície se levantasse e dez mil caras olhassem para a lua numa exclamação de terror de rosa nocturno prendido à força da vontade ubíqua fugaz e, no entremez, eterna
como terra e foice e coice e dedos de semente e olhos fatigados pelas lágrimas do sol e ramos e ninhos e ovos e uivos e suspiros à sombra do que advém da liquidez da paisagem e tu e eu na náusea da descoberta
julho 03, 2004
hipócritas: calem-se CALEM-SE
cessem as homenagens post-mortem calem esses dentes oportunistas deixem os mortos em paz, não se arvorem em prantos falsos elogios, fizessem-nos em vida, quando havia sentido para tal agora só sobram os versos, e esses não têm ouvidos declarações solenes, com bandeiras e palavras bonitas: usem as casas de banho poupem-nos à ladaínha costumeira aos prémios póstumos os mortos não precisam de medalhas nem de homenagens não falem para os outros só para se ouvirem, para se sentirem boas pessoas respeitadoras, admiradoras, nobres, cultas, éticas, morais deixem os mortos em paz de uma vez por todas deixem os mortos em paz deixem o mar falar e levar as vozes e as poesias que ficaram calem-se de vez e não comprem livros a morte é sempre boa publicidade e as editoras apresentam as suas condolências a honra de ter publicado as obras do agora cadáver ao mesmo tempo que esvaziam as gavetas da caixa registadora não vá faltar espaço para as notas
os poetas devem morrer sozinhos sem que o mundo o saiba para que o mundo os não agarre, os não abocanhe agora que a imobilidade finalmente chegou e o derradeiro verso foi escrito no grande livro do tempo
os poetas não devem ser de nada de ninguém nem deles próprios
por isso:
CALEM-SE deixem a paz invadir o poema sem mácula e ouçam a voz que vem dos lados do oceano preencher o espaço finalmente desvendado
julho 02, 2004
tesejo
[título e autor desconhecidos]
sabes como sou quando ouço um silvo da voz que me chama -intenso- e é sempre nesses instantes que nem parecem de tempo que algo se passa que de tudo ouço menos que o sibilar da língua aguda, premente como a criação do mundo cheio de espelhos por onde não me perco visto não haver vulva que se queira quando existe uma voz que chama - que incendeia – que nos diz que nada há para além do nada
e uma flor que se vira para o sol uma mão que anseia outra descoberta descobrindo a pele que a encobre e protege de si própria
não percebo este poema - nunca percebi nenhum dos que escrevi – e no entanto há onze criaturas que se desprendem do que julgava ser em procura das estrelas como ouvidos que querem sereias árvores que anseiam o vento para murmurar e dizer algo como: nunca sempre que a liberdade o quiser
mas teimo em ouvir-te sentir-te pelos labirintos da voz que cessa à vista do desconhecido lá onde tanto há para ver para sentir
sei das labaredas informes que me percorrem o corpo o corpo perdido em meio à planície dos astros que me descem das costas poisando na alvura das coxas num puxanço alucinante em direcção à terra ao mar
sei, e um saber que se há perdido na espuma das noites ilumina de negro a costa dessa terra terna onde as mãos descansam e as pernas não têm chão razão apenas a surpresa dos tons avizinhados do amanhecer do amanhecer sangrento pelos sexos da aurora fecundada
aproxima-nos a sede de transcendência e nunca nada foi tão próximo e tão distante como nós separados pela foice argêntea da noite num tresmalhe agreste de proximidade gritante
sabe, nada de mim tem algo que se possa chamar teu e de ti nada desejo que não seja meu meu teu não nosso não vindo dos pés, das línguas, do cabelo que nos emaranha às noites famintas grotescas de nós de árvores onde se carvam os nomes as figuras
sei que quando vens as noites são sós e que mesmo assim te quero e que mesmo assim te tenho e que nunca nada possuo que seja meu e que as sombras são apenas o prenúncio do livro que escrevi à luz do imaculado sentir do princípio da soma sem parcelas onde uma lua ficou sem que da sua prisão raio ou vénus ousassem a fuga
desejo-te e falham-me as palavras os gestos a boca que desaparece no abismo de si própria
desejo-te e tanto que te quero que me queria esquecer de me esquecer de sequer saber o que são…
não, digo-te que não há nomes secretos impossíveis de significarem de nos falarem das asas que escondem na sombra dos seus contornos sem que antes as destruam como o sopro de fogo do verão tatua a pele de inferno
há nomes secretos os outros não interessam e essa celebração terá de partir do centro do vazio da agulha do compasso cheia de veneno das mãos que mais não são que transparências com voz
junho 30, 2004
umas faúlhas apenas e toda a lenha se reviu em cinzas nem braseiro nem fornalha apenas alguns dedos incendiados no decair da praia
junho 26, 2004
só-co
[ponto numa paisagem devastada]
Só, entre as muitas luzes da cidade. Só, tão só que nem a solidão me deseja para companhia. Só, tão estupidamente só que apenas sei que sou eu pelo barulho intangível da minha respiração. Só, razoavelmente afastada do mundo, num caminhar incerto em direcção ao apagamento de todos os meus passos. Só, transgredindo as regras impostas pelo sexo, pelos dedos, pelas necessidades, renegando a todos os desejos de posse. Só, apagando o ter no ser. Só para num instante ser engolida pela minha própria pele, num transporte leviano de mim para nada, para nenhures. Soturnamente só, como os bichos que insistem na lâmpada à opção negada de presença em meio à restante maralha esvoaçante. Só, como a luminosidade sombria dos lampiões que observam a ausência solar. Só, tão só. Só quando me chego a um outro corpo e o atravesso sem pestanejar, falha de qualquer espécie de substância. Só, como um verbo sem um substantivo, inexistente como se de um grito no vácuo se tratasse. Só, sem ó, sem s, sem um suporte material que consubstancie a inexplicável torrente que teima em crescer, em se expandir, em pervadir todo o espaço que vai de uma mão à outra, em me procurar nos cantos onde me escondo de mim mesma (e logo de tudo e de nada), em insistir na tumorização do fantoche que ousei inventar só para poder ver a minha face infantil nos lagos que se me acumulam na boca. Só, como aqueles breves momentos que parecem desafiar o rio do tempo, numa persistência semelhante aos instantes em que fito os meus pés e falho na observância do chão. Só de terra, só de mar, só exemplar. Solidariamente só, sozinha, entregue às ondas inscritas no cinzento amarelado das paredes dos prédios altos, mais altos que tudo, menos sós que eu na sua mudez de betão e bonecas de papel vegetal. Como pode existir tamanha solidão, quando sei que o que se desprende da memória são apenas fotografias baças do que talvez nunca existiu, quando a própria memória se transforma em imaginação e esta assume o papel condutor do que nunca sou a mesma? Só, só, só. Só como a morte, como o feto, como alguém que tenha aprendido a inexistência da existência e não se conforme à impossibilidade do desaparecimento. Só como o suicida trancado numa cozinha, sem facas, sem gás, sem paredes nem portas nem telhado nem casa. Só pelas linhas que encontro desenhadas nos meus seios à força da chuva que escorre pelas vidraças do prazer assassino ainda pressinto o cheiro da vida – como o cheiro da terra misturado com o meu quando tentei falar contigo de boca encostada à erva e me encontrei muda, muda e só, muda e confusa por não conseguir compreender o que é a segunda pessoa. Talvez tenha sido aí que descobri estar só – não ter ficado só -, só quando percebi que as paredes não falavam comigo: apenas reflectiam a minha voz, num gozo terrível de teatro abandonado às perversões dos inúmeros avatares com que julgo encher o espaço em volta. Só, como se tudo apenas vivesse dentro de mim e por isso nada aconteça sem que em tal eu participe. Só, como se as letras, as frases, os tratados e as poesias não precisassem de palavras para nada, e as palavras assumissem apenas o papel de jumentos transportadores da insuficiência dos meus olhos, dos meus ouvidos, dos meus dedos, da minha solidão. Só, e é quando me sinto devastada pelo cansaço dos meus passos que encontro alguma companhia no sossego que se instala no meu ventre. E sinto a minha sombra a carregar o meu acorpo no preciso momento em que o espelho ia estalar, disseminando-me por toda a vasta superfície desenhada pelo compasso assente na minha língua. Nomeio, e fico só. Interpreto, e fico só. Penso, e fico só. Escrevo, e à violentação da alvura da página compreendo: não há palavras, só sombras. E são as palavras que me fazem tão, tão só. Tão paradoxalmente só. São as palavras a solidão, e a solidão a tinta que permite ao universo ser universo, que me devolve ao descanso atribulado de mim própria, que desempenha o papel de mãe e carrasco, que faz amor comigo quando o fedor da propriedade se entranha debaixo da derme e me força ao vómito nos lençóis possuídos de um êxtase inocente, e nem todo um dilúvio tem a força para me retirar deste pântano. Só, sem orgulho, sem convicção, consciente apenas das veias que observo no verso das mãos, do sangue incolor que tenho de drenar todos os dias sob risco de rebentar, só. Tão só. Tão só. Sem ó. Sem s. sem
junho 24, 2004
I-Y
o tempo passou na indecisão dos extremos e enquanto dormíamos na cumplicidade inexistente fugimos outra vez
a vez de vez
depois deixou de existir o momento em que o corpo virou à esquerda e a alma seguiu à direita
mas não vás acordar rimar com o meu sorriso
sometimes I just can't stop
ciclobronic
[metamorphosis - brachnov svyatoslav]
aqui ao lado. a festa o festim da carne, das unhas, da sede do momento planeado que não ia acontecer enquanto tu, meu amigo, fodes dez línguas desenham a dor da tua solidão crua lá onde não há tu ou eu desespero
mas as máscaras existem inofensivas pela calada mortíferas ao momento do toque
e é por aí meu porco que as estradas se bifurcam e os amantes se separam deparam com o abismo da espera meu porco adoro-te
janelas a oportunidade convicta de quem se crê em vida mas que não acha provas do seu próprio coração
a respiração só companhia das paredes negras invísiveis das horas dos minutos dos segundos em que a existência se desenrola sem que por tal se dê
pelo tempo das lágrimas pela vereda dos dedos pela margem do navio que naufragou à vista da terra ao canto da sereia que queimou as asas no som do sol
o sol esse cabrão que te acordou e morreu a seguir porque alguém disse: "começa outro"
junho 17, 2004
dolore tremens
[hunger - natasha gudermane]
escrevo e tu nada percebes escrevo e eu nada percebo e sei aí a legitimidade destes dedos que se cravam forte na folha numa postura de donos e senhores do que deles jorra e se esgota na alvura plana do deserto
no entanto não há aflição a aflição precisa de um qualquer perdão e sei que a vida é demasiado curta para isso: os deuses só existem para a imortalidade
fica mais a palavra que o húmus mais o fruto do fémino ventre ao longo dos ciclos que as maquinações extemporâneas da espécie urge uma nova língua e uma nova língua surge urge um novo sexo e ele não tardará a despontar
tudo o que é conhecimento é falso e é por isso que é conhecimento ao desconhecido não se conhecem concessões e é para lá do seu horizonte que se encontra o que nos procuramos tão perto e simultaneamente tão próximo paradoxalmente próximo sempre mais além
rogam as palavras para que as largue invadem o sono numa insólita vontade assassina de imortalidade mas não são minhas nunca serão minhas, percebe são apenas bichos encativados nesta gaiola de pele e mãos somente presas fantásticas sem espaço para abrir as asas do cú
é assim que durmo inquieto pelos muitos que me habitam paralelamente em nervosismo irónico pelas frontadas da existência neurótico fragmentado embora uno
e se soubesses a urgência momentânea de uma mão na testa talvez sentisses pena e corresses pela erva do verão num esbaforido desejo de mitigação da dor a minha dor a tua dor
sabes lá que há dores que sabem bem sabes lá que há dores sabes lá das dores que há
achtung bubby
[untitled - natasha gudermane]
aviso #1
peço desculpa por tudo o que escrevi e quero é que tudo se foda alarvemente~
aviso #2
nada do que sai daqui tem algum sentido apenas umas letras que insistem na intriga nada de mais
aviso #3
há muitas putas por esta longa noite fora umas mais promíscuas - as melhores - outras mais peçonhentas umas ainda dadas a ares de senhoras qualquer uma delas sequiosa da descoberta do efeito que o seu amo provoca no mundo exterior
aviso #4
a noite vai escura nada do que era garantido durante o dia é estável durante a noite até os cães uivam e o vento parece diferente apenas diferente
aviso #5
quanto do vosso sexo foi largado no prazo que findou? tudo ou apenas o que pressente o que pode vir a ser?
aviso #6
há cantos e cantos o das sereias diurnas espraia-se pela noite não as oiçam o das sereias nocturnas perde-se em meio à ebriedade vampírica se o sugarem transformam-se em névoa pela manhã. não há saída senão a profissão de compositor
aviso #7
nunca ousem prescrutar o interior de uma garrafa pelo gargalo ficarão sem olhos e sem veias
aviso #8
aviso #9
restam três dedos quem ousará usá-los para se preservar antes da sombra oblíqua?
aviso #10
alguém perguntaria: à década morre o espírito? puta que os pariu
aviso #11
I know you and you know me too I know everything that you're going through
aviso #12
quem dá a outrem um convite para uma festa escapa-se de boa tipicamente da saturação do convívio com espécies degradadas. não há como a solidão
aviso #13
o orgasmo elevado a categoria de nome e no entanto inominável, indecifrável lembrar: nunca deixar que outros os tenham por nós o onanismo, mesmo que acompanhado e acompanhado por penetração só tem valor se se sentir que se está a foder a si próprio
aviso #14
o cão a fome constante mesmo na ausência da mesma pelo menos não são vírus como o tal sapiens sapiens
aviso #15
deste canto vejo uma imagem de luminescência ténue uma janela e apercebo-me da falsidão dos sentidos tenho uma janela dentro de mim e uma porta e só consigo pensar na puta da luz da rua quando a luz por duas janelas decresce vertiginosamente de velocidade - em relação ao ponto de origem, claro -
aviso #16
hexadecimal vícios de um nó da árvore encontro-me e perco-me constantemente dementemente duvido dos reflexos que me incendeiam os dedos nesta escravatura e sei sem o saber que nada há além do que vejo e imagino agora
aviso #17
I'm exactly where I want to be right now so don't fuck me with your apologies
aviso #18
quantas vezes se olha e se tem medo de olhar só pela irracional sensação de proibido? é medo de nós próprios em meio à solidão
aviso #19
tenho um cigarro a fumar-me e consola-me saber que sou eu que fumo a vida e não a vida que me fuma a mim. soubera eu fazer o mesmo com o tempo
aviso #20
ao término da masturbação invade-me uma esperança e uma desesperança: a esperança de saber que consigo esquecer o prazer a desesperança de saber que não consigo esquecer o prazer
aviso #21
eram sete pombas que se juntaram a mais sete e pelas quintas da aveleda esvoaçaram roubando o milho dos cultores a essas mais sete se juntaram e em meio ao imenso grito que largaram pelo ar se desvelou um grande 21
aviso #22
25º 00:36 am não se escreve a partir desta temperatura desta hora sem se estar alterado ou deus castigar-vos-á
aviso #23
quando se vir uma centelha na noite e não for o farol de um cigarro desconfie-se: há forças escondidas a conspirar contra os dedos
aviso #24
e se vos for exigido que tomem posse de algo recusem ou será o vosso fim enquanto ser
aviso #25
eu e tu nós e os outros verdade ou mentira assim ou assado não respondam à armadilha nunca (poupo-me às dez mil linhas de prosápia justificativa)
aviso #26
quereis ser comerciais um comercial é carne para cão (embora julgue que come os cães, essa a maravilha desta parábola)
aviso #28
aviso #28
aviso #28
aviso #28
aviso #28
aviso #28
aviso #28
aviso #28
aviso #28
aviso #28
aviso
av............................
asviúvastristes ospassosemvoltadacampa otemposemespaços arevoltapurulentasemdestino oolharparaocaixãonavisãodenósmesmos prenúnciotalvezdemorte talvezdevida
queroumacerveja comgravata edezputasrançosasdetantouso eumcéuexemplardeestrelas eumamortecomdor sóparanãoserdiferentedosdemais
àspalavrassegueaostentaçãodasmãos emorgulhoásperosoberbro decriação quandotudoestáporcriar eportantonuncanadasecria
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querotetaseervasinquietas eumazuldemasiadoazulparaqueoaguente edesejosinconcretizáveisdetãosimplesserem eumsorrisodeumcãomorto eumesgardezombariadequemgostadaminhaimagem eumcoponapiortascadacidade esífiliscerebral quemecaiaqualquercoisaenemdêporisso
assimsurgemasnoitesalgemadas deovospartidos deovospartidos dedesvendânciastranscendentesenadadeeu nadadenada
nadadenada tudodenada fodase
junho 16, 2004
polivitae
[Confession - Misha Gordin]
podia ter sido mas nunca foi seguiram por cada perna aberta da árvore os muitos que nunca se conseguem separar e coexistem em diferentes ramos paralelos diferentes mas iguais os mesmos dedos as mesmas mãos mas com movimentos distintos mas com unhas de comprimentos e formas variados
nunca foi e não só pode como é pontualmente olham para o lado em distracção e parece-lhes pressentir algo de familiar no outro ramo no outro lado da rua num tempo diferente
há uma absurda heteronímia pelos percursos trilhado da vagina ao ómega como se fora espelho que pode sempre mais um estilhaço mais uma imagem projectada
e a existência são muitas existências simultâneas fragmentadas mas comuns estranhas entre si mas idênticas na posição do coração dos pulmões do sexo nem que seja por serem diferentes
nunca é visto não nos distinguirmos da imagem excepto ao toque no vidro e mesmo aí quem toca o quem?
ficam pelo caminho as hipóteses tudo é concretizado no vasto arvoredo em que empregamos passos de engano de lodo e nem aquele que consegue ganhar asas voar se liberta dos que continuam no rastejo pelos galhos chãos
todos falam gritam e nenhum pensa que ouve os outros quando ouve quando sente quando tudo em tudo toca tudo em tudo é e não é
e tudo isto é tão menos que o gesto de um olhar para o lado parado no curso do tempo subitamente parado no curso do tempo
junho 13, 2004
 superhero - manuel lava
virá o dia em que o casulo será construído pelas minhas próprias mãos com os fios que apanharei nas árvores onde sangue foi derramado e não serei nunca borboleta e não terei nada a que possa chamar meu nos meus bolsos só permitirei objectos de outrem e eu próprio serei um objecto no meu bolso e não serei nunca borboleta e muito menos crisálida ou verme
virá o dia em que ao acordar terei os pulmões limpos a cigarreira vazia e mil isqueiros de estrelas ao alcance da mão e não conseguirei queimar as asas pois nunca serei borboleta ao acordar sentindo pelos olhos fechados o palpitar cego do mundo mas não me interessará pois os meus pulmões encontrar-se-ão limpos e nos meus bolsos vazios apenas verdades vazias e todo o espaço do mundo e uma carta de recomendações da associação mundial dos vagabundos
virá o dia em que vou poder escrever só para mim e ser egoísta e egô-egô e polémico só pela verdade e vou queimar a bandeira e o dinheiro de um país - que não o meu, que esse nunca terá nome nem fronteira – e ser preso só com a satisfação de não ter medo de ficar sem o sol e o mar para poder cuspir para o ar sem atingir o tecto do calabouço deitado a tentar desenhar-me com saliva e ranho enquanto de olhos abertos vejo o mar bebo o sol dentro do meu próprio universo
virá o dia em que declararei aberta a falência humana e uma sentença de morte será lançada sobre o meu cocuruto e terei os pés leves os bolsos vazios de tudo o que pudesse ser meu leve e nesse dia desenharei uma flor de lis nas pessoas com pés pesados e as putas serão finalmente ressarcidas da pretérita ofensa pela mão que inscrever tão infame símbolo privilégio de reis, cardeais e prostitutas nas bochechas dilatadas pelo excesso ruminatório ruminam-se almas durante toda a vida durante toda a vida são as almas ruminadas e ninguém se cansa de mastigar mastigar mast()
virá o dia em que não terei de pedir perdão pelo prazer que sorvo em que os corpos serão corpos com sexo vibrantes, tênseis, inquietos em que os corpos serão corpos com espírito transcendente, independente do ego social em que os corpos poderão também pensar e será esse o dia em que a grande besta do apocalipse virá virá e trará droga com fartura e vinho e imaginação e boa música e melhor poesia e as igrejas ministérios estátuas bancos escolas servirão para alguma coisa: lenha para aquecer na noite fria os corpos - com sexo espírito pensamento imaginação – extenuados após a grande festa da despedida a inauguração onde também será cortada uma linha: a que nos impede de ver vir o dia que virá
virá o dia em que acabarão os dias e o tu e o eu em que os bolsos só serão bolsos se estiverem vazios e um orgasmo será mais importante que o tempo
virá o dia em que cada um será abandonado a si mesmo sem espelho numa solidão final assassina e só então se aperceberá que existe e respira e sente e pensa e terá medo muito medo o seu medo, não o dos outros e provavelmente não sobreviverá à tentação e cairá e sentir-se-á morrer
e será levantado pelos mais puros - os tais dos bolsos vazios que vivem nas linhas de sombra que unem as paredes ao chão os tais que virão no dia que virá - e só aí saberá que a morte não vem antes da noite
virá o dia em que tudo será bem mais simples em que tudo será bem mais complexo
junho 07, 2004
[fighter - egon schiele]
ao desprender das horas quedou-se na orla do tempo um homem pendurado
trazia um relógio abraçado à língua e as suas pernas tinham tatuagens de sereias em fuga ao cataclismo das noites de nápoles
ao tremeluzir das luminárias surgiu um grito de deslumbre e logo os dedos correram para o porto para os navios de onde saiam ratazanas de chapéu e medalhas
o mundo era a noite e o oceano os corredores de portas transparentes quando o refúgio da seiva entumecida opiava as mãos as linhas distorcidas o fio por uma vida
horizonte e montanhas perdidas no mediterrâneo panaceia de mulheres perdidas estátuas e um grande círculo de paisagem situavam o abismo nos pés que olhavam o tempo passar indesejado como a pausa entre o cais e a barra como as fotografias de memória que o vento ajudava a incendiar até que tudo era um fogo até que no peito se acendia o farol
e o homem que era farol e navio e faroleiro e fogueiro e origem e destino cingia os braços ao corpo e se injectava com o ponteiro dos dias no desespero da vida sem princípio nem fim
apenas o mar e o tempo que não tem sal nem whisky
apenas o homem e todos os homens que vivem dentro e fora dele mas longe
junho 03, 2004
dolero
[pain - natasha gudermane]
luz a da noite o rasgo e quando tudo o que eu te digo parece falso é porque é falso é porque é verdadeiro
é porque tudo o que queres está ao alcance da tua voz e nada se descobre ao toque dos teus dedos nada se tem quando a espuma suave das horas parece desaparecer
e uma rosa irrompe pelo teu corpo negro às mãos transparentes da soberba e um sonho é descoberto aos olhos doces de uma criança virgem
vejo mil flocos a transgredir o ar no seio das mulheres em chamas em prantos em âncoras que não prendem libertam iludem te dão as pernas que querias ter e as asas as asas asas
e a cera que se molda ao formato do sol do corpo do corpo do desassossego da morte enquanto cordão enquanto umbigo enquanto tudo o que não és e sempre serás a vida a vida a puta da vida
[ 73*52=3796 28*52-9=1447
3796-1447=2349 1447/3796=38,11%
e se alguém, numa curva da noite te segredasse que já tinhas vivido 38,11% da tua vida como te sentirias? ]
tudo o absurdo o filho da puta do absurdo
junho 02, 2004
desceu uma gota entre os dois muros separou duas árvores em duas ganhou um mundo fragmentado no irónico acento de o compreender destruiu-o
um homem tocou com a ponta dos dedos na terra e logo as suas mãos se tornaram raízes o seu corpo uma árvore de fogo os seus olhos frutos de verão transformado em caule o seu sexo
na órbita do mar mais próximo uma duna morreu sob a pele fria da lua desviou num rebate de paixão os olhos das águas secou-se-lhe o sal dos olhos olvidou-se da lição da mulher de Job não mais foi aquecida pela saliva dos amantes
e no cima da imagem um jovem era desenhado ao traço preciso da loucura
no cimo da imagem um estardalhaço de dedos e gritos ameaçava o mundo com a promessa de um poema E destruiu-o e viu o sexo transformado em caule os dedos em estátuas de sal o poema no vento que faz cerrar os olhos
e chorar
maio 29, 2004
pesqueiro
[stay or go - steven gosling]
na praia uma mão forma o embaraço da partida a vergonha da chegada
e os corpos escamados levantam as areias levantam e procuram restos de sangue erguem-se puros à altura do horizonte insondáveis como estátuas cegas tisnadas de uma cor nem de passado nem de futuro
trazem ao ombro uma teia antiga e são mais largos que o mar mais pesados que o sol vagabundos por sobre a própria cadência estelar
e assim se apagam num suspiro manso e efémero à violência do abismo marítimo à estreita profundeza de quem os vê partir e sofre por saber que o que parte jamais deseja voltar
assim as vaginas lhes dão abrigo à orla das águas assim colares lhes apertam o pescoço e uma cruz de espinhos lhes aperta o coração assim as sementes são deixadas em terra e se lançam as mãos ao mar
onde tudo se perpetua onde nada se mantém apenas a cor das noites apenas os dedos do homem reflectidos no espelho quebrado do fim do mundo
maio 24, 2004
vem
(à Maria Joana)
vem recebo-te no grande deserto que me preenche o vazio na noite estrelada onde os sussurros do vento anunciam a pureza das cores em desbravando os limites deste mundo interior com os meus braços abertos inscrevo-me no horizonte em ardente sinal de desejo pela tua sede
sei que aí vens e contigo caminha a marca da minha morte a mão que recolherá o corpo defunto no seu próprio ventre a boca de onde os meus beijos continuarão a desaguar os olhos que continuarão a imprimir os meus desassossegos na paisagem sei que aí vens (e és tu, digo-te, a minha morte a minha vida as asas que me roubarás)
sei que sentirás no rosto a língua quente que me devora o interior da boca ansiosa por afectos palavras perguntas emoções pela tua língua percebo-te como o abismo onde entregarei como justa paga da tua recompensa boa parte do meu espírito e umas quantas inquietações abandonadas (custa-me que tanta coisa que não eu se prepare para te invadir o livro em branco)
vem repito-te as palavras de nada valem ao te fundir aos meus braços ao meu peito de ferro derretido chegará o dia em que lá verás a tua forma tatuada em tons de carne prateada (saberás aí que me transformaste mais que eu a ti que me roubaste que eu o queria)
sei que aí estás embalada com o teu primeiro conhecimento do universo rodeada por um calor calmo que se extinguirá na estupidez (de teres de crescer chegar a jovem adulta velha morta) encarnando uma personagem inconsciente numa moldura onde se desenhará (ouve o rio, será com o correr lento rápido incerto do tempo) a obra-prima do mistério da vida da vida de maria
sei que sentes as profecias que te segredam irritantemente, tu criança inocente do serás isto aquilo ou ainda o outro do terás de fazer isto não poderás fazer aquilo do que bonita que és irás ser do pareces-te com este aquela ou o outro (mas percebe, esses não quererão responder às perguntas que lhes colocares) será instante a instante que quebrarás as regras antigas que recusarás os grilhões que te hão-de querer vender (olha-me nos olhos, que saberás nunca deixar de ser criança de fazer perguntas estúpidas incómodas)
vem alcançaste a raiz da árvore da vida da ciência da morte sabes quantos ramos ainda tens de nascer para alcançar os braços da lua? de ti brotarão as folhas que serão lambidas pelo sol virá o vento amante que te envolverá só com o fito de te desfolhar do teu ventre brotarão as flores que embelezarão o cabelo divino e farás chegar às bocas de quem precisa os frutos maduros das tuas dádivas
vem tudo te espera é amarga a alegria que me invade as grutas sombrias que preenche de um aroma embriagante o pomar decadente do meu espírito (que com um toque teu não sem nenhum toque ressuscita numa loucura esverdeante) amarga como o saber-te o princípio do meu fim amarga como o saber-te maior que eu próprio amarga como a largura dos dias em que desejar os teus olhos a tua voz o teu abraço um beijo uma palavra que principie a nascer da tua boca
amarga como a distância que quando ao me leres (quando fitares os lábios vermelhos destas palavras nesse ponto hoje longínquo) terei percorrido na procura de uma paixão amarga (talvez apenas a paixão de me querer criança de fazer perguntas de olhar para mim e sentir o que senti hoje quando te vi) talvez longe talvez perto sempre distante (posso-te pedir que me grites o meu nome pai ao vento quando sonhares comigo que tentes sempre sempre roubar-me as asas?)
sabes seria ridículo dizer-te que nasceste hoje naquele dado local àquela dada hora com aquele dado peso tão absurdo como tentar apanhar um bocado do rio do tempo com uma mão aberta com um crivo de areia compreenderás que não nasceste nunca pois existes, simplesmente, sem nenhuma razão ou sentido para isso que ao existires todo o momento é um nascimento uma mudança em que te reinventas maria sempre diferente maria nunca igual nunca idêntica sempre maria
vem maria há alturas em que as palavras inundam os pulmões e trazem o afogamento o esvaziamento precoce do que é pedido pelo sangue vem apenas maria vem
maio 20, 2004
caga nisso vamos embora aprovaram os transgénicos apagaram o risco a torre de pisa caiu
hoje apareceu uma menina negra com um rasgo de terra queimada no cabelo uma mão decepada um olhar longínquo de quem já morreu e ainda sorve a teta da mãe
caga nisso que interessa a arte a criação o egocentrismo ou o tempo a morte ou as marcas a inteligência ou a primeira pessoa caga nisso
mete o cú às costas fecha atrás de ti a porta do tempo desliga-te dos gadgets sente o dia que passou nas passados do porvir encaminha-te para a morte no sentido do sul
VAI
(eu já lá estou)
odisseia - a tentação
[i dont remember where - natasha gudermane]
Escrita a palavra Vem o esquecimento dos dedos Da língua
E dos corpos de gelo emerge a noite funda Abismo de mar
Quando à descoberta das orlas islândicas Se revela o mistério Nunca o desatar dos nós Nunca o passo no areal Nunca a interrupção da voraz canção pelo abrir dos olhos Nunca
Nem sequer à dor da surdez dos companheiros
maio 19, 2004
estático
naquele domigo o teu corpo parecia flocos de tempo a esvoaçar pelo ar para lá para cá numa cadência suave e precisa como o grito da gaivota de fogo que rasgava de quando a quando o círculo da janela
e parecia que não havia mais tempo a vir ou a chegar fomos mortos em suspensão ou então o tempo havia parado e divertia-se a calcorrear o cenário estendido do céu à cidade
mas naquele domingo tudo estava morto e só a gaivota passava de fogo, como o sexo de fogo, como a beleza de fogo, como luz
e nas tuas pernas enroladas em torno das minhas era mera presa surpresa em morte de poesia vítima de um assassinato que prolongou o azul desse dia pelas horas que voltaram a queimar
nada era estranho nada queimava tudo parece tão absurdo fora do círculo da janela daquele domingo
maio 18, 2004
gemini seduction
[sem título - natasha gudermane]
A caminho do ponto de encontro, Ava tropeça casualmente num pensamento. Estaca subitamente no topo da memória do que se passara na noite anterior. Foi com ele, Lut, que ela efectivamente estivera, a quem se entregara numa onda inebriante de impersonificação da sua própria irmã, Iki. Toda a luxúria que nunca havia experimentado antes vestia-a agora de uma sensação de plenitude que só o pecado violado consegue trazer.
Cheiros e visões de carne no meio escuro das velas enjoam-na ao ponto de ficar excitada, imóvel no meio da rua movimentada. Tudo se assemelha a névoa. E o cheiro misturado de Lut e de Heva ainda habita os sentidos apanhados desprevenidos. Era então assim que se atingia mais um patamar: a libertação perversa do corpo enclausurado.
Com a luz do sol do meio dia nascem pequenas gotículas de suor, percorrendo o peito coberto por um vestido largo, alcançando o topo do púbis de Ava. Tudo parece irreal, e o desejo instala-se uma vez mais no seu espírito. Um dedo é elevado à boca e saboreado sensualmente, perdido numa lascívia demasiado concreta para poder ser ultrapassada casualmente.
Ava dirige-se ao café mais próximo, encaminha-se para a casa de banho, guardada por uma daquelas portas que deixam vislumbrar os pés por baixo da mesma, entra, encosta o rosto à parede em frente, estaca os pés ornados por umas sandálias cujos atacadores envolvem como serpentes as pernas torneadas, dirige as mãos sedentas para as suas nádegas, abrindo-as sofregamente e sente o sexo faminto a derramar o fluído da luxúria. Masturba-se avidamente, deixando adivinhar uma transmutação séria de si própria.
Onde será o amanhã, quem verá ao espelho? Será ainda ela? Ou ter-se-á tornado realmente em Iki?
maio 17, 2004
sul
[summer time - natasha gudermane]
o que escrevo quando nada sinto? salto para o dorso da mariposa transparente e adormeço após lamber as etéreas asas antes de ler os clarões da vigília na retina moribunda consigo ainda sentir o cheiro do sul puxar com sons doces a ponta do meu sexo
sonho com crepúsculos púrpura sobre um mar de palha vejo nitidamente os corpos que se abeiram da estrada com a mão estendida mendigando o uso das sensações escondidos no verso da sua pele
ovelhas brancas lambem o pasto dourado e ecoam o seu terno balir em todos os recantos do sonho duas delas copulam alegremente sob a copa de um sobreiro enquanto eu masturbo a minha imaginação com a imagem de universos perdidos
e continuo a nada sentir no mar próximo esconde-se o abismo das emoções e eu sem saber nadar
encerro-me nas pálpebras sangrentas cruzado frágil de uma demanda pelo significado desconhecido despersonifico-me ao atravessar a linha do horizonte num salto tão temerário como temeroso
as águas a consciência marinha após a planície da realidade fluir apaixonante e apaixonado porta que atravesso e onde fico vejo agora tudo ao longe
para sentir larguei os sentidos para amar larguei o amor para conhecer procurei no conhecido o desconhecido para ser rasguei e depus aos pés do vento o meu corpo destruído
as paisagens azuis faunas e floras sensacionais a harmonia das flores inexistentes o doce sabor da intensidade orgásmica da eternidade a solidão em que me perco a cavalo dos desejos
deixo a minha cabeça ao ponteiro dos minutos serei decepado brevemente das minhas veias escorrerá nectar alimento líquido das almas sólidas sorvam-me esgotem este oráculo afoguem-se no vinho fumegante encham os poços dos olhos com a música caótica deixem-se dissimular pelas vibrações do vazio
o que escrevo quando nada sinto? apenas os versos que nomeiam as emoções que jorram das fontes nas terras do sul
maio 13, 2004
invisível
[recreio lunar - montagem]
À posse contrapõe-se a liberdade. Uma sombra move-se por entre sombras, imperceptível como o seu hospedeiro. As nuvens regulam a intensidade da vida: não há sombras em dias de tempestade.
Na passagem subterrânea milhares de olhos voam ligeiros numa lentidão sôfrega. Atropelam-se em rotas predestinadas à colisão, mas nunca se tocam, nunca se encaram. Uma criança penetra fundo em poços vazios – bem diferente da face da criança que julga amar.
Pelas orlas das árvores forçadas ao cativeiro brotam sons de asas que pouco batem. Até os pássaros aprendem a utilizar melhor as patas que os braços. Existe um mar, uma espécie de espuma cinzenta que a tudo abarca, a tudo cala, em tudo mora.
E é pelas tardias horas do crepúsculo que duas mãos se tocam, perigosas. Há a esquina perdida, perpendicular a um beco pejado de passagens secretas. Torcem-se as sombras, colam-se à pele, multiplicam-se os gestos, os lábios azuis afastam-se no alheamento natural que o medo do diferente provoca. Vermelho, negro, violento.
Eis chegada a hora dos vampiros, enclausurados durante a jorna em lençóis imundos, jogados na sobriedade das cavernas, perdidos de fome até ao momento da autofagia. Ressurgem as sombras, desta feita irrepreensíveis: verdadeiros fardos adiados que ninguém quer por carrego, que são alguém pelo simples facto da sua condição de renegados.
Um ponto, e tudo conflui numa lógica de umbigo para o centro da espiral. Afasta-se em curvas sempre mais, mais apertadas, mais soltas, mais leves. À agilidade surgem as forças da ordem. Às forças da ordem é enviado o peso da treva, e todas as sombras se refugiam na invisibilidade histérica das aves em fuga pelo caminho da noite.
Súbito, todas as portas se escancaram, e os corpos, destruídos pela centrifugadora de almas, apodrecem numa preparação para o dia que se segue, enquanto as suas sombras descem à rua, retiram as portas dos batentes, constroem uma torre e ascendem à lua por meios terrenos.
Assim surge a superfície invisível da lua, a estância balnear das criança que se sabem olhar por olhos invisíveis e ver o reflexo das suas sombras, de mãos e pés desesperados por um toque.
(e outro invisível)
maio 11, 2004
a transfiguração marginal
[imagem manipulada - autor desconhecido]
Sou a mosca da taverna. Poiso sorrateiramente em todos os copos. Se transporto merda nos pés, que me perdoem os fregueses, pois do taverneiro já obtive há longa temporada uma bula outorgadora de todos e quaisquer direitos sobre tudo o que por esta sala buliçosa se passeia ou pousa.
Vivo há novecentos mil anos. Sou todas as moscas de que os vossos sentidos torpes acusam a existência. Todas aquelas que tiveram as asas arrancadas pela crueldade infantil das crianças cinzentas. Todos os corpos nojentos despedaçados sob mãos, toalhas, mata-moscas, jornais, cabeças, copos, almofadas, pastas em manchas negras e vermelhas sacrificadas ao sagrado conforto humano. Todas aquelas zonzas que em horas de maior calor insistiram em se colarem às vossas peles, teimaram no zunir de círculos aparentemente inconsequentes pelas sombras mais frescas das construções emparedadas.
Tenho novecentos mil anos e ultrapassarei obscenamente todos os vossos limites.
Sou mil olhos que vêm em cada corpo mil corpos, em cada folha mil folhas, em cada feze mil fezes. E saceio mil vezes a minha fome. E embato mil vezes contra mil janelas. E fujo mil vezes de cada vez que observo mil moscas que sou eu. Só me consigo montar se fechar os olhos, os tais mil que de outro modo fudiriam mil moscas que seria eu e teriam mil orgasmos num êxtase onânico polissexual. Nem uma mosca é assim tão resistente.
Sou a mosca da taverna. Gosto do cheiro dos bêbedos e das putas. Chateiam-me os perfumes e as meninas coquetes, irritam-me os cabelos empestados em shampoos. Não gosto de humanos, mas gosto da merda que vão largando por aí. Sorrio sempre que ao cruzar uma esquina da cidade anónima, ao ultrapassar o tronco de uma árvore pela noite, me deparo com algum aflito que se alivia dos sagrados males que o povoam.
Embriago-me porcamente em cerveja morta derramada no tampo das mesas da taverna. Especialmente, aprecio cerveja tratada pelo vómito.
Sou a mosca da taverna. Deleito-me quando me enxotam. Especialmente no final da noite, quando os movimentos dos frequentadores estão já tão torpes e imprecisos como uma toupeira ao sol. O que me regalo a brincar com esses animais, a irritá-los, obrigando-os a sentir na pele o que é ser irritantemente perseguido sem se saber bem por quem, sem se saber bem como e muito menos bem porquê. É aí, nas particulares ocasiões em que meninos e meninas, cavalheiros e donzelas, mais querem nada sentir que a etérea e ébria presença do mundo e de si próprios, refugiados na doce caverna dos mostos e das destiladas, que alcanço os maiores níveis de gozo. E se por um golpe de sorte levo uma pancada mortífera e desapareço num sploft de encontro à parede, logo ressurjo, vinda da dimensão paralela das moscas, a desancar freneticamente o impiedoso agressor. Olho por mil olhos, tortura mosqueira por exosqueleto prensado. Melhor ainda é quando o assassinato é perpetuado de encontro à pele de alguém – o frágil corpo, as nauseabundas entranhas a escorrer pela epiderme, a penetrar lentamente nos corpos frágeis pelos poros dilatados às mãos da noite.
Tenho novecentos mil anos e observei o vosso nascimento, o nascimento dos vossos deuses. Faço parte integrante dos vossos medos, dos vossos pesadelos nocturnos. Fui morta pelos vossos pais, pelos vossos avós, por todos os vossos antepassados. Serei vítima sistemática dos vossos filhos, de toda a descendência que expulsarão dos vossos ventres líquidos. Existi e existirei. Vocês só têm braços porque era difícil apanharem-me com a boca. Não tiveram a inteligência de saber usar a língua, não souberam que podiam ter vindo a ser camaleões.
Sou a mosca da taverna. Quando me virem, pasmem. Ousem expulsar-me do bordo dos vossos copos, mas recordem-se: o taverneiro conhece-me.
maio 10, 2004
[feet hang - norbert guthier.jpg]
23:08 23:14 23:17 23:25 23:26
23:40 23:41 23:48 23:51 23:53 23:54 23:57 23:59
23:08
( lá grim a)
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maio 06, 2004
[belly star]
Aqui, precisamente em lado nenhum, alcanço com a ponta do pé o silêncio de uma estrela caída, nua da combustão auto-infligida aos acordes da solidão.
Não se permite um som, uma brisa sequer ousa cometer a ousadia de perturbar o momento da escassa vida que se vai alisando no sentido da escassez.
Fora da pele, encerro o espectáculo lunar, despeço o olhar do universo e principio o alisamento do terreno.
Remexo as pétalas primaveris com as mãos transparentes com que me tocaste, e deito-me de bruços com o umbigo sobre a estrela. Morro, e o deserto aumenta, o mar diminui.
Num gesticular ensandecido, levo a língua que se desprende da cabeça tombada à boca que, prateada de gelo, ofereces à minha fome.
Sinto, sinto-me em ti, sinto-me-te. Vivo da saliva que escorre fértil para a areia fina da paisagem, e logo uma raiz cresce sem que nem tu, nem eu a sintamos. Mas cresce, sei-o, seio.
Não ouso o cerrar dos olhos. É-me impossível despegar os sentidos do espelho que estilhacei em ti quando decidi partir, escapar de ti, escapar de mim. Mas não escapei de nós. Amo-me desmesuradamente, logo sou o principal alvo do veneno que continuamente se escapa dos meus dedos. Executo-me cada vez que me toco, que te toco.
Compreende, a estrela sobrevive apenas do cordão que lhe estendo: nunca mais me poderei despegar do chão. Nunca mais poderei cessar de te ver, de te sentir, de te trair. Só assim alguma luz consegue persistir – mesmo que oculta, mesmo que submersa no meu ventre materno.
E para te cobrir basta-me o sopro que é renovado a cada segundo, a cada ciclo, a cada mísero instante pelos meus poros, pelo meu cheiro, pela violenta possessão com que te fodo sem te tocar, somente sabendo que vives mais forte dentro de mim que dentro da tua pele. Assim te coloco a meu lado, morta de silêncio, a alimentar sem que o saibas, pelo tanto que me reflectes, a fragrância da estrela nua.
E é assim, percebe, com as unhas cravadas na terra, que é o mesmo que eu, eu o mesmo que tu, tu o mesmo que a estrela, a estrela o mesmo que tudo, tudo o mesmo que tudo, com os dentes bem presos na raiz que cresceu a partir do esperma que se criou no intervalo entre as nossas bocas, com os alados membros que os homens inadvertidamente libertaram dos rasgos que me infligiram onde nunca me vejo, que arrasto o mundo por esses ares fora, num grito desesperado que arremessa o todo que eles julgam não existir de encontro ao chão.
É assim que uma estrela se torna cadente e encontra refúgio debaixo do meu umbigo. E assim tu te entras dentro de mim.
maio 05, 2004
[tim philips]
ontem à noite lembrava-me de não sei o quê
mas preenchia-me a boca um travo de luminosidade suave
recordo-me agora o que sentia ao deslizar para os reinos órficos parece por vezes que nos encontramos enquanto charneira de tudo o que nos rodeia num maravilhoso momento de partilha de deslumbre pela facilidade com que basta abrir
a mão a palma a voz o sentir
para logo todos os fragmentos se projectarem em sombra pelo vasto teatro sob a ordem pacífica de um único fragmento único
é bom correr jogar à mudança viver várias vidas naquela que nos tentaram ensinar ser única mas o alto lugar isolado de uma aparição assume a importância que é inexistente ao se passar rápido pelas paisagens
parece que as fadas afinal existem demasiado perturbáveis pelo extremo ruído do mundo auto ocultadas em pavor dos enormes silêncios que preenchem o quotidiano
por vezes é bom ouvir uma voz apenas ouvir uma voz
maio 03, 2004
assassinato
[judith beheading holofernes - caravaggio]
horizonte derramado em ventre a mulher sucumbe aos braços de navalha surge o sismo, rompe à boca do mar a voracidade do corpo medo
no reflexo da imensidão um grito para lá da realidade sinaliza a demolição do círculo fechado: tudo desapareceu, o olhar posto lá longe onde a chuva morre e o caudal irrompe e dois bichos antigos encontram o vermelho do céu pintado no abraço da terra
lânguido, o centro galga as linhas fronteiriças transgride a ordem, o comando petrifica toda a existência no vagar de um sussurro e assume-se como marginal perante as mãos fechadas do mundo perante as mãos fachadas do mundo
mulher-tudo-mulher-nada mama cornucópia limpa tudo se completa no horizonte tudo se cumpre no ventre tudo morre à fome da preservação excepto a própria fome excepto o próprio horizonte excepto a sementeira que ultrapassa o ventre
maio 02, 2004
ghokismo
[ghok - miguel marques (manipulada)]
Um pequeno apontamento se torna necessário como a vida: quem nos vê do que somos quando desconfiamos o que em nós próprios julgamos ver? Após o breve interlúdio prefaciado de forma mais curta que o habitual, passemos à leitura da pequena história. Será da mosca, será da árvore? Pouco interessa, pois os poucos capazes de inferir após este escondido mas luciferino início quão de oculto a tarefa que se segue irá tentar descrever, desses, frase feita, há-de ser o reino dos céus (as crianças que vão berrar para outras longínquas vizinhanças). Aqui principia a história de Ghok, aquele que desafiou em façanhas, não algo corriqueiro como a própria vida, mas conceitos que ultrapassaram a espécie que os criou, coisas como a moeda, o sexo, ou, ousemos, a própria fé. Curta estória será esta, pois é feita de algo menos verídico que o vento que a tudo envolve. Resta dizer para conclusão (e não segredem ‘já’, pois para bom entendedor meia letra basta) que Ghok chupou o clitóris a si próprio após ter desempenhado brilhantemente o papel de decepador de pénis vigorosos em toda a sua família masculina, besuntando-se após tão delicada e complexa operação com o fito de penetrar tão incógnito quanto seria possível no misterioso ânus do elefante cor-de-rosa (sim, sim, o do LSD). Antes de cometer tamanha façanha tatuou em cada um dos seus gémeos dois nomes. A tradução é impossível (tal como os propósitos, tal como isso não interessa de todo a ninguém). O resultado foi de sangue, espalhado, pois as tatuagens foram efectuadas com uma faca romba. Chamar-lhe-ão louco. Julgo que tanto lhe importará agora (como então, já que está morto, o que de si pouco relevo introduz à questão), pois a náusea imensa que o preenchia é, será, foi, algo que escapará a todos aqueles que não foram Ghok. Ghok atendeu aos chamamentos imensos de todos os deuses inventados para gáudio de todos os poderes que já existiram. De tudo isto se esqueceu numa cagada memorável em que tal foi o esforço, a luta, o desafio interior, que todo o supérfluo, senão despojado do seu corpo parasita na altura em que a lata feze alcançou as tranquilas águas, se perdeu no egocentrismo liberto aquando do profundo ‘ahhh’ lançado incauto ao mundo nesse momento fatídico. Ainda hoje, ao relembrar tal história, me surpreendo com a extrema facilidade com que se morre, para inevitavelmente se renascer no instante imediatamente anterior. Ah, o tempo que se esvanece mal se sente a vida a viver. Ghok, o cagão (na verdadeira acepção da palavra) teve, sem ser necessária rima, uma visão, um limitado mas abrangente vislumbre de uma realidade que o transcendia, ou seja, em que ele se transcendia a si próprio. Apercebeu-se de que aquilo a que ele denominava Eu nada mais era que algo que não era ele: a carne, nervo, pele, osso que lhe ensinaram ser ele próprio. Isto quando se viu, subitamente, a observar-se a si próprio (ao seu antigo Eu). O relâmpago Ghokiano foi instantâneo. Logo o logos surgiu, e um novo passo foi açambarcado em questão de infinitésimos: a memória. Como se destrói a memória? Morrendo, resposta simples. O corpo, antes da sombra que Ghok antes era, trivialmente optou. Ghok morreu. Onde pára a sua memória, terá perecido juntamente com o perecer da sombra?
Um breve apontamento se torna necessário como a vida: quem nos vê do que fomos quando desconfiamos que o que era antes não mais era que um sonho, e quando o futuro se assemelha apenas a um passado? Após o breve interlúdio posfaciado de forma mais curta que o habitual, passemos à ridícula observância do futuro inexistente de Ghok: será mosca, será árvore?
abril 30, 2004
abissus
[heading to fire - autor desconhecido]
abismo espelho do desejo reflectido na ilusão da fronteira do dedo uma asa do passo um momento de vertigem
a profundidade da terra erguida na imensidão do espaço mãos que empurram pés que travam a saudade da liberdade a dilacerar os sentidos
o suicídio a escuridão temperada pelo rosa-luz que penetra a pele o clarão vaginal
o abismo
abril 27, 2004
vozes
 [hands - autor desconhecido]
intensamente definidos os caminhos da chuva a voz da noite de lustres de sangue intermitentes num perigo súbito de desaparecimento libertos os animais sangrentos no trilho fosfórico pendentes em atenção torpe insónia longa que dura firme simultânea na longa queimadura da pele seca
instalam-se num desagrado os caminhos da água que desaba sôfrega em atropelos suicidas a pele contra a face calma da terra
longamente se possuem os momentos da escuridão anunciada indagam-se os corpos apartados na escuridão eléctrica dos abrigos pequenos tão pequenos que assustam assustam num sufoco de desejo laminado reflexos e desejos laminados nos inúmeros espelhos lacrimais
são por vezes as esperas o carrasco dúplice que amputa lentamente num livro de vagares de vida as falanges incendiárias tecedeiras expectantes de uma combinação inesperada de acasos repentina inscrição de alguma impossível luminosidade prenhe que dê a tez do alimento à seiva que escorre incessante fértil da boca líquida do inexplicável
e seguem vislumbrando em cada passo de escassez os viandantes invisíveis pelos intransmissíveis caminhos da chuva em perigo letal a mórbida conversão da semente em vida da vida em desfolhamento de morte
na curva da janela diáfana habitando os interstícios entre os nomes os verbos penetram-se suicidariamente sombras humidades os bichos ocultos no verso das mãos delapidadas inquietas
abril 26, 2004
ortogonalidade
 [lucifer - autor desconhecido]
Rede com buracos A peneira e o sol Caos Ou um espelho luminar Repartido por inumeráveis mãos Ansiosas Decepadas Artifícios holocaustos definhamentos Recalcadores da incómoda vontade Ebúrneos adjectivos Máscaras da apocalíptica espada Que embrenhada em violência derrama verbos Nomes temporalizados pelo ser Pelo ser
Pelo ser
Pelo ser
Pelo ser
Pelo ser
Pelo ter
Que a algema só veio ao pulso quando se agarrou a primeira coisa à vista Infalível Incalculada Eis a terrível cimitarra lunar Castradora do magnífico hermafrodita O espelho de narciso O tal que desenha da imagem o ser
Nesse tempo Durava a sombra que se desenhava pela peneira Quando rodeou os lábios o sexo O desejo Planeou-se a morte pelos regaços do caos Por sobre as rochas do metafísico promontório As rochas feitas de barro roxo
Longitude solar O pequeno pote chinês onde ficou o fogo que abandonou as cinzas Tesoura-se numa prega Numa linha do olhar inesperado Aguardante do dedo vicioso onde se depositou o misterioso veneno Extraído da vagina subitamente alargada Rasgada Pelo sexo uterino
Algures no tempo Um espírito desabou no céu Espalhafatou-se um grunhido cósmico pelas casas-de-banho das sombras Dissolveu-se antes de principiar a queda Infantil escorregou lambendo os recantos às letras Correu com as mãos o corpo estelar Orgasmou estrelas em super-novas Desenhou-se em buracos negros E a treva encarregou-se de cobrir o universo De sombras De frases
Algures no espaço Desdobrou-se numa nuvem traseira aos olhos A vermelha fragilidade dos tempos paralelos Das peças que se cruzam no tabuleiro
abril 15, 2004
fumaçando
[fumaçando - miguel marques]
engraçado o fumo dos cigarros dos outros sobe sempre e o meu para me não ser excepção procura sempre na sua marcha graciosa felina as estranhas entranhas da terra
como os cigarros quando em conjunto me fumo com alguém o fumo dos outros vai para cima o meu vai para baixo eu procuro responder à resposta com a pergunta os outros intentam perguntar a pergunta com a resposta
indago-me da causa deste peso desta força que força tudo o que de mim se abandona a uma gravidade que procura o colapso
tratar-se-á apenas de ser o fumo que vocifero quiçá feixes genésico de sementes ondulantes cinzas em busca perpétua de um qualquer útero renascido morno húmido envolvente
o tanto que sobra do que partilho pelas bocas rubras do mundo pelos lábios sedentos dos olhos que se condoem à visão atroz dos bocados de pele que vou descamando pelas alvas terras serve de veneno e paz a estas mãos que projectam sombras uma na outra imersas na bruma assassina do tempo
ao me observar fumando descubro-me cornucópia incessante
só me pressinto aparecer ao me dar ao me entregar sem nunca me prender na expulsão a partir das falanges dos insustentáveis fragmentos dos estilhaços espelhados de dor e prazer incrustados na larga tela das mãos que me fumam cortantes sibilinos
sinto as pegadas da morte a cada baforada a cada bailarina etérea que nasce da escuridão da boca do meu corpo distraindo este tédio imenso em que me penso preparando a melodia final
sinto-me o insecto larvar que após recolhido todo o lixo que alguma vez houvera assomado ao horizonte se interroga na larga confusão de opções de configurações e formatos de cores palavras e corpos de signos significados e perguntas
assim me pressinto insecto larvar momentos antes da elaboração do intrincado casulo
até lá fumando outro cigarro pesado cogito nas metamorfoses e na necessidade que o fumo dos outros tem de se escapar para o ar enquanto o meu vai adubando impaciente a árvore onde me esconderei crisálida esperando a súbita fenda no dorso
fumando-me
abril 12, 2004
des-a-celeração
[montagem sobre 'cry' de Edvard Munch]
Sentado estava o homem. Cabeça baixa, mãos nas têmporas, cotovelos nos joelhos, envolto no aspecto meditativo que todas as cabeças ganham nesta posição. O rosto virava-se para o chão, de modo a escapar aos possíveis olhares com que os passantes pudessem tentar captar a sua expressão.
No espaço envolvente derramava-se uma imensa luz, oriunda do sol vigoroso que se escapara à aurora ao principiar o dia. A imensa estrutura metálica formava uma gaiola envidraçada a pelo menos duas dezenas de metros de altura. Os pés passeavam-se por todo o lado, uns rápidos, outros vagarosos, ensaiando num ballet de multidão as complexas coreografias de cada uma das inúmeras pessoas que participavam no confuso espectáculo matinal. Bancas de jornais, quiosques de café e pastéis de nata, máquinas de tabaco, letreiros electrónicos com nomes, siglas e horas, cartazes publicitários, portas, corredores sem paredes, símbolos sinalizadores, apreensão.
O homem a tudo ouvia, em meio à frustrada tentativa para pensar claramente, para se abstrair da esfera sonora que a tudo invadia. As pontas dos dedos percorriam nervosas os cabelos escuros, os olhos cerrados com força não impediam a intromissão das sombras, das vozes alucinantes.
Súbito, uma voz metálica sobrepõe-se ao burburinho difuso. Poucas palavras, uma sigla, uma origem, um destino, uma indicação de desembarque. Inesperada, uma gota de suor divide a face do homem, do cimo da testa à ponta do nariz, quedando-se hesitante por segundos, por anos, num claro desafio à aceleração precipitada, exponencial, do ritmo de pensamento em alturas de ruptura. Tudo se decide num intervalo mínimo, em total incoerência frente a todo o caminho percorrido até então.
A gota decide-se, brilhando em queda lenta pela forte luz existente, numa ânsia de reflectir tudo o que ali existe antes do desfalecimento no piso cinza.
O homem decide-se, soerguendo lentamente os olhos após vastos minutos de imobilidade total, afastando ligeiramente os pés, separando da cabeça as mãos num gesto exasperante ao tempo que é efectivado.
O bulício parece imobilizar-se a partir de uma certa perspectiva, a luz aparente movimenta-se apenas nas sombras projectadas, tudo se torna asséptico, imaculado, inodoro.
Numa das mãos do homem surge uma navalha prateada. Na esquerda.
abril 07, 2004
metempsicose
[Geopoliticus Child Watching the Birth of a New Man - Salvador Dali]
se me penso em estagnação logo as aves abrem as asas e preenchem a árvore de guinchos despedaçando em notas graves esta língua medonha destruindo a cabeça destes dedos de verbo
rejeito-me durante a noite numa profunda angústia de condenado rebento primaveril em medo do fruto que se esconde se oculta pela sombra disforme da inquietude
e é ao sentir destas … mãos … que nasce o grito horripilante de tanto desespero que despeja no mundo fogo treva incendiada este … corpo … estacado em pose de frustre fuga no segundo cruzamento onde o néon de uma placa rasga na noite a mensagem da noite em agressão violação estropiamento da pele que já mal reconheço
talvez um toque uma mão um ‘deixa’
NÃO! não enquanto conseguir enfiar os dedos nos olhos nas veias no sexo no cansaço
não! não durante o instante em que desabo sobre ti tal cascata de interrogações não durante o tempo em que exista a possibilidade da disseminação da sombra por todas as portas da casa faca romba não assassínio arterial mão
não enquanto cigarros juventude velhice prematura de gestos do pensamento derrame de esperma pelo peito ofegante não quando o sorriso da criança o diadema do crepúsculo a bebedeira de azul e negro
não enquanto palavra poema tesão saltos pedras chuva desassossego rupturas e assonâncias pelos becos da pergunta não enquanto desejo folhas berros soltarem fragrâncias de sarjeta paradisíaca nos jardins da cidade perdida
não o talvez sempre o talvez
sempre o quê o quê que a base deste pedestal já tem tanta tanta cera e o pavio teima na erecção original à visão do horizonte larvar
- ouve-me pelo cheiro da brisa que nocturna se escapa – perdi-me quando nunca me houvera encontrado
‘antes do tempo’ dirás
ao lado do tempo segredar-te-ei por estes ouvidos mudos lá pelas paredes estelares onde se desenha sob o esgar da maldita manutenção dos estados a mutação necessária ao universo
NÃO! sucumbirei mas de pé com a língua espremida pelas falanges com os olhos no cimo da cabeça com os pés transmutados em verso
a tudo renego sem nada perder trata estas mãos com carinho pois que nada conseguem conter agarrar nem o próprio corpo que as sustenta
pelo negrume fora minto a incoerência ouço-me em ti búzio jorrando cornucopiais gargalhadas e assoma-me o denso arrepio da verdade inexistente
lembro-me agora das lições passadas: não há passos de volta não há permanência fora da viagem nem reembolsos por serviço mal prestado ou fraudulento
lembro-me agora que se me penso em estagnação logo as narinas se me dilatam e sangram obrigando o trilho à viragem o vagabundo ao caminho incessante o desejo ao rotundo NÃO! persignado na testa das águas putrefactas
lembras-te quando o toque era o riso a lágrima o afago o sussurro o voltar da página para novos episódios nada disso ficou nada disso permaneceu em volta de tudo tudo gira tudo vive tudo morre e se renova incessantemente
como os passos destas plantas onde se escondem certos signos como o som que renasce por debaixo das unhas emporcalhadas como o infante berro que me re-obriga à apertada vagina como estes dedos que se embriagaram de palavras e se dirigem sonolentos para o comboio que torna a partir
direcção: ‘lá’ bandeirola ao alto novas nuvens pelo ar
abril 05, 2004
[adán y eva - fernando botero]
"Se pudesse separar-me de mim Separava-me Divorciava-me Partia-me em duas! Seria um divórcio litigioso Porque esta parte de mim Não perdoa à cara-metade. Não ficaria com nada de mim Excepto a pequena parte A ínfima parte que é paz. Para a depositar nas tuas mãos Dizendo: Toma é tua Foi o que de mim restou."
de encandescente, com a qual discordo, e logo:
não não quero essas sobras prazenteiras que só dão prazer a quem gosta de velar os olhos pela noite dentro
abomino esse gesto prefiro as tuas mãos noutros lugares menos secretos mais escondidos escorregadios
à paz reajo com uma língua feia entrincheirada solta por vales de água primaveril rodeada de salgueiros tristes de desejo mas vivos mas amantes do regato que escorre da sombra oculta da montanha
se partes o teu espelho em dois dá-me a metade que se não vê à luz do dia retiro até a minha sombra da umbreira da porta só para te ouvir gemer - vem -
recuso - com uma faca entalada na garganta que te apara a pouco e pouco a escama do corpo - essa tua derrota vil
ao primeiro raio de lua que invade a fresta da gelosia principa o suor do quarto onde te aguardo onde me aguardo à tua metade sedenta
e obrigo pela treva adentro as minhas mãos ao trabalho incessante até que de ti mais não queiras que o nada pois nada então possuirás de teu
abril 03, 2004
corpo digital
[ruka - natasha gudermane]
Assoma-me sempre esta frustração antiga ao agarrar nestes dedos tresloucados, ao sair para o jardim da superfície imaculada, ao esperar que eles façam as suas necessidades no espaço entre as raízes e o caule das árvores certas. Parece que as suas dificuldades intestinais se projectam em mim com um vigor que me eleva a terrenos de um torpor incolor e nauseante. E todavia não se sente um cheiro no ar. Apenas as cores são fétidas e inebriantes.
Julgo percorrer um canteiro florido mas na realidade por onde os meus dedos me levam tem uma textura peganhenta e um paladar agri-doce. Não são pétalas que os dedos me trazem, bem próximo dos olhos avermelhados noto que são escamas verdes, reptilíneas, fracturantes. Apercebo-me dos meus dedos enfiados nas orelhas, nas narinas, no ânus do grande lagarto, conduzindo o meu sexo hirto, pleno nos limites do suportável, para a sua boca, para a sua língua trifurcada. Evito a tragédia com um puxão seco, desesperado, que me brota das células da ancestralidade luciferina.
Abandono o jardim e tento não pensar nestes medonhos membros que por castigo me conduzem inevitavelmente ao pecado de tocar, de sentir, de lamber, de remexer nas feridas abertas nos poros da pele incendiada.
Sei-o todavia, e isto para bem da sinceridade, que sou escravo e não senhor desta fauna digital que tanto persegue infantil as estrelas à noite como esventra vaginas estelares em busca da luz do dia.
Deixo-me embalar na melodia irritante dos dias cinzentos, e espero que os dedos sufoquem com falta de ar no meio destes cruzamentos de caras pesadas por onde se atravessam os sonhos curarizados. Nada adianta, morrerei antes deles darem o primeiro sinal de fraqueza.
Só me resta uma saída, uma única escapatória desta espiral centrífuga que ameaça esquartejar-me o corpo lateralmente. Mostro uma palavra a um dos dedos. De seguida outra a outro, e outra a outro, e uma frase a uma mão, e um poema às duas, e seduzo-as a pousarem os olhos num livro, a tocarem-no, a soprarem o pó que oculta o verso dos significados, a se entreterem, dedo a dedo, com o fabuloso teatro de marionetes que outros dedos ousaram fazer, uns mais velhos, outros mortos, outros ainda por nascer.
Os dedos já só vão agora ao jardim para roubar as penas aos pássaros incautos, já só pescam lulas e chocos para as obrigar à tinta preciosa. Posso finalmente repousar o meu espírito cansado no tédio suave de vislumbrar as impressões, os devaneios oníricos, as novelescas realidades, os inquietos versos, os desejos insatisfeitos, as existências perseguidas, as vidas e as mortes que se desenham e obliteram hora sim hora não, os novos signos e significados ébrios de vontade que me escorrem agora das bocas dos dedos.
Transformei-me num corpo inexistente, transparente e observador. Num corpo com dedos. Ofuscado, oculto, incogniscível aos outros corpos pelas sombras cósmicas projectadas pelos infames dedos.
março 31, 2004
maria ii
 [mary.j. - joão e rita]
há uma figura ali ao lado familiar em demasia para lá dos tempos transactos diz-me sem falar 'a tua morte começa aqui' e sinto uma ternura de morrer às cinco batidas do relógio mentiroso
pergunto-me sem saber emissor ou destinatário - quanto mais canal ou levada - por onde anda a desumanidade em que esquinas em que trevas iluminadas de lampiões artificiais em que corpos andanças sexos
e aquele pequeno corpo que me mói a razão - que por mim já assassino era - constrói sem permissa ou paciência uma estrada um caminho de sangue e carne a dissoluta travessia do auge para a queda que se me anuncia
foda-se mais à tesão constante que por estas nuvens fica gravado um nome a caracteres de sangue de sangue (e como é possível que dê por mim a comprovar a verdade sanguínea) principiou a decadência, as portas estão abertas ao convite
apetece-me escrever narrar-te, olho sôfrego a limpidez impura destas mãos clarividentes tumefactas
fecha-te cerra-te pára de me violar as entranhas com essa interrogação que de mim sei menos que a pergunta
que de mim só sinto a boca que beija aquela cabeça aquele pescoço aquele sexo novo aquela boca sedenta de palavras sem nome
março 30, 2004
gotas
[stefano arcidiacono - blooddrop]
por agora esperam as gotas finalmente a madrugada e com ela o orvalho menstrual um derrame de folhas, linfa, clorofila abrasador o odor exalado pelos leves dedos da aurora nas gotas nas gotas duas virgens descalças cavalgam restos de dunas pedaços de relâmpagos laminares num abraço de boca única deslavada pelos gritos milenares de invernos distantes mortes uma súplica desce do ventre à terra encanto rodeado por águas pelas águas magníficas do nascente às gotas nas gotas à visão do fontanário oblongo um halo perfaz a silhueta da sede mãos erguidas ao longe ajudam ao recorte espelhado do medo a sede a fome as gotas explosão luz dor imperceptível num estertor de orelhas quentes envoltas no deslumbre amante do sangue da sede da fome das gotas CAI um bater mágico de palmas ensombração tropical sombras pela vegetação macetada pelos caminhos do descobrimento homicida esperando a fera besta de olhos de bico sentidos de asa tumor ardendo pela noite preta esguia CAI cave ne cadas a ronda das viúvas em torno da entrada do inferno d e s e j o p r a z e r vida que espreita pela oportunidade do acaso cai a espera esperma a gota sacia a sede que arde na curva da garganta velha o sol a pino morte à sombra numa existência de pegadas sem corpo leve como o sangue água de rega das plantações dos hortos de flores carnívoras lentamente go ta à G O T A
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epitáfio
pela palavra morre o pensamento, da palavra vive o pensamento; desdobram-se neste vasto terreno as tentativas
de
abandono da infernal chuva de significados que persiste na calcinação do sossego; a aragem é fria, o abrigo
incerto,
o horizonte mente pelo ilusório encerrar do que para lá dele está: o inexplicável
eis o limiar do
desassossego, a esquina
onde as palavras se prostituem pelos dedos dos olhares ávidos de certezas, quais louva-a-deus em cio de
poesia
histórico
almas danadas
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