scriptum tremens

fevereiro 27, 2005


precisa-se de uma empresa de mudanças


desgosto de relógios. trazem às mãos o tipo de pensamentos que cegam o que é realmente importante, do que necessita de um amadurecimento que dispensa ponteiros de pressa e exacta limitação de horizonte


desgosto de relógios, mas a chuva que hoje veio limpar o mundo lembrou-me do eterno fluxo das coisas, no seu sorriso de clepsidra inocente


acaba aqui a respiração deste livro. ao nervosismo que fundou este movimento pessoal de desapossamento, cedo o meu grato elogio: sinto-me hoje menos humano e mais humano que há cerca de um ano atrás


foi um ente que neste meio se formou, desenvolveu e aqui encontra naturalmente o seu findar. descobre-se que a informação carece de esterilidade, que as palavras são algo talvez mais real, mais imanente na sua transcendência ao género humano, do que se poderia pensar. e cresceram os mistérios de qualquer ente: através da palavra se derrubam as fronteiras sitas a montante e jusante da explosão constante que movimenta o significado através dos significantes


do ente que aqui cessa. do ente que, quase inevitavelmente entre outros entes - como se de um elo de uma corrente multidimensional se falasse - se retira para o descanso da escuridão, do tão necessário silêncio


quem escreve - e falo agora do animal que se oculta por de trás das palavras - perturba a ordem mágica: provoca iluminações explosivas nas noites de quem lê, semeia os frutos assassinos do presente. e a estas forças as palavras dizem sim; e a estes segredos as palavras riem numa orgia de prazer desenfreado; e a estes corpos etéreos, a estas cabeças de olhos e línguas transparentes as palavras emprestam a sensualidade do toque, o testamento que materializará a memória da emoção


basta. esta foi uma caminhada em direcção ao vazio. cá chegado, encaro o absoluto sossego pelos sentidos que, como previa, me informam do meu engano: houvera sido, fui mais uma vez enganado pelas categorias. apenas acertara, acertei num ponto: servi de veículo a algo que, pela altura que ganhou, me mostrou a pequenez de tudo. a pequenez e a absoluta extensão do desassossego


ainda: aos que serviram de portão a obras de arte que motivaram a minha profunda admiração: obrigado pelos sustos que me pregaram. também disso alimentei o incêndio das minhas noites


transponho a linha. puxo a maçaneta. fecho a porta. não me transformarei numa estátua de sal. prefiro o prazer da dor, a fragrância do holocausto


 


[pedro moura]


fevereiro 02, 2005


prefácio à destruição


dedodope-marilia campos.jpg
[dedodopé - uma palavra vazia]




    tendo como ponto de partida o fim, impera voltar ao início para se poder descobrir quem na realidade se é. empreende-se então a jornada, um pé primeiro, outro de seguida, passos que principiam inseguros, ganham cor, forma, cheiro, velocidade, em direcção à destruição do tanto que impede a liberdade da existência. as roupagens empregues na viagem são da cor do desassossego, do questionar incessante, doloroso, dignificadas pela purificação dos sentidos e das experiências
   
    assim nasce a narrativa, melhor dizendo, a batalha entre o que se situa a montante e a juzante da palavra, limando-a com a crueldade utilizada para com o diamante. ateiam-se os fogos, prepara-se a fornalha, ajeitam-se os cadinhos, despeja-se a matéria prima a partir do rubro da destruição, verte-se o líquido sangrento no molde, só então se percebendo de que molde se trata. surgem, a par dos passos, as palavras, os significados destruídos e renascidos a partir da cinza do caminho


    alcança-se um ponto mais puro, mas que não seja bastante para o alcançar do sossego: aí mora a perfeição, inalcançável não por definição, mas por confissão do que se sente. mais viagens se empreenderão, mais corpos serão descascados, descaroçados e apresentados à boca faminta dos dedos. do fim alcançou-se um outro meio, mais alto e de ares mais rarefeitos


    à paragem necessária inscrevem-se nas asas cansadas as etapas da viagem, mastiga-se o gelo para saciar a sede, permite-se a morte ao corpo, sob a promessa do cumprimento eterno da dívida: ir, sempre


janeiro 21, 2005


corredor


tomyvonne64.jpg 
[título e autor desconhecidos]


infringi-me e esqueci-me de me erguer a partir da sombra que se desenhava, absorta em sonhos e fantasias, na cama desfeita. calmamente tracei um caminho até à porta, e fiquei-me a ver-me ir. abandonando a casa tirei do chão um punhado de terra. engolindo-o retomei à postura vertical: era de novo homem


ouvi a minha voz falar, numa tentativa de me calar os sentidos. perante a impossibilidade de tal empresa constatei-me em comportamento maníaco, num assomo latejante de fanatismo e crendice. alcancei a rua de costas, puxei pelas minhas mãos o meu corpo, arrastei-me como se da órbita arrancasse um olho


senti o frio da língua que se não encerrava na boca. veio uma mulher, uma mãe de órfãos que ma chupou. uma atitude em favor do silêncio. chega bem a dor que nos atormenta quando se expõe os dedos à desgraça da multidão, e ao nosso redor outros seres não respiram que não sejam canibais. senti o frio e os lábios da mulher não me aqueceram: eram brancos, como neve, como uma paixão de gelo, como uma queimadura intensa


infringi-me e virei o peito para dentro na tentativa de respirar melhor. vi-me a navalhar o ventre com uma costela, e da ferida jorraram imagens, músicas, crianças. em vão procurei no meu corpo as minhas mãos: estava a agarrar nelas com um sorriso de guilhotina. suspirei-me e sustive-me na beira das narinas, enredado nos pêlos que se emaranhavam em volta do clítoris. suspendeu-se o sol e a sombra desapareceu. um grito e o espaço entrou em revolução: o sangue escorre sempre pelas bermas do tempo


janeiro 15, 2005


totem


taurus - ton koppens.jpg
[taurus - ton koppens]


vêm vestidas de música
tresandam a gritos histéricos de alegria
e fogem e nascem
enjaulam-se com os fios de luz que deitam dos olhos
amanhã é sempre uma lembrança que urge queimar
desleixar como se o retirar uma pétala a uma flor
desregulasse o vasto equilíbrio das esferas
das noites por onde as mãos vermelhas se erguem em susto


e escrevem sem maiúsculas
chamam os gatos para o dever do toque
do fascínio latejante
das danças perdidas às peles dos que se despem
e comem na boca umas das outras
loucas pela profundeza que em tudo habita
rasgam-se em línguas pelas janelas que ousam abrir


há quem lhes chame a morte
e não há seara por perto para mondar


há quem lhes chame a vida
e não está nunca um sol tão forte que queime
que eroda da inverosimilhança dos traços as cicatrizes do espaço


as palavras revelam-se opacas
insuficientes para tão distantes corpos
para os corpos que bebem da taça redonda os seus próprios dedos:
há em permanência e suspensão a imagem eterna do mundo
gravada no frágil tronco viril


engrinaldada a árvore, caem as folhas


 


janeiro 13, 2005



dali skull.jpg
[Salvador Dali - título desconhecido, talvez women skull and me looking aside, talvez..]



dai um corpo de escamas à consciência
azuláceos louvores à canção
e miséria à opulência

transvesti a loucura de sons
e cheiros
idiomas e costumes:
a aniquilição da evolução do estado perto

                              é sempre a primeira letra
                                                            a primeira letra?
                              sim, a primeira letra, a tal em que empiezas como quem emperra
                                                            sinto-a como o desejo

                               acertas, corrigeme-la
                                                           se nem um traço tenho...
                              corrigeme-la e nada mais te arremessarei
                                                           se nada nunca me havias arremessado
                               mas diz-me, o segredo
                                                           não há segredo, apenas a condição
                               e a percepção..?
                                                           fugidia, enganosa como traços de dedos na noite
                               como, se em mim existo e de fora recebo o alimento
                                                           os contornos..
                               sim, os contornos, e interrogava e sou interrogado
                                                           por ti mesmo
                               por mim mesmo
                                                           por mim mesmo

como se de duas asas se tratassem num uníssono difícil de contentar

quanto medes?


                              quanto queres que eu meça?


janeiro 12, 2005


tráufago



há uma força incontrolável que advém da presença da palavra no mundo, um poder de tal forma avassalador que destrói num instante de tempo todo o enorme edifício de bambu que responde pelo nome humano


e com essa força há fragilidades, e com esse poder se criam maravilhas: o princípio do apocalipse foi o nome, o primeiro grunhido que se replicou, permaneceu, mudou e gerou todo o universo de significados, significâncias e signos que preenche agora o nível que por sobre da humanidade se nos ergue


somos meros veículos, incubadores e suportes de uma estrutura muito mais vasta: um andar do edíficio de fractais que nunca começa nem nunca acaba


mas somos, e este ser acarreta a terrível responsabilidade da existência, sombra que se ergue solitária e vazia nos vasto planalto a que fomos inadvertidamente erguidos


como a criança que viu diante da sua anterior falta de consciência o primeiro morto, assim nos encontramos, frente ao desafio da responsabilidade, do ultrapassar a infantil idade das fés e das crenças construídas e colocadas como suaves muletas: um velho passou e rasteirou a haste que nos amparava o espírito acima da terra


doem, as palavras: nem sempre o disse, nem sempre o soube, preciso foi que sobre mim visse a espada do desespero pausada, suspensa numa impossível beleza de vazio, e que a tivesse puxado com as minhas mãos (antes sem linhas na palma) para o abismo que se esconde na minha cabeça. afinal sempre haviam doído, as palavras: simplesmente as desconhecia


pensava nisto no preciso instante em que olhava para o carro do lado e me auto-seduzia com o look glamoroso de uma mulher que fumava como se carregasse em si todos os mistérios do mundo. o raciocínio acaba com um rotundo desapontamento: nenhuma palavra se me revelou do fumo que incauto era expelido pela boca projectada da mulher carbonizada. mas era bonita, e se se olhasse com atenção via-se um reflexo estranho, mareado, nos seus olhos castanhos
 


janeiro 08, 2005


a significação do desejo e da passagem



repara, já é noite, já os velhos recolheram às suas conchas de recordações. repara,  nunca a noite foi tão oblíqua que acolhesse nos seus braços amorfos os telhados de toda a cidade: os gatos nunca dormem
sabe-lo, e nunca me cansa repetir-me que o sabes: as palavras são navalhas afiadas, beijos de paixão que recuperam às mãos dos insatisfeitos a necessidade da guerra.

longe estarão os passos quando às asas cederes os olhos
de nada adianta gritares para dentro, pois a tua voz não ecoa em ti. não tens paredes a rechear esse labirinto fantasmagórico com que vives o que de ti desconheces. para lá da frontaria da tua boca há uma música que preenche o caminho que te é correcto. como tu também eu me perdi antes da terceira pancada: a peça que levamos a cena é toda ela bastidores e unhas reais, cabelos pelo chão e sexos sujos, sorrisos de perdição, olhares para o vazio em busca de ti na audiência invisível: há que nunca acreditar nas luzes que te ofuscam a pele, com que tentas ofuscar a tua própria pele

e no entanto já a noite coseu o manto das almas. os gatos nunca dormem

terás a garantia dos teus próprios dedos? da língua que se te desconchava ao ligeiro toque do vento? vejo-te em renúncia, e indo beber água à fonte sempre me deparo com as interrogações que estruturam o universo: logro alcançar uma saciedade que está sempre um momento após

quantas... quanto peso suportam duas pálpebras e um corpo estendido no chão?
pergunto-me
pergunto-te

e com a questão principio a sensação de violência com que te assalto a mente.
deliro, e nesse delírio arrependo-me mil vezes de nunca ter chegado à conversa com uma árvore, de sempre me ter quedado pelo medo de gritar sem esperar eco como recompensa: somos eternas solidões que deambulam por entre a multidão à espera de encontrar alguém com os olhos fechados, de nos vermos para que nos possamos matar

a alegoria da mão pintada, tinindo em suaves filigranas pela teia da nossa memória

gostava que parasses, que me dissesses da tua mudez enquanto pelos nossos braços uma brasa cavasse um poço de real vazio

pára! cala-te que não te posso mais ouvir. a tua boca incorre-te em gestos dos quais não terás nunca o vislumbre: é uma boca doce, intermitente como a pendularidade das emoções. e não a controlas, visto ser de um vermelho que se esquiva com uma sabedoria milenar a toda e qualquer tentativa de dissimulação

é assim que te leio: fraca, madura como um pêssego agostino que se tem de colher cuidadosamente - sempre gostei de comer directamente das árvores

repara, não cai a noite do seu pedestal, e as aves assemelham-se a um corredor de olhos invisíveis que nos delapida as costas, que trai a atenção e nos mata enquanto nos ama - ou nos ama enquanto nos mata, uma significação bastante diferente

repara, não há sombras. e, no entanto, está cheia a lua, prenhe de ansiedade

passas-me de soslaio ao ombro do pensamento, e nunca te conheci antes que pudesse albergar na minha garganta um ou mais fragmentos que te-me alimentassem o beijo

da esfera com uma mão pintada


janeiro 05, 2005


holografia


virtual dialogues - patrick boyd.jpg
Virtual Dialogues - Patrick Boyd


trazem dias e reticências nos colos rarefeitos
irmãs das mãos
mães holísticas do espaço nomeado

são gomos sem casca
acidificam a esterilidade do mundo
com o alimento que escondem no verso dos olhos

as paisagens perdidas
interrogações impossíveis de sustentar
surgem os horizontes mais longíquos que tudo
e um homem redescobre-se na impossibilide da sombra
como que perdido pelas malhas fractais da sua
existência

as crianças conhecem-se em fogo
quando da memória foge a necessidade da recordação
e pelas mãos
irmãs
se faz sentir o revestimento genesíaco
do intenso grito branco

catalisa-se uma admiração terrível
quando umas das crianças conhecidas
numa qualquer quarta feira
inscrita num calendário irreal
aos primeiros raios da noite
desenha com a ponta do pé esquerdo
olhando sorrateira para a lua que surge acima do vermelho coração solar
uma palavra
proibida pela língua dos homens
definidos pela sombra

frincha a frincha revela-se enfim
a direcção dos brilhos do mar
negro
a impossibilidade de sentido fora da palavra
o esquartejar da verdade entre alfa e ómega

holos! holos!
tudo é tudo é tudo é nada
é figura é representação
é simultâneo é difuso
é impossível é imaginável
é nada é nada é tudo
quando nasce a criança cega que encarne a próxima ariadne
que traga na mão direita a adaga que finalmente
permita a permanência no labirinto
mas com o seu cabelo
sem saída
sem entrada
sem perspectiva

holos! holos!
quanto mais fundo se olha mais o mesmo se vê
até ao infinito
quanto mais alto se perscruta mais o mesmo se vê
até ao grande infinitésimo

olhe-se para o lado
procure-se alargar o horizonte circular até à esfera dos passos em volta
afogar o tempo no oásis do esconderijo do mundo
nos olhos da criança cega
do homem sem sombra
na mão holográfica que se segura a si mesma indefinidamente


janeiro 04, 2005


helderaldicus ou "talvez devesse partir isto em partes"


gosto dos que julgam que sabem. odeio-os. voto-lhes um desprezo tão grande como o de uma montanha a um rato. no entanto, toda a gente sabe que o rato foi parido da própria. coincidências, nada mais que isso.
sei-o quando desço as escadas: o adormecimento somente pode ser despertado pela morte. ou pelo pensamento dela. ou melhor, pela ideia de não existir. o processo de transição, em si, até se reveste de algum interesse. o interesse pelo processo. o medo pelo estado resultante
e as mãos pelo corrimão lembram-me da debilidade das pernas que hei-de ter. e o ranger do soalho dos degraus projectam-me para os meus ossos daqui a uns anos
agora as sombras, essas acompanham-me. são minhas amantes. podia passar umas quantas vidas a conviver em delírio vivencial com as sombras. especialmente quando não consigo distinguir as sombras na escuridão. descer as escadas e não acender uma única luz, eis um auge maior que todas as emoções da vida de algumas pessoas
saber-me observado pelos passos em que me descrevo. e saborear a sensação de ser indisto no negrume, na sombra que não existe por fora da pele. admito: vizinhos, quem vai aí, o diabo ou deus ou outra merda qualquer? um ladrão, um marginal assassino, violador, pior: alguém que vos vai obrigar a retirar um olho e a fazer transferências milionárias da vossa sacrossanta conta bancária. os bancos deviam fazer publicidade com metamorfoses de cidadãos normais em porquinhos rosa lavadinhos
a rua: o algoz e a liberdade. carros barulhos luminárias amarelas a imaginação
e uma vontade enorme de me meter debaixo de umas rodas, só para ver como seria. não: não a não existência. aí o limite
mas da voracidade da noite, especialmente no inverno, recrudescem fantasmas que não existiam antes. e todos os fantasmas são bons para a orgia dos sentidos. não fosse a magia o maior dos estimulantes, e toda esta realidade de inferno seria um céu entediante
sei que existe pela sombra ténue com que ilumino as passadeiras, e tenho noção do ridículo do meu pensamento: mas é mais clara que tudo o que vejo, não que tudo o que sinto
se afirmasse que me crescem caninos por dentro, talvez ninguém acreditasse; neste estado das coisas, limito-me à faca e ao macete: limpeza, acima de tudo
no final de contas, não me queriam asséptico? asséptico me têm. a mim e ao que vou possuindo
jack the ripper, jack the nibbler, jack the singer
parece uma merda do hitchcock, que pelo próprio nome devia ter uma tesão do caralho com estas coisas. muita tesão, mas pouca concretização. os filmes à realidade, eis a preferências de um fraco. pqp, ou seja, puta que pariu, com todo o respeito às putas. sem elas, esta merda não se aguentava
ah, mas devia agora dizer algo transcendente, poético, mágico. algo como: pelas entranhas da noite sou inevitavelmente despido da pele que marca em limite o espaço / do tempo que passo, enquanto por todo o cosmos estrelas nascem, morrem, se transmutam em desejos que tudo absorvem
bah, bbah, poli-bahhhhhh
pena não estar a chover. a limpesa (com esse, só para dar a impressão que não me enganei) recorda os pais que vestem os filhos com preservativos antes deles ejacularem
o semáforo para peões, o verde o vermelho o amarelo o púrpura, a vontade de descarregar na rua a carga anal que me vai no cérebro
admito para mim mesmo a vossa corrupção, a doença que me atravessa o ser todo o santo masturbado dia: a necessidade de pureza
não é poesia, é verdade, por muito que custe aos estroinas que se escondem por detrás do encantamento das palavras; por muito que me custe a mim
hoje, neste preciso dia, perdido no lençol do tempo, dei por mim a pensar quebonitaqueéaloiçadestamontra: o prenúncio do prepúcio (e eu que me passo com rimas)
o veneno: dr strangelove, the bomb, the bomb, the bomb in lisbon, the bomb in my self, what is the bomb in myself
the ultimate weapon: things as they are
from whom?
me
who is me?
me is me
me is me?
meisme?
mesmo, mesmo com toda a chatice de viver, de fudir, de comer, da subjugação a conceitos, a prenúncios, aos profetas, aos proxenetas
e a moral?
como diria uma amigo meu: crime e castigo, pune-se a pessoa ou o acto?
não interessa: pune-se quem mais facilmente puder ter o epíteto de culpado
por exemplo: se eu agora me for embora sem acordar esta pessoa, talvez tudo não tenha passado de um sonho
um sonho como o que (b)milhões de pessoas ousaram ter desde há umas dezenas     de        milhares                de                                anos                                                      atrás
eudeamonia, a puta do paraíso
e eu carregado de um pensamento: mijar. ok, ok. não é poético, não é lírico, é sarjético. e? se eu dissesse que o meu alívio passava pela destruição de algo de mim na imundície do tecido social, talvez fosse mais bonito
nahghhh...... mijar na rua, atrás de um poste cuja luz se projecta para a frente de mim, amiga, escondendo-me da polícia, dos políticos, dos outros postes. ppppppp
a gaja do corto maltese a esconder-se de mim por detrás do ecran.... vaca, lá porque não tenho um brinco no ouvido esquerdo (sim, ouvido e não orelha) não quer dizer que tenha mais princípios que esse cabrão (que belo copo beberíamos... pergunto-me quem seria morto nessa história)
champagne
agora a estória, de como eu soube que um gajo se tinha apossado da alma de outra pessoa sem saber que essa pessoa era ele próprio, que por sua vez tinha impersonificado alguém (num intervalo de tédio) que tinha morto quem?: lui même
vejo uma sombra no charco da água da tarde, e apercebo-me que não quero olhar para cima: a dor seria demasiada para que a pudesse suportar. pelo menos aqui, pelo menos agora, quando a luz é mais intensa, embora seja escuridão
sobressaem as sombras que me agarram, não os corpos, não as peles e muito menos as unhas
chega à altura em que as sensibilidades se misturam com os sentidos, e daí surge uma torre de babel que não prejudica ninguém: antes estimula
sentimos que a bebida já não é a bebida, e o desejo já não é o desejo: antes a raiva pela contingência da existência
e afinal, onde é que o cabrão do universo se situa?
             
              não sei
                             não sabes
              sei
                             como assim
              apenas
                             sei
              descobre o filamento por onde largas o teu passo
                             o teu passo?
              o teu passo
                            o teu olhar
              o teu passo
                             pelo qual se guia um tempo indistinto
              e as pessoas se perseguem para além do suportável
                             por aí
              um assomo de leveza
                             e tudo se perde num turbilhão pacífico de sexo
              tudo, talvez tudo
                             talvez nada, que sabes tu
              tudo
                             tudo
              tudo
                             e no entanto, tanto que fica por descobrir quando fechas os olhos
              e sentes que nada é bem o que é, antes o que nunca será
                             sim, o canto do desespero
              nada saberes que já não saibas
                             a problemática do conhecimento
              a impossibilidade  do conhecimento
                             os espaços interiores
              a impossibilidade de sintonia entre o que és e o que não és
                             a solução?
              a morte?
                             não, a fé
              a fé, a crença
                             o fedor das plantas
              o fedor das plantas, o sentimento do vazio
                             sempre a incoerência
              és e não és
                             és e não és
              foste e não foste
                             fui e não fui
              foste e não fui

a água, o público que me assalta apenas por ter as mãos manchadas de sangue, o fluido menstrual, sou homem, menos que homem, menos que nada, sou a minha própria morte, a tua própria morte
mas fujo, ainda consigo fugir, o que funciona ainda é confiável: as poças de água são ainda fontes purificadoras, oh balham-me os deuses (que eu não sou religioso)....
por todas as águas que me assaltam, por todos os fogos que me queimam, por todos os calhaus que me apoquentam, eu digo que respeitarei todos os corpos deitados na noite, tanto até à fonte do seu tormento, tanto até que todas as nuvens derramem a ÁGUA pela noite fora e o que existe se sinta purificado como se morto
outra estória, a da dor que se sentiu a passar de corpo em corpo por cada amante que caía à voracidade da vida: o prazer indistinguível dos assassinos
e por angústia a coragem
há quem me diga que é mago, capaz de transformar a alquimia em filosofia e a filosofia em crença: tudo me é desconfiável, e no entanto a crença em tudo é totalitária
há a igualdade nas coisas, nos conceitos, na matéria. e não se parafraseia um schopenhauer. até porque ele nunca teve a passar por ele cem viaturas enquanto parado num semáforo: tudo é rápido
distingo as palavras, preocupamo.nos pouco com a forma, chateamo-nos quando tudo para
e procuramos um limite, procuramo-lo tão próximo de ideias que nos veiculam pelos mecanismos habituais: drogas, como as adoro
algo eu sei: o que vocês escrevem, entre o que sentem, o que pensam, o que vivem: há um véu de transmutação, de ocultação, de defesa
de mim próprio sei isso (o que é esta merda de "mim próprio"?)
nada é sequer aproximado à verdade: tudo é forma: e a forma é o que configura a arte, não o conteúdo. há tudo por desbravar, mas tudo já foi desbravado. bastou o agarrar na imaginação para tudo o que era simples desaparecer
a poesia entedia-me... não, minto. entedia-me o pouco valor que se dá à forma. tudo são convencionalismos, hábitos, rotinas. cada um identifica-se com  aquilo que está dentro da sua esfera de conforto, e pouco mais. os mestres: publicidade
sei lá descrever o sentimento de me arrepiar com algo; tenho vergonha de dizer que uma flor me dá tesão, tão comum é o sentimento em termos culturais
precisa-se de uma nova escala de valores... MERDA, precisa-se que desapareçam todas as escalas de valores, que a alquimia volte a ser um mistério e a identidade da magia volte, venha preencher a nossa vontade de falar
just keep talking
talking all over
talking about everything
speak about this and that
express what you are feeling
redeem yourself from your own secret
release your mouth
your face
into the great mirror of knowledge constructed
and always
you shall walk like this
always up
always different
always starting from another place
this way you'll walk the desert
you'll know what you're not
not what you are
'cause that's something you'll never know
or else
the mistery
the joy would disapear
would disapear
would disapear
would colapse into a void greater than you
vento
fronteira
a paz da guerra comigo mesmo
a paz da bondade contigo
a droga
a vida?
tudo, e nada que se possa chamar de nada
o trem que parte e nunca tem uma locomotiva que se possa chamar de chão
bitola, e desgraça que se transforma em mito
os cães que uivam e transportam a noite em noite
que resvalam pelas bermas da estrada por onde conduzo
pelas fragas dos abismos que me reconhecem
e destroem estrada caminhos céus
comem as bocas de quem quer falar
e consomem
sem um olhar sequer à fronte
k
cápas
gambozinos crianças adultos battleships
the bomb
e um dos quatro cavaleiros,
percebes?
há asas que tens de alcançar e que te fogem
sempre
e olhares que desafiam o desconhecido,
o medo de tocar
eu
sempre terei
um prazer mórbido em ver caras
por muito sombrias escuras ocultas
que possam estar
_____________________________
as onomatopeicas centopeias revoltosas
vão continuar outro dia
o mijo não é suficiente para que as palavras se soltem
e voltou: igual mas com menos mijo
Sabias que onde existe pensamento sobre o que não existe
existe falta de existência de ti?
O espaço que não ocupas com vulgaridades é
é mais ou menos exactamente igual a se o ocupasses
desaparece de existires nessa aparência sonâmbula
egoextrocêntrica
acorda, tem um orgasmo ou dois e volta a dormir
mas desta vez faz-me um favor: ressona.
______________________________

focagem, a força de trazer a farsa ao teatro
sentes?
consegue.se vislumbrar a face do horizonte
o cerrar dos olhos
leve
lascivo
uma descrição subtil da interpenetração
enquanto mozart brinca no requiem
e o gajo cujo nome acabava em 'eri'
salieri
a sinfonia da morte
mais forte que tudo na vida
ouves

ouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouves

ouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouves

ouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouves

ouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouves

ouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouves

ouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouves

ouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouves

ouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouves

ouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouves

ouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouvesouves?
 
 
 
o silêncio
que te preeeeeeeeeeeenche, o corpo
e quando tudo falha,
o coma em meio à rua preenchida por dedos
os algozes (de novo) que consomem os terrenos
queimados
por onde aqueles, os outros, espaços se vomitam a si mesmo
uma coisa sei:
a solidão habita em todos os espaços
e nós somos apenas um arquipélago
arquipé-lego
ar-quiiiiiiiiiiii-pé-largo
o peta pan da desgraça
do capinhão grancho
da façanha de tirar
a morte da vida enquanto um orgasmo pervade
a pele
a pele
a pele
a pele
a forma
que se foda o conteúdo
este não é o poema continuo
fode-te helder
estou demasiado ébrio para não te respeitar
e demasiado ébrio para te respeitar




o que aconteceu entretanto? veio o medo sem que por ele se desse, instalou-se confortavelmente na poltrona ao calor seco da lareira, sonegou a partir das suas fronteiras invisíveis as várias capacidades expressivas dos dedos, da língua, da imaginação. tudo mudou, e ninguém se deu ao trabalho de perceber a intrusão da preguiça, do luxo... não, tudo isto é mentira, falsidade - qual auto-crença - da culpa ser algo que sempre assume uma causalidade de origem exterior
é bem mais profundo o alcance do processo imperceptível que se operou por debaixo do queixo, sempre projectado para longe de tudo: trata-se de um caso que envolve actos homicidas. suicidas, corrija-se a assassina expressão a bem de alguma correcção semântica
revela-se enfim a grande ilusão: a perfeição humana, consubstanciada na desinteressada procriação de conforto e na moralmente louvável construção social: leva a mão a dirigir a lâmina ao próprio peito que a alimenta. finalmente a percepção da realidade: não se dota o instrumento de nenhuma estrutura que possa permitir o basear do passar dos dias em capítulos que não estejam já escrito no livro das regras
dizem: o vazio ascético frente ao mundo como meio para a ascenção da alma a patamares mais etéreos. ninguém preveniu ninguém acerca da extrema rarefação do ar, das enormes dificuldades que enfrentam asas que não podem respirar


alto lá. tudo isto é uma invenção, uma ficção de espelhos envoltos numa luta fraticida pela criação de novos reflexos. como calha alguém a tamanho embrenhamento de díspares vontades? cheira-se no ar a crueldade, o egoísmo próprio das plantas que largam ao vento e aos insectos o alimento, voluntariamente alheadas das consequências de tão primitivo comportamento, de tão antigas patranhas. como é possível nomear o universo se a mais simples coisas, o mais básico sentimento , assume uma tão variada quantidade de caras? voltamos à mesma ladaínha de sempre, a palavra é incompleta, la la la, os significados são prisões de arco-íris, pu pu pu curucucu, todo o esforço de conhecimento é vão devido à inevitável limititude do sujeito que visa conhecer, ih ih ih larga-me seu bruto, a utilização da linguagem como forma de pensamento configura-se, à partida, enquanto mecanismo de produção de conhecimento, tão ridícula como tentar fazer um desenho com um papel num lápis, gnah gnah uuuuuuuiiiiiiiii, pela lógica facilmente se chega à conclusão da definitiva paradoxalidade representada pelo termo 'conhecimento', CHEEEEEEEEEEEEEEEEEEGA


cheddar. está tudo fudido. como se sai do labirinto do absurdo quando a vista a partir das saídas do mesmo se assemelha a um labirinto infinitamente mais complexo, feito de duas paredes paralelas impossíveis de alguma vez mostrar onde levam? bem se tenta ser humano... talvez haja mesmo um ponto de não retorno, a partir do qual o mar passa a céu e da linha do horizonte florescem belas paisagens de trevos e formas fantásticas e magia e crianças a serem respeitadas pelos mais velhos. talvez, quiçá (apeteceu)


percebe-se a razão do cancro. a parte da natureza de que a malta alegremente se gosta de excluir, deslumbrados pelo nosso grande umbigo humano, borrifa-se obviamente para os dicionários onde vêm inscritas e explicadas palavras como 'sentido' ou 'destino' ou outras quejandas: limita-se então a passar a entediante eternidade a criar novas formas, enquanto forma de diversificação do universo. compreende-se o tédio que não seria se tudo estivesse quietinho, ordenadinho e limpinho como esta malta humana tanto gosta de ver as coisas. no limite, e dentro do limite desta nossa ridícula capacidade de compreensão, poder-se-ia perfeitamente advogar que tudo o que existe poderia bem ser nomeado de cancro. obviamente com as suas infinitas variações, quer em termos de forma, quer em termos de conteúdo e de outros conceitos do tipo que agora escapem aos dedos. alas, também se dá a certos fenómenos nomes como amor, ódio, velocidade, tempo, etc.. quando não se faz a mais minúscula ideia do que tais 'coisas' possam ser. grandes chapéus de chuva. porque não substituir o termo 'palavra' por 'chapéu de chuva'? parece bem mais exacto e indicador do que se está aqui a falar ('quais foram os chapéus de chuva exactos que ele utilizou?', 'repete lá esse chapéu de chuva?', 'quando ela me cumprimentou, fiquei sem chapéus de chuva. foi embaraçante..')


assim o resto do cosmos passava a contar alegremente com um bocado mais de humor na sua vivência monótona. o grande objectivo das grandes mentes humanas seria andar a partir chapéus de chuva nas cabeças uns dos outros. alguns mais ousados poderiam mesmo usar golpes de mais baixo (profundo?) nível para levar a sua avante ('não é que o sacana me apanha de costas e...'). ah, como a vida seria mais colorida. chapéus de chuva de todas as cores, formatos e tamanhos


BASTA! mas que merda é esta? não tarda parava-se aqui de escr


dezembro 24, 2004


projectilíneo







misha gordin - doubt - gl3-06.jpg
[misha gordin - doubt - gl3-06]


uma palavra
o início de um poema
desde logo a expressão da maior dificuldade com que um ensemble de dedos se pode deparar
será que o sol tem semelhantes dúvidas
indagando-se diariamente sobre qual a janela onde irá bater ao grito da aurora

tu que me lês és inevitavalmente humano
e não me apetece escrever para humanos
raramente me apetece
vejo-nos como uma superfície limitada em demasia
embora com olhos
olhos que partem das vísceras para inventar universos

um olho é ridiculamente pequeno
estupidamente grande para a sua manifesta pequenez

daí à voz três palavras
não há pior ouvido que a boca
nem pior beijo que o dos lábios
em particular quando se entretêem a lamber com o som que produzem o conjunto de paredes que os rodeiam
: não me apetece escrever para  e c o a r

consubstancia o que de mim recebes
(mero emissor sou)
no mais completo que possas ser
reinventa o que ouves pelos jogos de espelhos que te identificam
esquece-me mais aos meus dedos
à minha pele ao meu pensamento
- nunca acredites em algo que não seja pelo menos reflectido, transmutado por ti

e no entanto não me apetece escrever para ti
talvez pelo avassalador tédio que sinto ao ler o que de mim sai
o que já me não pertence
- passamos toda a existência a desagregarmo-nos
- a devolvermos ao todo o tanto que nos deu, vai dando
mas que me desagrada vislumbrar aprisionado nessa tua terrível esfera de gente

satifaz-me com um gesto perigoso:
fecha os olhos, imagina que és um cadáver imobilizado a vislumbrar estas palavras
passantes em bando pela exígua sala da morgue
- lembras-te que os pássaros passam o dia a esculpir o vácuo?

não me grites que os mortos não sabem ler
claro que sabem
aliás, o alfabestismo é das principais causas de morte

satisfaz-me, nada te custa
afinal
estás morto
frio como sempre tentaste estar

agora observa a composição
relê-a
de trás para a frente
baralha as estrofes
os versos
as palavras
os caracteres

repete-os
busca-lhes o significado
até deixares de os ver
e nada mais sejam que construções, traços informes
relâmpagos brancos na escuridão dessa sala onde te meteste

digo-te:
gosto de ti
não penses nunca o contrário
nem te lembres que apenas to digo para que te sintas menos só
aprendi há muito o peso indizível da solidão
é transparente, a puta
mede-se em pés de gigante

tenta só lembrar-te que és tu que lês
não eu que escrevo
; nisto reside toda a magia da criação
; pois ao estar aqui
; neste pardieiro de palavras
; tu sentas-te ao colo dos meus dedos
; escreves comigo estas palavras
; essas palavras que te peço
- liberta-as do eco
- liberta-te das paredes
(deixa-me em paz, não me apetece escrever para humanos)

o sol
quando nasce
não é igual para todos
há janelas que visita primeiro


dezembro 20, 2004


tangôo


tangoo.jpg


                                            ,piazzola
                      ,libertango


desde já se esclarece que a responsabilidade por esta perna que se inscreve, por esta cabeça que se desunha, por este lábio superior em arco de contrabaixo, se encontra totalmente atribuída e circuscrita à estrita esfera da música
obviamente, por aqui ninguém se deseja alhear a este grosso fardo, já posta a luz a um canto, a voz subitamente virada para dentro, nada se conclua dos dedos esticados
cercada, a prisão que limita salomonicamente o corpo, vocifera em prejuízo da sua condição de espelho: o labirinto dos traços no ar


dança-se lá perto do cabelo, culminando a janela da consciência com vidraças sem estrutura, reduzindo a opacidade das portadas à cristalinidade do orvalho de fim de outono
hoje, no preciso instante que sempre passa, um rio cortou um homem que lá entrara em dois, arrastando consigo tronco, cabeça e braços num precípicio de mares narcolépticos; estancando sexo, pernas, nádegas, joelhos e pés no preciso ponto em que o rio deixou de passar, tropel obtuso de urgência


vê-se pelo buraco da distância o jogo de silhuetas e desertos que fronteiram dia e vida, impera em todo o quadro a sedução do preto, do vermelho, do dinâmico jogo que transporta o pensamento de forma a abstração


e sempre a onda, o ritmo imparavelmente caótico que leva, ao auge do espaço em volta, ao rasgar contínuo da fronteira
sempre a roda, a roda a rodar numa periodização inconstante dos saltos: o verbo de fogo
vence sempre o que falha e desonra a tradição, a gaivota que aprende o alimento das altas montanhas e se sacia com a brisa branca dos sonhos, que se destrói porta para nunca se conseguir fechar


    ,liberzzola
               ,piatango


dezembro 10, 2004




at 1 cm, col 1, row 1, page 1
é suposto ser uma hora qualquer. não acredito que seja qualquer espécie de tempo. reteso-me ao sentir o casulo invisível que me rodeia os dedos, os olhos: a premonição do caos. resisto-lhe. martelo teclas, ouço ruídos diferenciados, rogo para que parem por um instante a peça


- a peça
            - tenta não tocar a linha que separa a língua do sexo
 - o sexo doce
            - sustenta no caderno das mãos a filigrana da existência
 - a fragilidade que te envolve quando perdes de vista os olhos
            - os olhos misteriosos dispersos na paisagem
 - não rios nem peixes, várias camadas de olhos
            - peças de preto, peças de branco
 - um jogo com um dedo uma raposa uma equação
            - talvez onde se toquem o barco e o mar
 - não
            - não a silhueta da angústia de a nada ser permitido o toque
 - o toque que compreende na sua leveza a mágoa da força
            - não
                       - não a companhia
 - estigma de solidão lunar embriagada de cabeças
            - entorpecida de drogas holísticas
 - recebemos os necrófilos quando não tínhamos fome


indago-me da causa de tamanha vastidão na esfera desgastada em meu redor. já tentei a fuga para os umbrais das portas: o sismo teima em não vir. procurei mesas, sanitas, os mais ridículos objectos que estão por inventar, a lógica paranóico-emocional. refiz-me pelas paredes que rodeiam as cidades, pelas sombras que as habitam; contei pelos dedos demasiadas estórias, tantas que me levaram ao esgotamento das gavetas, dos cruzamentos cósmico-sinápticos onde inscrevi a tinta-de-conta mais informação que aquela que me era permitida


 - tens medo
            - não tenho medo
 - tens medo de ter medo
            - não tenho medo de teres medo
 - tenho medo de não ter medo
            - tens medo do medo não ter medo de não ter medo
 - não tenho medo
            - precisamos de uma nova linguagem
 - de um novo útero supra-existencial onde a miopia dos dedos
            - seja fertilizada e daí surjam belas flores
 - sem medo
            - com medo


talvez seja da luminosidade inquietante, mas vejo as teclas e não vejo os dedos, dir-se-iam que de uma transparência de vácuo. sei-o, é um sinal. ignoro-o. ignoro todas as peças. tenho sempre a impressão de que já esqueci demais para que estar vivo seja uma possibilidade credível. presumo-me portanto em suspensão quasi-contemplativa


 - leve
            - pesado
 - sem verbos
            - sem braços sem dedos sem transparências exceptuando a do sexo
 - com medo das palavras pesadas que transportem pelo pescoço correntes elos fechaduras
            - sem chaves
 - como quando olhei para a nossa cara e me apercebi que o espelho
            - reflectia indefinidamente
 - a única variação possível do múltiplo:
            - suspensão supra-uterina da fragilidade entropicamente angustiante
 - a partir do milagre da agregação
            - não milagre: a base da vida
 - medo


novembro 26, 2004



intensamente delineados os caminhos da chuva
e as artérias vazias
os sentimentos em vígilia pela calada das portas
fechadas


mantêm-se as vozes loucas
fechaduras sem chaves
nem abertas
nem fechadas


pelas alamedas arbóreas
o gravitar dos magos:
insuficiência da compreensão
e magias pontes fumo
deleite das flores pelas horas do sono
inúmeras sucessões de anjos metálicos em brasa
uma dualidade de queimados
- conheces as palavras ignotas com que falam as folhas? -


catalogam as mulheres invisíveis as coisas
dão origem ao fruto e ao nome
rebolam pelos troncos raiados de sangue
logo mil vozes se levantam
se destroem
se amam


haverá um tremendo deserto
e ruas amizades adultérios e
camaleões paladares decisões
e
mar
imenso
e trovões dança olhos e
mãos
e dedos espelhos voracidade
e desmortes e desvidas e
nada mais que a imaginação


um deserto com covas
caminhos da chuva
onde passa a leveza dos intervalos
andando sob peles de puma
ondulando
de-formando
o espaço dos muitos mundos


espera-se o vento
rasga-se a pele em vozes
que anunciam o fim da propriedade
do interesse
do anima mundi
e com o vento segue-se para todo o lado
por todo o lado
sem âncora
sem tempo


hoje talvez chova


 


novembro 25, 2004



"hoje tudo me inspira intenso
prazer."


de quem sabe que tal escreveu



pretendendo o azul rescuo o sal
da noite do dia que dormiu
chegam-me num basta as palavras da prece
como se um barco apenas precisasse da água para navegar


sei pelas suaves pedras da noite
da existência dos rios por onde viajam os poemas
por onde se renova o espírito dos perdidos


pelos passos velhos reconheço os muros
altos
navego sem sul pelas escadas de pedra


nasço e pergunto-te pelas árvores
pelos frutos maduros que morriam aos últimos sóis de agosto


finjo
como vivem as pessoas
faço-te um movimento de assentimento
de que sim
que embarcarei em breve na tua travessia
não na tua
não na minha
numa qualquer
sem grandes criteridade na escolha


(somente pelo meu desconhecimento das linhas e dos pontos)


janelas abrem-se pelas manhãs do desejo
e ficam a ver
a rua
sem nunca se abeirarem do abismo
sem nunca o toque se concretizar
branco
esquecido


dói-me uma dor de ver
de em tudo descobrir ou o prazer
ou o pânico calmo
de saber-me menos que mim
e com uns olhos tão grandes


talvez me deixe ficar
na leveza opiácia do silêncio
da besta
em pose de conceito inútil
oculto pela luminar ruminância das fronteiras de lixo
das gárgulas infantis que me rodeiam o filigrana da barraca


queimaram-se uns livros
terrível notícia para quem não sabe ler
foi aqui - vê - a metro e meio
uma hecatombe de sangue pastoral
desferida pela mão que se passeia pelos espelhos
em busca de calor


os fragmentos que te leio
retêm o condão da minha calma ondulada
torcida por desplante de pai
leve por implante da mãe


os fragmentos que te leio
caem-me como bonbons envenenados
no goto lasso em que me envolvo
pelas noites devastadas


chegaram-me os perfumes da madrugada
inclusos num leque mais vasto de sentires
chegaram e assassinaram a memória
quais caracteres amaldiçoados
em formato de esfinge


alerta
imerso num imenso prazer


novembro 23, 2004



lembras-te de te ter dito que as asas têm um preço? riste-te na altura, como sempre te rias quando a tua boca se erguia como dois picos de montanha entre um vale de deslumbre. tentei fazer a mesma cara séria que repetidamente falhava em te apresentar. talvez tenha sido sempre assim, talvez as verdades mais dramáticas hajam sempre merecido um abraço de boca solar. e sexo após o riso, após o abismo revelado e a zombaria costumeira da vida a tudo o que a ultrapassa. deste-me um apertão com tudo o que tinhas e não tinhas. viémo-nos os dois, ordeiramente, numa enorme necessidade de um sentir com o mínimo de interferências o eco de cada um no outro lado da casa que momentaneamente éramos. agora morreste, caíste sem perceberes como dessa imensa altura a que te tínhamos transportado


falámos em tempos das metáforas, e da extrema utilidade de que estas se revestiam na necessidade de compreensão que todas as consciências têm. a existência sem as metáforas seria como a chuva sem nuvens: deixariam no fio causal e subjectivo do sentir o pensamento um hiato impossível de suportar. falámos até ao fim das metáforas, e transformaramo-nos numa mescla indecifrável de prazer e medo. falámos até ao encerrar das pertenças, e tudo nos pertencia, nos perfilhava num acolhimento onírico de caos genésico
primeiro desapareceram da memória as gavetas, suplantadas num holocausto de desarrumação pelos fios de luz entrecruzados por onde nos balançávamos num misto de desejo e pânico. deixámos de usar peúgas, passámos a calçar os pés com o lençol manchado de nós. não conseguíamos perceber onde estava o puxador da gaveta onde intuíamos que elas estivessem. e falámos até ao silêncio da incompreensão tradutória entre o corpo e o mundo. desapareceram os poltergëists que pintavam alternadamente a janela de luz e treva. cresceram-nos caninos no interior das cabeças dos dedos: a nossa pele passara a tela


ouves-me debaixo desse cadáver abandonado, ouves-me a tossir-te a falta de ar nos pulmões, a vomitar-te a aventura do esófago? sei onde estão as tuas asas! sei onde estão as tuas asas. sei onde estão as tuas asas, tropecei nelas numas das muitas evangelizações à sinalética vertical das cidades por onde me deito
sabes que o entendimento vem da falta de ar? como podes respirar nessa ofegância descompassada, olhar para mim com esses olhos de estátua grega, atrever-te a levar-me pela mão mar acima?
trago marcadas nos meus dentes as tuas muitas línguas, a acidez corroente do teu sorriso ao ouvires desta voz envenenada os símbolos da destruição; no meu sangue, a pureza apocalíptica do teu sangue quando te dizia ser eu a tua morte através de ti
retira-me a estas almofadas para que te possa devolver a terra que me meteste na boca, para te explicar que finalmente o meu coração parou, de forma a permitir ao corpo a temperatura dos teus gestos, dos arabescos arcanos que te me povoavam os espaços do centro do que rodeia o universo

nunca te falei da poesia, da vibração que continuamente empurra o diapasão da vida e da morte, da sinfonia dos satélites e do tudo que a tudo suporta. não me esquecera: lembrara-me cristalinamente, em cada tiro que te dei, da importância do desequílibrio e da mutação. não me arrependo, pois agora sorrio eu como tu sorrias. sei eu o que tu sabias; haverás sabido em algum tempo o que eu sabia, o que eu continuamente aprendo e olvido?
não me toques. apenas te perguntei se te lembras de te ter dito que as asas têm um preço. não percebo o que me segredas: tudo é um toque na escuridão para mim. ceguei pelas asas que encontrei no chão, abandonadas por um anjo que não caiu, que aprendeu a voar sem elas
peço-te, atenta-me: não me toques. vê se te recordas. do que te disse


lembra-te: nada desaparece. nada. apenas se esquece, apenas se apaga da calçada do deserto à fúria do vento que tudo ilumina
penso ter-me esquecido do que nunca se conjugou, e os vazios deixados pela minha sombra marcam-se nos muros, nas árvores por onde vou frutando, nas flores e nos camaleões. talvez me tenha esquecido do que nunca devera ter lembrado, do enredo da música e da melancolia do orgasmo, do tapa-olhos que é a metáfora e das rosas que esmagara-mos  -talvez-  entre as palmas das nossas mãos, pintadas a sangue e sal
que interessa se me esqueci: vanitas vanitatum, et omnia vanita. larga-me os braços dos teus dentes gastos, dos teus dentes digitais. penso que me esqueci de ti, mesmo sabendo que tal graça implica igualmente o esquecimento de mim. tudo se vai, e tudo vem e nada permanece por mais que uma vontade; que interessam gavetas e peúgas. lembramo-nos os dois do que perdemos-nos, das folhas e folhas que abundavam pelo ar do quarto da palafita incendiada, das conversas, de tudo o que contribuiu para a soberba desertificação dos passeios, das escadas, das portas, dos cruzamentos. de tudo o que aprenderamos na desconstrução da torre de babel nos esquecíamos mal avistávamos um sonho tresmalhado e nos punhamos logo a tremer
nada interessa. tudo interessa e seria preciso pisar o chão para se aprender a escrever, daí o meu fato de folhas em branco, de gravata de bic. seria preciso pisar o chão, e nada mais que isso seria o descanso indesejado
cansaste-te das asas, sei-o pelas aflições que me povoam os nervos. porque não escutaste a minha cara séria, porque me forçaste à boca o sexo a cada sorriso que cantavas, porque me puseste a mão na barriga quando o que me rasgava não se podia tocar?
lembro-te, a cada troada do gongo da barca. lembro-te, e embarco num abraço ao nevoeiro de cada vez que me beijas e desapareço


lembras-te?
as asas?


novembro 15, 2004


padrão absurdo-digital


veronica decided to die - natasha gudermane.jpg
[veronica decided to die - natasha gudermane]


chegou o tédio à boca, vomitou-se numa golfada invisível pelo mundo conhecido, percorreu calçadas e mãos fechadas, alojou-se nos bolsos como uma bactéria em hibernação, em espera
principaram as chuvas, mas o frio ainda se sente no verso do agasalho. algo zune ciclicamente em todo o lugar, afastando qualquer tentativa de silência de forma estrutural
via-se na poças, procurava-se nos olhares arrepiados das pessoas que passavam sozinhas, sempre sozinhas; vasculhava com os dedos as nuvens ao som do desejo incompleto de alguma paz, como se o seu corpo se lhe vestisse de prisão, o mumificasse
dizer o seu corpo é englobar em frase olhos, quadris, pés e toda uma quantidade enorme de diferentes qualidades materiais que supostamente deveriam dar algum jeito: neste caso a sua única função é atrapalhar ainda mais o já de si enorme embaraço que se pode observar quando se coloca um microscópio no seu umbigo e uns sapatos nos pés
e quem diz frio diz vontade de não se sentir morto. afirma um grande senhor que morrer, sim senhora. mas de pé. como se fizesse alguma diferença a maneira como se morre. ele queria morrer num explodir vagaroso do corpo: primeiro o afastar suave dos dedos a partir das mãos; depois os mamilos iniciariam o seu caminho pausado até à fronteira inexistente do universo; a sua pele, os seus tecidos, começar-se-iam a afastar uns dos outros, devagar, num esforço constante de observação de todo o processo. Tudo iria, assim, como os passos demorados que um cometa dá pelo cosmos
ficaria algo no preciso lugar onde ele estava: o tédio? os olhos? o nariz? o coração?
talvez que ficasse apenas algo até agora oculto dentro das ligaduras do corpo, algo como um berlinde, ou uma unha de jaguar. quem sabe até se não ficaria um velho, bastante enrugado, ou uma história infantil que se contaria repetitivamente até ao fim de qualquer coisa, do tempo, por exemplo. ou uma cidade, cheia de pessoas, e com bonitas vistas aéreas a partir de grandes elevadores magnéticos que atingiriam a estratosfera. ou talvez um folha, de papel ou de árvore, que fosse devassada por pegadas ou pelas estações, e se visse sempre rejuvenescida a cada primavera que se seguisse. ou talvez ficasse apenas todo ele, intacto, mesmo com os seus dedos e as suas entranhas espalhadas por aí, um fígado numa gruta em alpha centauri, uma unha em betelgeuse, um tufo de cabelos num ponto distante do universo após o irresistível contacto com um buraco negro; mas ele intacto, inteiro, íntegro, com tudo a menos mas igual: apenas mais leve, um leveza inenarrável por este sistema de coordenadas

e o frio continuava, e o vento trazia a sua canção aos seus ouvidos, e o desejo crescia devagar, como quem se espreguiça pelos cantos da galáxia, sentindo o rasgar penoso das fibras e das ideias

passeava-se agora menos gente pelas ruas, era noite. e pela noite decorrem sempre fenómenos que durante o dia não teriam hipótese de ver a luz - salvo seja -: a fantasia abandona os esgotos e procura a visão das estrelas antigas, aquelas que já foram animais e deuses
surge o absurdo analítico como contrapeso à alavanca da realidade, às infinitas centelhas e ressonâncias da cidade principiam a surgir letras em orgia


esquadro
esquadro
árvore-martelo
pincel-lágrima
sinfonia-sífilis-la mancha
jactos azuis pelo mar prenhe
sensações de sentimentos emocionados em bilhar pela tabelas da razão
escopro-prumo rubro
de sexo desconcertante-nuvem
gélido quasar na baía de lisboa
visto-tratado para os lados de xangai-magalhães
esquardo-esquardo
não há dois lados no espelho
não há dois espelhos no lado-chumbo-gás
hoje foram proíbidos os sorrisos
inventou-se a roupa transparente
sem peso
um javardo comeu a fava da árvore-martelo
defecou um bêbedo na esquina do intendente
lavadinho
lavadinho-infante
faca e a dança das carcaças
música por todo o escuro
morte da palavra
fim da consciência
assassínio da memória
a redução ao tédio de tudo
do tédio ao tédio
para quê?
o mundo na mão
tudo compreendido
sem surpresas
sem surpresas
sem admiração
sem desconhecido
sem medo
sem medo
sem vida
sem vida
sem si
mêmocado


saiu o caracol da casca
para se assoar


 


novembro 02, 2004




eu e um mundo cheio de tantas coisas
olhos nos olhos




por alguma razão é de noite
e os mundos são de dia


não me lembro de me terem dito que havia arco-íris
à noite


cresce-me na testa uma barriga de grávida
pontapeia-me violentamente a consciência





despejo-me constantemente em busca de sossego
braços e olhos bem abertos


outubro 28, 2004



escuro.gif




quem está aí?
             eu
eu quem?
             eu, tu
tu, eu?
             eu, tu
está escuro, não te vejo
             não te vês
sim, não me vejo. e tu, vês-me?
             não me vejo
não me vejo
             está escuro
sim, está escuro, embora a lua se apresente cheia
             sim, cheia de luz
vês a luz da lua?
             não, não vês a luz da lua
como sei então que está cheia?
             como tu sabes
tens uns olhos bonitos
             tens uns olhos bonitos, parecem a lua
escuros?
             sim, tenho olhos pretos como a sombra da noite
como os meus
             os teus
toca-me
             toca-te
toca-te, tenho fome
             tenho fome, carrego pulmões repletos de solidão
como respiras?
             não respiras
não, não respiras. estás entre mundos e não respiro
             em suspensão
em suspensão
             existo?
não existo. lembro-me de me ter engolido
             de me ter engolido?
a fome
             e do nome de algo
sim, uma palavra proibida que disseste
             quando golpeaste com uma faca a memória
sim, a tua memória
             foi inútil, apenas ficou escuro
sim, ficaste no escuro
             ficaste no escuro
está escuro, não me vejo
             não te vejo
queria tocar-me
             não me tocas, tens mãos negras de lume
carregas a maldição do ofuscamento
             carrego todos os demónios da vida
cheiras-me, sei-o pelo pó que me assalta
             pelo pó escuro que soltas
pó de terra?
             pó de estrelas, pó do meu sangue
não acreditas nisso
             não acreditas em nada. só se crê quando há luz e sombras
não há sombras
             não há sombras
mas há lua cheia
             e não te vejo
não te cheiro, sou um necrófago
             respeito a vida, sou um necrófago
comes corpos de luz em putrefação
             comes a luz dos corpos em putrefação
e estás escuro. quem és tu?
             quem és eu?
um elo perdido entre a vida e a morte
             disseca a razão e tenta decidir
tentas decidir sob o eclipse da escuridão
             tentas decidir sob o eclipse da escuridão
sou a fome
             sou a fome
sou a fome escura que se alimenta da fome
             és um ensaio. que faço aqui?
que faço aqui
             não há vento
não há vento que arranque dos pulmões a solidão?
             sofres
sofres das histórias que te contaram sobre a lua
             a lua escura que vês
a lua escura que vês
             esqueci-me de te perguntar o que sou
esqueci-me de me perguntar o que és
             tens lume?


outubro 25, 2004


canção da distância




janela por onde passa o olhar
cume que ultrapassa o horizonte
corpo que se prende dentro da própria pele
explode com o perfume da imensidão

pelo ar troam as vozes da escuridão
desferindo apelos na mancha precisa do esqueleto
da armadura que reverbera com a tempestade
não é o vento
não são as aves que nocturnas se escondem
não és tu eu
faltam de novo palavras com dimensão suficiente para o entendimento dos mistérios

talvez uma mão
uma mão vermelha de escamas
ou um apelo
um apelo que transcende a partir do umbigo do tempo
e se dissemina insonoro pelas ruas pejadas de desassossego
leve e preciso como uma corda de nylon
que rompesse em pescaria a tua traqueia imaculada

e falo-me quando te invado a boca
invento como que uma devastação simulada
quando te banho com a aura do sexo cego
torno-te de ninguém
resgato-te de todas as coisas
para inventar um novo casulo
onde possas finalmente dormir

sonhar

e eu possa perceber-me lá
longe
onde sempre me espero


outubro 24, 2004


feels so good


practicamente tudo morrera
e na terra restavam somente sombras disformes
os gritos dos equívocos
as sementeiras estelares dos corpos em luta
naufrágio

perguntaste a razão
e o sopro apenas conseguiu transmitir uma palavra:

nem eu consegui ler o que dissera
tal a estranheza da pele em rota de colisão pelo ar
esquecera-me?
óbvio, e o vermelho deixara de o ser

nas mãos o trapo de um vestido
sem sangue, imaculado
nos olhos uma lembrança:
a masturbação da presença das gentes
rompideiras pelos campos de pasto

desde sempre me custara respirar
- tenho o peito demasiado pequeno para tanta coisa -
supliciara-me até à exaustão em metafísica e sexo
- maus indícios para quem tem medo da morte -
dir-me-ias se te desse o meu ouvido
vivera a violência desarmante da pureza:
caminhei do vale para o pico
roubei-me pelo caminho à gula das aves
- o princípio da magreza -
conheci-me, morri mil vezes

sei-o
tudo morrera
mas o sorriso que me desenhava a boca
musicava a transcendência do proibido
a desmaterialização era mais que necessidade:
o crepúsculo do abandono

naufrágio
construi um barco afundado
repleto de tesouros
de corpos
de cansaços
guerra
paz
imensidão


outubro 22, 2004



o fumo
o fumo
o fumo

ar livre
nas fodas que mando no arbusto da vizinha
enquanto mando os meus olhos para lá dos anéis de saturno

há aqui um vazio
e eu ainda não o encontrei
embora sinta que por ele fui encontrado
muda-se o acto da frase
e não há mudança visível fora da poesia

sei das vilas incendiadas pela festa
e dos passos dos lugares velhos
por onde besta e homem eram mais que dois
e das alavancas e das roldanas
- quantos homens ergui com uma só mão -
e da química e da explosão
do átomo e da penicilina
- dividi fotões em dois -
e do ambiente e da rede
_sei do homem que se despedaçou
ao impacto do tempo em seta

prometeu?
de férias

as leis, os deuses?
no miguel bombarda (a mad people's hospital, for the foreign ones)

e eu caralho
e eu, onde raio fico eu
ainda por cima após este caminho de destruição
com os dedos na palma das mão
o sexo escorregadio pelo espírito
e por olhos uma língua
- ponto de interrogação -

frequentadas as fossas da noite
redimidos os pecados na repetição
nasce
sabe-lo
o desejo de degustação do caos
da sua primitividade idílica
o enorme colchão do sonho

cave ne cadas
as asas podem ser extensas
abruptas
prefere a noite, o frio
o conforto da invernia por sobre a pele nua
e prefere também a queda e el son caliente
o suícidio temporário das sensações
asas, ficam bem abertas
no ar
ou por sobre um altar

vejo um cão a mijar no lugar onde eu havia apontado o meu sexo
chateou-me
- mas que raio, até o cães têm direito a uma mijadela-

vai dizer isso a um humano ou a uma pulga

seguiu-me após me ter observado
dediquei-lhe pouca atenção
entrei, comprei cerveja
continuei para casa
e como não havia transporte público ou privado metidos ao barulho
o filha da puta do cão segui-me até à entrada do prédio
derivei

lembro-me de me ter sentado
despejado um bocado de cerveja no chão a meu lado
a língua do cão
a maravilha da vida
a consciência
- o que é? -
igual
tudo igual
o cão sentado
o cão sentado
o vento e as luzes
cheiro a alcatrão e terra molhada
o frio da mão esquerda pêlos na direita
muitos pêlos cabelos carne
a pouca luz ao fundo a ilha
o carro que para
sai miúda passa por nós entra na porta passa
- olhou? -
o cão bebe mais cerveja que eu houvera despejado
- não há pretéritos mais que perfeitos nos lábios de bêbedos, ou fui ou vou ser -

e um pensamento sobrevem
- um cigarro -
não to dou
_dizes_
fumo-o à mesma
nas curvílinas fumaças construo um carrossel
percorro-as eu próprio em desafio
desenho um mundo imperfeito
na impossibilidade do papel de música
falta um quarto para o relógio
- fim de pensamento -

olho para os quadros
embora em B&W tudo me parece colorido
estou-me a fudir para tudo o que me rodeia
e amo tanto tudo isto
ao ponto de tudo presentear com nomes
arrogar-me ao poder de deus
- antes do inferno -
ao ponto de ter o verbo que dá vida
e dar-lo a tal ponto que toda a paisagem é de nados-mortos
: asfixia

this fire is out of control
it's gonna burn this city
(X até à exaustão)

são demasiados rios
e no entanto tão poucos e
em todos
mesmo os inexistentes
sou carregado

queria dizer-me grande
como grandes são o sexo, o poder, a admiração
o cabrão do meu morse teima
que teima como se de um desejo se tratasse
em pontuar:
pequeno
minúsculo
rícidulo
vacuoso não fora o nome

- qual nome? -


outubro 21, 2004


evohética




quando os girassóis cantarem
e do vento mais não restar que uma leve brisa
retornarei à gadanha mundana
e trarei no olhar uma aura vermelha
de satisfação

não há muros ou paredes para a tempestade
lesma: deixa a casca e marcha destemida
por sobre as folhas caídas da terra
sem que o olhar dos mortos te fira
ou belisque a mucosa frágil

reparto as mãos em garras
na procura por crianças perdidas de desejo
que empreendo pela noite
pela sombra
pela escuridão
- os meus olhos só vêm quando fechados -
pela pele levantada do universo

lembras-te
quando as bocas eram afiadas
os sonhos de uma atrocidade aberrante
e nas palavras se transportava uma língua sem estrutura
procurávamo-nos por onde sabíamos nunca estar
e o tempo era um jogo sem regras
sem remorsos
com medos puros:
a gota de água que víamos cair lentamente
deitados na dureza da inocência

ensinaram-nos que a verdade é a memória
sei hoje que a memória é a mentira
e a mentira a verdade
e a verdade a mentira da memória
olha-me fixamente para o rosto
OLHA-ME

não tenhas mais medo que o necessário
esta merda vai dar toda ao mesmo
mesmo que muito o não queiras
sabes,
vais renascer mesmo quando deres o passo
OLHA-ME
diz-me o que descobres quando me fitas sem usares os olhos
quantos diferentes te sentes ser
quantas mães tens
por que caminhos perigosos te dispersas e encontras

eu sei
está frio
olha-o de olhos bem fechados
há tesouros em ti que só essa chave pode desvendar
abre os poros à tormenta
permite-te a limpeza do espírito
o sorriso demoníaco da orgia
comunga
destrói
saboreia a sinfonia mágica dos elementos

é inútil
a procura por mim
estou disperso
nem eu me conseguiria encontrar
nem eu me quero encontrar
existo numa latência de temporal
tudo beijo
por tudo sou penetrado
insensível ao que é memória
ao que é verdade
ao que é mentira
solto


outubro 20, 2004


shall obey


jumping between rocks - rob gibb.jpg
[jumping between rocks - rob gibb]


a tribo que cessou a respiração
um cromeleque

a surpresa do homem que adormecera
transportado para o centro:
o umbigo de um círculo de pedras

na memória do homem
uma certeza desconcertante:
à sombra de cada rocha
uma pessoa escondida

no olhar a hesitação do crepúsculo
mão que treme
mão que treme
o pânico do desconhecido

o medo da solidão acompanhada
perfilado pela silhueta de suor
rio à deriva na pele angustiada

pela eternidade da noite
inexistente a ousadia da pergunta
do passo
da descoberta:
a paralisia do mundo

holocausto sem cores nem sons

eis a descrição da morte
a vida
de um homem aprisionado na coerência


outubro 14, 2004


trânsito


misha gordin - shout-gl2-12.jpg 
[misha gordin - shout-gl2-12]


ameaça, o cheiro do espaço deturpa os sentidos, as sombras desenham o mundo em volta numa instalação de ódio e indiferença
o feiticeiro avança com passo firme e alma insegura: não há magia que sobreviva às garras da noite eterna


não se vêm mães, e no entanto de cada esquina surgem multidões de crianças luminosas
não se vêm mãos, mas em cada parede há sinais e palavras proibidas pela lei
a cada centímetro uma sensação de espelhos, de uma casa de espelhos onde se misturam sonho, passado e sangue
dispersas pela pele: as tácticas de rapina
olhos profundos de morte, desejos escarlates que antecedem o gesto dos lábios cobertos de cieiro
- há um frio metálico na planície urbana que corrói os ossos e deixa intactas as vísceras -


o homem nú prossegue o caminho sobre si próprio
recolhe-se progressivamente no seio do deserto que transportou toda a vida
observa, rasga os papéis de parede, bebe sofregamente
música, a que se vê vibrar nos intervalos das rugas, suave, picante, cósmica


surge no céu a vespa
cega pelo alvo, desesperada pela condição amarela e negra
- o que é afinal preciso para o irresistível desequílibrio do sujeito? -
esbarrando na cabeça da esfinge multicéfala:
revela-se finalmente a inata multiplicidade de tudo
pelo sangue branco que tinge de negro a areia


não há regresso a casa
nunca houve casa, apenas passagem
tudo passagem, nunca nada o mesmo, nunca a coerência, a integridade
a magia é uma operação de transformação
não de retorno


também, para que serve a coerência
para viver para sempre
quando já se morreu?


a criança encontra
o nada
sorri
sói


outubro 07, 2004


o acordar de deus


(arquivo histórico)



era um dia de um ano qualquer, cerca do dia médio, o sol dourava a praia suja Na orla as ondas beijavam languidamente o areal, deixando atrás de si uma espuma borbulhante e arrastando para o mar canas velhas, sacos de plástico e preservativos usados

um bando de gaivotas molestavam um casal de septuagenários, bombardeando-os com alvas poias putas das gaivotas que não nos deixam em paz manel vamos mas é embora daqui rasgando o ar com estridências que ecoavam na vastidão e se colavam agudas aos nervos

numa duna reveladora duas bichas loucas olhavam nuas a praia, altaneiras e bronzeadas, duas estátuas de pila ao léu com a palma de uma mão virada para cima e a outra a segurar uma anca musculada olha zé, olha ali aquele puto tem um rabo apetitoso comia-o todo tem juízo o puto é menor ainda ias preso quero lá saber comia-o todo á mesma

mais ao lado um grupo de surfistas com o fato meio aberto até à cintura e rodeados de miúdas louras quasi-menstruadas emborcavam cervejas e fumavam charros de erva enquanto instruíam um novato sobre a melhor forma de apanhar a onda pá, a onda é só ficares à espera deitadinho, percebestes, concentras-te estilo meditação oriental e quando ela aparecer tu percebes logo como? topas-la ao longe, é tótil e depois? depois dás aos pés que nem um louco sentes a cena a fluir metes um joelho na prancha um pé na prancha, sentes a adrenalina a subir-te aos tomates e pões-te de pé tótil só assim? ya meu dás uns tralhos nas primeiras vezes mas é só até apanhares o jeito estou a ver compreendestes mesmo bem? guida dá aí mais uma sagres que já tou seco de estar há tanto tempo fora do mar

por cima de tudo, no alto da arriba, estava uma cruz de pernas para o ar que parecia ter alguém agarrado a ela olha manel, já não bastavam as gaivotas ainda está para ali aquela maluca agarrada àquela cruz parece que nem vê aqueles pássaros pretos à volta dela vamos mas é embora daqui mania de praia de nudistas que tu tens só para ver umas míseras ratas ao léu não te chego eu ahn? quando era nova chamavas-me coelhinha assanhada e agora só te queres é babar com essas putéfiazitas já não me amas velho cabrão

no meio da praia, se é que se pode dizer que uma praia tenha meio, estava uma garrafa de vinho não duas vazias com um tipo deitado ao lado As garrafas estavam ali há tempo demais ao sol Acordaram o tipo foda-se acorda lá deus é sempre a mesma merda este gajo todas as noites pensa que está na última ceia, encharca-se que nem um porco com os amigos e nós é que temos de aturar a brincadeira. Quem inventou o espírito do vinho o vinho com espírito uma mula surda e cega o carregue

nisto o corpo que estava dentro do sobretudo como é que este gajo não tem calor vira-se para as garrafas e com um gesto afasta-as para outro mundo

deus tinha acordado porra, onde é que eu vim parar? resmunga e manda umas nuvens taparem um bocado o sol que o encandeia onde é que está a maria, essa gaja só me faz é destas

deus levanta-se e olha à volta merda dos paneleiros sempre a galar um gajo Completamente estremunhado ressacado com uma dor de cabeça de bradar aos céus despe-se veste o fato de banho que uma gaivota lhe deixa cair ao lado e arrasta-se para o mar nada como uma banhoca de mar para curar esta borracheira

a caminho tenta-se lembrar do que se passou na noite anterior ora deixa cá ver estava eu e a maria no sétimo céu a ver o show, apareceu o judas o abraão e o diabo, a corette veio-se espojar para cima de mim a seguir ao espectáculo, emborcámos tinto até nos babarmos belas mamas que tem a corette e ha a maria passou-se com ciúmes começou a dizer que é sempre a mesma merda, que nem quando foi para fazer o teu filho tu vieste, mandaste uma pomba estúpida e lá tive eu de abrir as pernas A UMA POMBA enquanto tu te devias andar a divertir vá lá maria, deus é grande tem de ligar a todas as criaturas e a corette anda com problemas problemas? problemas tenho e eu tu não me ligas nenhuma estou mesmo a ver, parva da maria aproveitou que eu estava bêbado e deve ter-me trazido para a praia e a corette ela não me largava assim nisto deus pressentiu algo, olhou para trás ah porra, maria, tinhas de crucificar a miúda e logo de pernas para o ar agora obrigas-me a ir até ao purgatório para ela não ficar sentida comigo raio de ciúmes já quando foi a história das línguas de fogo te passaste está bem que eram homens mas estávamos todos bêbados e essas coisas da homossexualidade também não são assim tão más afinal que moral tem de ter deus?

perdido nas suas lembranças nem reparou que já tinha chegado ao mar e que caminhava sobre as águas velhos hábitos um homem tem de ensinar um filho a fazer as coisas e ganha certos vícios que posso eu fazer, olha olha ali um velho a afogar-se  será que o salve? bem vou lá fazer a minha boa acção do dia, já que estão sempre a dizer que nunca ajudo ninguém deus dirige-se em direcção ao velho que esbraceja sofregamente para se manter à tona e que ao ver aproximar-se um homem a caminhar sobre a água – curte puto, olha só aquele tipo a dominar é assim que tens de fazer naturalmente tás a ver a rasgar a onda – queda-se espantado e deixa-se afundar Deus chega ao pé do lugar onde ele se afundou faz uma pose bíblica mete um braço dentro na água e puxa o velho para cima violenta tosse engasgado deus põe-lhe a mão no peito e este pára miraculosamente de tossir

que fazes a nadar tão longe da costa o velho olha para deus e diz atónito vi uma sereia que estava a cantar ali e queria apanhá-la pronto era só o que me faltava mais um louco vá, caminha comigo até à margem caminhar? sobre a água? mas... como? não perguntes, eu sou deus tens de ter fé em mim mas mas nada de mas o senhor tem estranhas formas de se manifestar mas mas deus de calção de banho anda, caminha – curtam meus aqueles tipos devem ser altos cromos estão os dois a surfar em cima da mesma prancha que cena – e vão caminhando até chegar à praia O velho pergunta mas deus o que fazes tu aqui na costa da caparica numa praia de nudistas visito os homens vejo como vai o meu rebanho vivo entre eles para que eles me sintam te sintam? sim, sintam a minha presença divina entre eles de calções de banho? divina? és é uma grande besta meu mentiroso divino o quê? falas assim com deus? deus só se for dos bêbados e dos aldrabões o quê, ousas dirigir-te assim perante deus? assim antes assim que com uma puta no colo três bêbados e uma falsa virgem ao lado e quatro garrafas de champanhe tombadas na mesa diabo és tu? não, o pai natal e o coelhinho da páscoa. Nisto o velho muda de corpo e de feições e revela-se o diabo – olha zé aquele tipo ao longe parecia velhote mas ao perto é bem apetecível porra zé tira lá o olho dos putos haaa olha afinal não são os putos tens razão aquele com os ares de diabo fica para mim -

és sempre a mesma coisa tu e essa mania infantil de te disfarçares e a tua mania de fazeres milagras, como é que a classificas de adulta? deixa-me rir Emporcalhas-te, largas a maria naquela espelunca para vir para a praia com a mamalhuda da corette brincar às virgens e ao espírito santo com sabor a tinto e ainda dizes que eu é que sou infantil o que vale é que já te conheço merda da gaivota que se não nos larga juro que lhe pego fogo então e a corette ali em cima espetada numa cruz como é que explicas aquilo se a maria não veio adivinha lá querido deves pensar que és o único que se pode divertir bem vamos lá deixar-nos de conversa fiada e vamos mas é comer qualquer coisa que já estou esgalgado de fome e hoje de tarde ainda tenho de ir fazer um trabalho mais fotos? sim para uma revista do social, imagina ao que deus se tem de sujeitar

bem antes as dondocas solarium que uma sereia imagine-se ainda dizem que deus tudo vê a nadar atrás de uma sereia que estava a cantar e tu acreditaste até parece que as sereias não existem existem estúpido mas não é aqui

ao se dirigirem em direcção à esplanada o puto novato da surfada vem ter com eles com o sobretudo de deus na mão olhe olhe esqueceu-se do sobretudo. O puto era novo tinha o cabelo castanho despenteado e tinha uns olhos grandes de cor indefinida âmbar cinzento verde e umas mãos grandes que seguravam a prancha esqueceu-se do sobretudo obrigado puto mas já não preciso disso não precisa e deixava-o na praia pode ser que alguém precisasse dele ah eram vocês que estavam a surfar juntos na mesma prancha há um bocado ahhh pois sim éramos nós e onde é que está a prancha deve ser uma longboard brutal a prancha pois bem já a devem ter levado levado? uns amigos nossos que passaram por aqui ahh está bem vocês costumam vir aqui – manda lá o puto embora e vamos mas é comer – bem não muito era porreiro se me pudessem dar umas dicas dicas? de surf queria mesmo aprender ah de surf pois olha se não te impressionas facilmente podes vir connosco ali ao bar que nós iniciamos-te na nossa doutrina – lá está este gajo com o espírito de evangelizador gostava de saber para que serve a porra da padralhada  – porreiro está bem só vou ali buscar as minhas coisas

entretanto passou uma gaivota que largou uns óculos escuros ao pé de deus que os apanhou os colocou e mandou as nuvens irem dar uma volta para destapar o sol que dia belo digno de um genesis e raio das gaivotas muito gostas tu de pássaros a próxima gaivota que passar rasante acaba a apagar as chamas da paixão no sal do mar que mau feitio que tu tens mano nem parece que somos irmãos quais irmãos qual quê tu e a tua mania lá porque andei contigo ao colo e te mostrei as artes do putedo não quer dizer que sou teu irmão raio do puto faz toda a merda e eu é que fico com o epíteto de mau da fita vê lá mas é se ressuscitas ali a corette eu ainda não a mandei para o purgatório portanto faz lá o que tens a fazer e manda-a ir ter ali ao bar que sempre é uma companhia mais agradável do que tu

as bichas loucas ao verem deus e o diabo dirigirem-se para o bar da praia agarram atarantadas nas suas coisas vestem uns fatos de banho reduzidos e põe-se a caminhar com o cú espetado em direcção ao seu alvo Eis senão quando passa uma gaivota a rasar ao diabo estás fudida faz um gesto e a gaivota entra em combustão espontânea porra pá larga lá os animaizinhos em direcção ao zé que manda tudo ao ar e começa a correr aos gritinhos à frente da gaivota que se despenha incendiária em direcção ao mar acabando o zé por tropeçar numa das namoradinhas de um dos surfistas estás-te a meter com a minha chavala que se juntam e lhe dão uma valente carga de porrada enquanto a gaivota faz o mar soltar um pequeno silvo de vapor fervente quando se acaba de consumir na lânguida onda que não pára de beijar o areal com uma espuma borbulhante e de arrastar para o mar canas velhas, sacos de plástico e preservativos usados

deus estou farto de levar com estas merdas dos homens a toda a hora


setembro 25, 2004


preâmbulo




antes que a noite se cale:
o vento que cesse de criar inimigos
as mãos que se transvistam em amantes
e que do lado sombrio do mundo
nos visitem as paisagens por onde os passos não foram perdidos


antes que da noite morra a luz:
já nas ruas correrão os nectares da artéria cortada
e nenhuma repressão será exercida sobre os olhos
e nem mães nem pais nem deuses
ousarão retirar do algodão da almofada
uma lua que, prenhe, ilumine a realidade


antes que à noite se encontre o desaparecimento:
morreram os murmúrios dos bêbedos à ditadura do gargalo
os suspiros dos amantes ocasionais anseiam pela próxima amnistia
a terra, serena, volta a unir-se distinta ao mar
e tudo parece tão sereno
tão terno
tão cruel
como o chacal que inocentemente rasga à gazela os nervos



madrugada


peço-te, retira-me do corpo o espírito e ama-me apenas a pele, não queiras encarcerar nos calabouços do prazer a semente feita de poalha metafísica
apercebo-me que essas palavras, as tantas palavras que logravas receber como se fosse o vento que sempre se acerca do abismo da enseada marítima, as sôfregas palavras que de tanto se ouvirem deixaram de se reconhecer, essas palavras significaram tudo, até a morte que agora se anuncia
partiu dessas palavras a ordem maldita, o decreto marcial que condena os que ousam amar sem propriedade, sem decoro, sem uma imprescindível atenção à ordem criada pelos homens para que se não desfigure a máscara que segura as estátuas nos seus pedestais
nessa antiga ânsia de liberdade, nessa paixão pela bebedeira que as noites e a imaginação infundem nas criaturas que se sentem desconfortáveis com os nomes que lhes deram, nesses sexos de sombra que apenas se sentem quando advém o abandono, a solidão, aí o terreno onde as palavras assumiram contornos dantescos, pandimensionais, proibidos
não me peças para parar, não mo peças: estas são as minhas últimas primeiras palavras
após este instante, este intervalo de tempo em que as coisas não oxidam e o espaço em volta é finalmente vazio, virão os dias inexistentes, uma nova forma ocupará o espaço do caroço cirurgicamente removido do núcleo do cancro em que, cumprindo o previsto, me transformei
pára, não regues mais as minhas mãos com as tuas lágrimas
essa é a água da vida, o adubo e o ladrão das terras, o rio que se exangue quando a cara se transforma de esfera perfeita num planeta coberto de vales, de podridão, de oceano antigo
cobre-me de solidão preta, ama-me como se te entregasses incondicionalmente à grande vastidão do universo, como se finalmente tivesses alcançado a pergunta perfeita, aquela de que se não pode voltar mais: o apocalipse do espírito
sei-o, escusas de mo dizer: nada temas, estas lâminas que sentes cravadas nas minhas costas doem-me menos que as cicatrizes que trago nos cadernos imprecisos da memória
fui eu o autor desta tentativa de hominicídeo, não lances a voz ao céu, não finques os pés no chão, retira-me do corpo o espírito, ama-me apenas à pele, esquece-te das minhas palavras, apaga-me de tudo o que não seja o teu sexo: retornemos por momentos à infância, antes de o cosmos ter sido nomeado
como te sinto quando me sussurras que os teus dias são preenchidos de pesadelos e as tuas noites de deleites, quando esperas de mim uma reacção, um sinal, algo que te possa confortar: o teu mundo acabou, melhor, nunca existiu, deixou de alguma vez ter existido quando entrei fundo dentro de ti e, não sei se com um propósito, rompi as cordas que te moviam
soubeste então que quando se rasgam certos tendões se passa a andar melhor
sentiste então que a dor não é um preço a pagar pelo prazer: o prazer é a dor e a dor é o prazer, e tudo mora em tudo, e há perguntas que é impossível não se fazer diante do teatro de nós próprios
reneguei-te em todas as ocasiões que se aproveitavam da minha soberba para te colar as palavras que emanavam do meu suor à boca: o medo
em altura alguma te pedi o que quer que fosse, pois sabia já então que a dádiva não parte nunca de uma iniciativa: simplesmente acontece
e se as minhas mão te invadiram repetidamente o estômago, foi apenas para, conhecedor dos alimentos podres, te impedir uma má digestão
sempre gostei de te acarinhar as entranhas, especialmente quando dormias e nos teus ouvidos podia ver as pequenas fadas da grande floresta a acariciar os faunos ao compasso da respiração pesada
especialmente quando dormias
há uma saída, sei-o, e sabe-lo tu, apenas não tens um nome para que ela possa existir, um nome ao qual se possa aplicar um verbo e transformar o tempo em acção concreta
não to direi, o nome
não to darei, não porque não o mereças, mas sim porque mereces que ele nunca transponha a barreira dos teus lábios
és-me de uma necessidade superior a ti própria, o que me leva à inevitabilidade da remoção do teu nome da minha memória
por isso te peço: ajuda-me agora, nunca te pedirei nada mais
ajuda-me sem que eu to peça, sem que me tenhas de ver morrer antes que a luz da conversa atravesse o espelho da minha janela
acorda, por favor, acorda e abraça o meu corpo como se as tuas mãos tivessem dedos de bisturi e a tua língua uma tenaz que me purgasse do espírito
ACORDA, que a noite quase pare o dia, que o sangue do parto invade já o palco do horizonte, derramando um líquido laranja diluído na frescura que acontece na parede
acorda, meu amor, acorda-me deste sonho desgraçado
desperta os pássaros que trago no olhar


setembro 19, 2004


fandinga




dez sombras rasgadas
um cento de braços a sair da janela
e uma criança que de repente se descobre sozinha

lançadas no jardim pintado de preto
as futuras fontes da dor procuram um olhar
um falo longo de ilusão
que as transporte
(perdidas como o vento que escapa ao próprio abraço)
da carne para o papel
da solidão para a tela
para o baile perdido da aldeia

e começa o cortejo:
princípes, princesas
ducardos, durquesas
brochados, bruchesas
e as sombras e os braços e a criança esmurrada
e sozinha
só zinha
e tanto barulho tanto brilho tanto trato
cortesias e desvelos
(até poliram os cotovelos)
e as sombras e os braços e a criança assustada
bum cabum cabum
que passa agora o cabeça de atum
com rabo de cheque
bum cabum cabum bum bum
lá vai ela
a bela virgem para o altar do holocausto
como um carneiro empurrado pelos dentes afiados das revistas
bum bum cabum bum
e tantos cordões e sombras e a noite que protegem esta gente
da fealdade do mundo
da sua própria cara no espelho
as cordas presas na cabeça pernas braços

e a criança abandonada
despida do fato que a mão da mãe especialmente preparara
para tão ilustre futuro
(todas as mães sabem o futuro dos filhos)
a criança sem mãe nem mão de mãe
que mesmo transportada para o centro do deserto
sabe pelo sorriso que cresce dentro de si
pelo revólver que lhe sobe da cintura para a fronte
pela súbita calma que lhe invade agora os pés
e que passa para as mãos subitamente secas de um metal frio
e das mãos para a explosão a bala o olho
o amaldiçoado olho que insistia em dar às mãos o desejo de tocar
insistente como uma mãe a alimentar o seu fruto
enlouquecedor como a necessidade do orgasmo após a ressaca
e da água após a ressaca do orgasmo

(a criança que sabia da necessidade de solidão ao abandono do orgasmo)

há uma sombra que arranca à janela três braços
com dois deles torna-se na próxima criança
a nova criança de novo sozinha
o outro braço segura-lhe à porta dos lábios um cigarro
(queres fumar antes antes de te vires de morreres da solidão da cara sem rosto?)


setembro 08, 2004


a'petite


apple shot.jpg 
[apple shot - autor desconhecido]

parece uma jaula que percorre
como um animal ferido de morte
de olhar baixo de raiva dorida
andar arrastado da perna para o pescoço
espalhando tatuagens de sangue pela pele que se não vê de fora

escondido do mundo
oculto de si

à boca não assoma a memória
dos acontecimentos só sobram as feridas
cobertas de um pus branco, lascivo
chagas infectadas como um luto recente
e todas as suas entranhas se arrepiam
ao passar dos seus gemidos sincopados

oculto do mundo
escondido em si

pesam-lhe duas medidas
as duas certas
as duas erradas

por fim sossega
e permite-se aos sonos
um por dentro
de seguida para fora

sossega e sente-se aguardar
numa vigília insone, silenciosa
de aranha que habita a teia que a fez

ele sabe: às mãos não voltarão as garras
tem mandíbulas afiadas a boca do estômago onde repousa
e espera
inquieto
estático

tem fome


setembro 07, 2004


a vergonha do corpo


foi por ali que segui, num descuido transtornado pelas mãos que me tremiam, pelo queixo altivo que com enorme esforço mental teimava em ostentar aos olhos indiferentes do mundo

e soube, quando pressenti a tua voz longínqua, que não havia esperança, que nunca tinha havido esperança: apenas a ilusão que teimou durante todo o tempo em sustentar um corpo, um milagre do acaso, com meros bafejos de fogo frio

sei-o, pelos meus olhos agora mais abertos. sei-o, e já não é um calafrio que me percorre a epiderme. sei-o, e já sou eu fogo aprisionado em gelo. gelo, a pele e o que a toca

depois, chegaste com a tua língua de espinhos e despejaste um balde de dedos cortados sobre o meu cadáver nu, raptado pelo chão. nunca mais falei: soubeste-me calar, cercear o focinho com o açaime intransponível do desespero que a eternidade sem sentido traz

bastou apenas esse tanto para te virar os olhos e recuar: avançar como sempre devia ter avançado, sem olhar para trás, para o que se situava realmente pela frente

não suportei a traição de continuares viva depois de me despires. sempre te expressei a miserável herança que te podia deixar, numa vontade louca de te encontrar cravada de unhas na jugular, nas veias das frontes, exangue desse sangue branco que teimavas e insistias em me verter nas palmas das mãos

já não as tenho, descansa: não me faltará mais esse nectar. agora podes-te rir à vontade; é uma das muitas vantagens de estar para lá do horizonte, a nobre arte do desprezo

podes-te insinuar com uma estrela no sexo, com lantejoulas de corais por sobre o peito homicida; ousa até tatuar as pernas com as gravuras do apocalipse: tudo será em vão

sei o que oculta esse teu ar de menina lasciva, prenhe de vida; essa tua aura de vulcão activo, de buraco negro, de sorvedouro de almas: percebe, eu concebi-te, fui eu - quando havia um eu e não um palácio de espelho estilhaçados -, fui eu que te avisei:


"tudo o que possuis morre antes do toque do olhar, não olhes o espelho"


agosto 24, 2004



stretching - dianacora niccolini.jpg
[stretching - dianacora niccolini]


como um tremer sempre desconhecido ao entrar no cenário do sonho, sou raptado pelos dedos sem que por tal dê conta
desenham-se em formação sindical ao meu redor, numa reinvidicação pelo alimento que os impeço de colher no vasto jardim onde antes haviam largado as sementes
e eu imóvel, como se dentro de um sonho dentro de um sonho dentro de um sonho e sem nunca conseguir acordar para fugir à falange violenta que me agride os olhos e chicoteia o espírito
em fuga
numa corrida desenfreada pela imobilidade, pela capacidade do suícidio, pela libertação da forma antiga da pele com que ia cosendo mantas de retalhos aqui e ali
cosem-me os lábios, os dedos; impedem-me o discurso justificativo na apneia forçada no vasto mar simbólico

faço-o por eles, mas eles são filhos, só compreenderão quando sentirem a necessidade da ressurreição pelo silêncio

é noite, e todas as noites são iguais quando o sono é uma rede com várias camadas e a cabeça uma lâmina individual sem olhos
e é por esta noite que sigo refém destas torres esfumaçantes que almejam desesperadamente a poluição da pureza do que é silente e alvo
e é nesta noite que me encontro de novo alto-forno e pilha de carvão, em uso apenas das chaminés, com dedos letais apontados ao coração: o terror da escrita

quando era novo diziam-me que a escrita alivia a solidão: hipócritas

as palavras são ladrões que não nos entram pela casa dentro: são o próprio recheio que abandona o lar e se vai drogar e prostituir pelo mundo fora


agosto 11, 2004


o tempo derramado


sem titulo - monte nagler.jpg
[autor desconhecido - monte nagler]


o som
deslumbre
a voz
a tua

esqueço-me
desse tanto que nunca senti

dos teus beijos perdi o rasto
das tuas mãos olvidei a terra
no teu seio ocorreu a desmemorização de mim
sempre que surgia no horizonte do incêndio:
o final das nossas longas conversas

esqueço-me
esqueço-me

e é ao acordar desta canção
que surge o vislumbre da boca que fere
da tua
da tua
sua puta de braços
sua tua tu que me beijas tão interiormente
que me deixasprostradonopasseiosemmúsica
à mercê das três mil mães que me cobiçam os dedos carbonizados

[segundo corrimento[

pelas obras
brumas das mãos
pelos feros rios que queimam
como um carinho no momento errado


nesse inalcançável terreno de areia e cactos
e vento
onde podes estar só

privada até da lembrança do meu esquecimento

é lá que eu sei
nesses terrenos de mar sem água:
jamais me conseguirei esquecer dos teus olhos
do hálito a morte que emanavas por sobre os meus dedos tensos
da sombra que projectavas directamente no meu fígado
das cordas com que me dependuravas do candeeiro do céu
para afugentar os espíritos da lembrança

nunca te conheci
nunca te tive
só se esquece o que já se lembrou
e da noite em que me penetraste
numa violência só possível sem o contacto da imaginação com o sentir
só restou o sabor a esperma de sonhos espalhado pela pele

e os lábios mortos espalhados pela planície da memória
na terra onde o tempo não é tempo
antes espiral

]how much dirty hands can you handle in a lifetime, ya cunts?]



natural born looser





two shadows - elena ray.jpg
[two shadows - elena ray]

no i
no me
all the world
all around
i'm the victim
i'm the murderer
everything written in my eyes from dawn

seizing the city in my eye sphere
i feel stupid for not living tomorrow
when i'll be myself
nothing other

sold and stolen
locked up by traffic
i'm free
i'm the man
i'm the successful motherfucker
gorgeous inside from the abyss
a champion with gloves twenty-four seven
no enemy
no surrender
no mercy

never dies
never dies
never fucking dies

one to one
from feet to hair
straight up in the face
straight up in the life
straight up like fire

want me?
just pay the price

i know what i'm all about
i know what i know and what i don't know
everything's a sure
the whole universe a fulfilled promise
from mine and unique viewpoint

nothing stops mine desires
life's a pathway paved with the mirrors i've breed
on the backyard of my own skin

but still it's not enough
it's never enough
not the money
not the cunts
not the cocks
not the cocaine
not the prestige
not myself other than my self

never enough
it's never enough
never enough
never enough to something i don't know how to name
never enough to my narcissistic love
never enough to touch my skin
and feel like a natural born special

never enough to stare at my face
and find some reason to keep on pushing

but yet i keep pushing
i keep on pushing

natural born looser
success as a man's clothe
question beneath my own skin

i’m a natural born looser
i live ten thousand years pretending i’m what i'm not





vai valendo serem algumas vidas diferentes dentro de uma mesma vida


como se fora de dentro que se narrasse o que espuma por fora
e de nada adiantasse o rebolar pelo corpo abaixo
ao vértice do umbigo
à lancinante dor da separação
do distanciamento por entre o tempo não ido
por entre os braços que me tentam abraçar a fuga
parar-me antes que fique
antes que morra e de nós nada mais reste que uma fotografia amarelecida
na gaveta esquecida de uma qualquer mesa de cabeceira
como se fora de fora que viesse a mão que me adormecesse
pela manhã da vida fora


agosto 02, 2004


ballet killaa




sem titulo - charlie shreiner.jpg
[sem titulo - charlie shreiner]


Justamente neste vértice do vazio
Com os pés unidos em pontas
O revólver: um novo dedo na tua mão
Observavas o horizonte esférico
Como só se consegue fazer no ponto no centro do universo

E eu conseguia ver o abismo que se te desenhava no olhar
Uma grande mancha de um vácuo vermelho-baço
Como quem acabasse de morrer e da ferida na língua
Se projectasse em direcção ao umbigo
Um grito mudo de sangue
Calcinado à passagem pela pele
Pelo corpo
Por ti

Tal deserto a tudo engolia
À passagem pelo teu peito rasgou-te o externo
Sugou-te os pulmões como um alcoólico
Ficou ainda mais deserto
Do alimento do teu ar

Vi-te as covas dos olhos a aumentar
A ocupar toda a cara
Como uma criança que tenta abrir mais os braços
Para dizer o quanto gosta de ti
- sabes lá tu o tamanho do abraço que dás –

O braço que tenta chegar à tua cara
Eras uma adaga cravada firme no nada
Rasgando uma fenda de tempo atrás de mim
Rasgando um buraco na cabeça
Sei-o
Sei que tentaste ter tantos olhos
Tantos quanto necessitavas para te ver
E sacrificaste a tua mão à tua própria morte

Poupaste os pés:
Sempre permitiam ajudar a ver mais além
Onde quer que estivesses

Sei-o
E sei-te
Puseste os teus olhos a olhar de dentro dos meus



scrrrrríame


danae - gustav klimt.jpg 
[danae - gustav klimt]


talvez tenha sido hoje, e eu nem sequer tenha notado. vi a lua e as nuvens e as luzes. senti o calor da carne onde é suposto senti-lo. o coração bateu mais. mas eu nem sequer consegui levantar os olhos de mim mesmo. e por aí estive, estando enquanto mergulhava, e não estava
há sempre um contexto temporal, uma memória e jeitos consentâneos com um qualquer instante. e nada mais que isso me sentia até me ter apercebido da falha
então bebi e chorei
poder-te-ás perguntar das línguas que ouso falar quando em estado lunar
apenas obterás um grunhido, tampouco uma desfaçatez de um sei lá


e eu sinto-o, perto, à pele, como quem se sente por debaixo de di mesmo: talvez tenha sido hoje que a música ultrapassou os limites e me largou naquela rua
seco
como uma planta do deserto que já morrera
apenas uma estrutura desconjunturada
e um grito


julho 28, 2004


res insomnia


sem titulo - judah s. harris.jpg 
[sem titulo - judah s. harris]


gastas as palavras, surge o advento da metamorfose, e com ele toda uma velha panóplia de quase imperceptíveis modelos que se tentam infiltrar adentro à carapaça da tartaruga

que tudo não passa de um ciclo à margem do tempo já o sabia, assim como também sabia dos devires que vou desenhando pelas vastas planícies estelares da insónia

sinto a minha pele como se de um areal se tratasse, e dirijo-me à minha assembleia de demónios transmutado na personagem de de um velho pescador: tento recolhê-los a todos na rede dispersa para um único cruzamento do covil - aquele onde as paredes estão cobertas pelos caracteres estranhos que esqueci do futuro, pelas flores brancas do passado

assim pretendo encher-me tanto que me esqueça de mim, até ao ponto limite em que tenha de ser resgatado pelas sombras que não intento, que não quero nomear

e de repente vejo-me com mil mãos, dez mil dedos, cada um com uma boca, bocas de todas as formas, a gritar um arrepio ensurdecedor pelos intrincados labirintos que vou conseguindo manter à margem desse algo que contra vontade ainda suporto pelos dias do tempo inventado, em equilibrismo cada vez mais insustentáveis: o mim

os dois joelhos que vou mantendo, às expensas da (des)necessária verticalidade, inevitavelmente fraquejam; e eu comprovo uma vez mais a estranheza de ressurgir algo que me sustém distribuído no eixo dos pólos mentais: este estranho instinto de vida, que em vão tento compreender

passar do nome, compreender, para destruir: é sobejamente sabido (e igualmente recusado) que nada que se conheça existe, que somente existe o que provoca medo, e é inteiro no seu insignificado

talvez que se compreendesse este fatum pudesse morrer, me libertasse então desta pele cansativamente lambida pelas turvas, turbulentas águas que insistem no assalto ao meu covil - e com a morte viesse finalmente o abismo das palavras transparentes que serviriam para me reproduzir assexuadamente em nova forma, em essência recriada a partir do espaço vazio

o tédio do cansaço, da incapacidade da surpresa: o limite conhecido do mundo:
eis o eterno fado que te tento passar, numa urgência de leveza: apenas mais uma manifestação da vergonha do existir, do nojo que me invade ao não conseguir subjectivizar-me em sombra eternamente vagabunda, em romaria de fome independentemente do próprio corpo que se houvera interposto entre mim e a luz num crime de nascimento projectado

ser uma sombra paralela, sem perspectiva possível, dispersa, nem convergente nem divergente até ao infinito

tantas sombras quantas as estrelas que lançam a sua luz sobre o universo, todas projectadas sem perspectiva pelo círculo do universo: o projecto para a destruição do ego

o precisar de um corpo para ser sombra: a limitação do múltiplo à identidade

esta náusea que me envolve quando sinto as palavras gastas... sei de onde vem: dos demónios que me esqueci propositadamente de invocar, por sentir que não me chegam dez mil dedos para a todos providenciar assento e refeição

e que ultrajados pelo afastamente se lançam em vingança pertinaz, tomando em mãos (sim, em mãos) a cruel tarefa de me não permitirem cerrar as pálpebras, dormir, morrer, reinventar-me, sonhar-me um poliptíco em construção

a ironia da insónia: os demónios que a provocam não podem eles mesmo dormir

engulo o tempo ao recolher dos membros para o labirinto da carapaça, em defesa tão inútil quanto angustiada contra a tentativa de fusão dos meus espelhos numa única esfera baça, de pele


(arroto de tempo: uma água das pedras e um cigarro)




julho 23, 2004


leva


sem titulo - greg summers.jpg
[sem titulo - greg summers]

(pressente, onde se atravessa a liberdade aí nascerá a morte dos cheiros antigos)

já que saltas pesada por esses muros opacos
repara
há rabiscos inscritos no cimento que une os tijolos
repara
no sangue que te escorre dos dedos
(contempla)
asas brotam do frágil calcanhar
da fenda assassina
e na ferida em que perdes os sentidos atrofiados
(atrofiantes)
entreabre-se a porta por onde irrompe de novo a agilidade

(nada temas nesse sonho nem abismo nem falésia salta na imagem da tua pródiga leveza)

ao longe faróis trespassam a treva
alimentando os vagalumes que te percorrem o interior das pálpebras
na esteira do lençol espelhado em que mergulhas
(que levantas como criança ressuscitada)
descobertos
esses antigos muros opacos
transparentes perante a tua sombra agora
rabiscos transpostos para a espuma do desejo

(fecha fecha os olhos com força sentirás o significado a instantes a segundos da pele)

dei-te o que não tinha
(ou seja devo-te tudo)
sem esperança de um olhar no vértice do ombro
onde pudesse plantar um desassossego mais
(uma árvore perene vermelha sonora)

não te consegui dar o que tinha
tive medo que te pesasse
(e segredas-me no ouvido da boca as tuas façanhas)
como o céu pesa sobre a ondulação rebelde
prefiro-te leve asas apenas sem corpo sem medo
sem amarras que te prendessem ao cais inundado

(não é uma lágrima apenas uma estalactite de sal que embeleza a estátua sem olhos vai)

pressinto-te para lá do fio da navalha
onde passo os dias a dançar visões
inventando amigos nas nuvens
incapaz de me lançar nos universos
que vou narrando na pele dos dias imensos
(aponto um cano de papel com lentes e procuro-te nos vales e montes que rasgam o nosso nome nas palmas destas mãos felinas)

vivo agora de recolher o lixo que deixas por aí
(que uso como almofada nos abrigos da cidade eminente)
sem asas nos pés
amaldiçoado com penas nas mãos do espírito
vogando
cruzando os cheiros antigos
ao procurar a travessa da liberdade
inscrevendo nos interstícios dos tijolos
(dos muros opacos)
os rabiscos que sei usares para saciares a sede de infinito
as palavras onde repousas a boca da alma
num beijo ensandecido de inquietude sôfrega

(esqueceste algo dentro de mim de que talvez nunca te dês conta que talvez te tenha roubado num escrúpulo de leveza)

sei que voltarás quando os muros se opacizarem
ao primeiro sinal de peso
ao ressurgir da prisão das pálpebras
à impossibilidade do saciar dessa sede demoníaca

(dar-te-ei de novo tudo o que não tenho e voltarás a partir com asas renascidas na fragilidade dos calcanhares)


julho 16, 2004



no trabalho
no caminho
sabendo-me eu caminho
sabendo-me eu livre sem que tal se concretizasse

não sabes, mas digo-to daqui
nunca tive um orgasmo como quando brinquei com o josé
e o trouxe em dia de anonimismo maternal para a 'tua' cama

e o filho arranca do pai os tomates
e toma a seu cargo a tarefa da evolução

espero que não penses ser do teu gene o fruto que comigo morreu
é teu apenas em segunda geração
não teu
não nosso

do que se segue
porque é esse o papel dos pais:
impedir que o que vem dos filhos cresça

fomos então o outono
e podes levar as tuas súplicas aflitivas para a vizinhança de outra

cona qualquer
sei do josé o que sabe a árvore de um fruto seu
crescerá e aprodecerá
- ou será comido -

mas o meu ódio por ti é tanto que o que mais me custa
é não ter dado ao meu filho a sua irmã
a sua filha

porque só a partir do fruto a árvore se livra da semente
quando as andorinhas seguem para o sul
e deixam a cidade livre para as pombas reinarem por sobre tudo







como principiar algo
algo
como um princípe
um submisso
entidade
nunca

o espaço entre o que é
entre o que foi e apenas existe na sombra das palavras
dos traços
das linhas que os dedos desenham à sensualidade da escrita

e falando dos lábios:
quais as linhas da língua
qual a fronteira inexistente das bocas?
um desatino constante, a fome
a vontade incomensurável de comer
de saborear

há casas no mar sem habitantes
sem passos que lhes trasmitam o desassossego
beijos sem rosto que se cruzam na propriedade do outro
na escravatura de nós mesmos

e se se fala de princípio
subjai sempre a questão do ponto de começo

que tal se começássemos pelo fim?




nós, apetece-me
sabes, sempre que entro dentro de ti, mesmo sem caralho à mistura, sinto que te quero e não te quero: há sempre uma ambivalência associada ao tempo que nos tomamos enquanto o dia vem e não vem
talvez porque digas sempre que tudo continuará, mormente as línguas que saiem do corpo e as palavras que insistem em desvelar as mais ínfimas curvaturas do tempo
e não me fodas: o tempo é uma medida, e não se misturam 'feijões com batatas'
que se fodam as batatas e os feijões
pára com isso
não quero nem desculpas nem obrigados
não quero nada a não ser o nada que somos. ponto
da janela vejo o barro moldado das telhas, e procuro-te em meio às asas que fremem pelo azul baço
não nos encontro
não te quero porque não te quero possuir
mete-me esse desejo no cú
o que queremos (não só tu) é nós próprios instanciados pela puta do prazer e da vida no outro
mas sempre cada um de nós, numa união que é incompreensível fora deste apartamento (ah, as palavras)
não me venhas com o podíamos ser diferentes
somos diferentes
eu sei
tudo o que dizes tem sentido
a questão não é essa
percebe, o que nós procuramos é a perca total do sentido
sim, o que em si próprio pode ser considerado como uma procura de sentido
mas, ouve, ouve, nós não somos dialéticos, muito menos partes distintas ou disjuntas
não! cala-te! acabou o champagne, acabaram os cigarros, acabámos nós de ecoar um no outro
foda-se, não és capaz de te libertar das coisas? acalma-te. sabes que sou teu amigo, que apenas desejo que vivas


"para quê? para morrer?"







o corpo sofre a decapitação da cabeça
a cabeça a higiene do espaço
e surge inseguro o príncipio da mutação

ele há bocas sem sal em meio ao oceano
olhos que sem agulhas conseguem vislumbrar o que se esconde no seu verso
e braços que quando se abrem abraçam

kalentisciosatantemente rebela-se a luz contra a razão
ao mesmo tempo que numa praça em meio à planície a razão não se compreende ausente de fé
descobrem-se os espíritos que não vivem nem acima nem abaixo
abaixo da copa das árvores

palavras que trazem a magia
e permitem o ousar no inultrapassável
são a própria essência da vida
o regaço das mil rosas da raínha sedenta de prazer
a repetição infinitésimas vezes da palavra
'mais'

refluxo iterno da vontade dos dedos
dos dedos com outro polegar


 


julho 09, 2004






sem titulo-a - natasha gudermane.jpg
[sem título - natasha gudermane]


não existissem as mãos
nunca dedos haveriam que contar
tal como o vento
na necessidade de narizes puros
a neve sem mácula
o sentir desprovido de hipóteses

não existissem os olhos
e tudo seria diferente
mais pensado
menos intuído
um paraíso de cegos
daqueles que para ver apenas necessitam do que sentem
sem ver

não existissem os cães
e chamarmo-nos-íamos não humanos
mas animais
quiçá omnívoros
quiçá porcos
e comeríamos tudo o que nos rodeia
se a tal aspirássemos

não existíssemos
e pelo paradoxo em mãos nasceria o poema
a inconstância que marca o tempo
a própria morte alongada pelo prazer

não existisse o que existe
e um pé não seria um pé
um orgasmo não seria um orgasmo
uma folha
não seria uma folha
e tudo seria o que não é
e tudo o que é seria menos que si próprio

a palavra que se escreve quando se está só
sem a palavra
sem a mão que se aproxima
e toca








189.jpg
 [autor e imagem desconhecidos]

deixa-me rir
esta estória não é tua
gozas do sonho e do querer
mas nunca aceitaste uma lágrima
do regaço à nascente
noite a noite o choro e o riso

deixa-me rir
ou então
entra dentro de mim
vem ser eu por um instante
largar-me à noite sufocante

deixa-me rir
trazer à lua o animal que pára e que teima
que morde os seus próprios dedos
que tira da sua língua a própria rima
escondido pelos demais
não nos venham falar de amor~

pois é
pois é
há quem espere por nascer
a vida inteira
há quem espere sempre o momento
por dizer
a palavra inteira

deixa-me rir
não há serpente que te não abocanhe
quando te pões com os porquês
há sempre um teatro à espera

deixa-me rir
para quê palhaços quando te basta o sangue
quando os teus dedos te dizem do mapa proibido
e essa boca se contrai em prazer

deixa-me rir
e é por esses lábios que surge em mim
a vontade sufocante
de te afogar num suspiro
num mar de sons sibilantes

nãomevenhasfalardeamor


[obrigado palma, à grande puta que nunca nos há-de parir]







sem titulo - phil preston.jpg
(sem títlulo . phil preston]

qual a página onde está inscrito o teu nome
a folha cuja seiva tem a mesma cor do teu sangue
o corpo cujos vincos hajam trazido uma sombra similar
à tua
quais as matas
quais os caminhos

quando narras o teu nome pelas conversas intermináveis
não te parece isso tão pouco
tanto como as marés do mar

como o ponto de interrogação que peca
pela eterna omissão
pela omnipresente lembrança

lêmo-nos naquela noite
e foi uma leitura sem substantivos
sem adjectivação
éramos tempos verbais
sem saber se de futuro pretério ou presente se tratava
éramos gerúndios
e fugimos à condição
corpos
apenas
absolvição dos pecados da inércia

pelos nossos nomes se nomeava o teu
e toda a minha pele era inexistente
- como a superfície do mar -
pois embora remassem mil olhos de encontro à âncora
não se encontrava no nosso corpo onde fundear

e foi só quando morri
- e parti em mil asas de espelho .
que percebeste não serem as tuas costas virgens
o teu sexo puro
a tua boca de rosas
as tuas mãos pântanos onde me perdesse
eternamente


julho 06, 2004


enlacse


water serpents ii - gustav klimt.jpg 
[water serpents ii - gustav klimt]



como se fossem irmãos e primos
numa roda de sangue pelas guelras dos progenitores
por pescoços, por guelras
pelos sexos desfeitos de inexistência
pelas manchas que surgem na pela à masturbação incauta da mente

como se de quadrados e triângulos se compusesse
a tua imagem
e dos timbres brancos com que perfazes os dias
se formassem imagens de mares e sóis
a busca constante do que se esconde para lá das veias
no fluxo dos dedos pejados de angústia
dos dedos disformes ao som da harpa dissonante
dos dedos sem pele
dos dedos sem um propósito
como se não existisse sentido na existência
e daí nada mais viesse que não girassóis
angulares

como se pelos caminhos que percorro
alguma vez encontrasse alguém
e aos meus pés chegasse um suspiro
um toque
uma dádiva tua em meio a esse teu sono
e um beijo que me soubesse a pele
na pele que soberba me percorre a pele
virgem de janelas
virgem de portas
virgem de rios que não confluam para o mar

como se dos teus lábios saísse algo
indizível
como se fora o teu nome nascido de uma ostra
em que a forma opalina tomasse por gosto o teu gosto
e lambesse com a tomada da boca o espelho da minha silhueta
imperfeita mas divina
irreal mas impossível
como o sonho em meio ao sono
como o nome em meio à voz

como se pela dívida do grito
uma planície se levantasse
e dez mil caras olhassem para a lua
numa exclamação de terror
de rosa nocturno prendido à força da vontade
ubíqua
fugaz e, no entremez, eterna

como terra e foice
e coice e dedos de semente
e olhos fatigados pelas lágrimas do sol
e ramos e ninhos e ovos e uivos
e suspiros à sombra do que advém da liquidez da paisagem
e tu e eu
na náusea da descoberta


julho 03, 2004






hipócritas:
calem-se
CALEM-SE

cessem as homenagens post-mortem
calem esses dentes oportunistas
deixem os mortos em paz, não se arvorem em prantos falsos
elogios, fizessem-nos em vida, quando havia sentido para tal
agora só sobram os versos, e esses não têm ouvidos
declarações solenes, com bandeiras e palavras bonitas: usem as casas de banho
poupem-nos à ladaínha costumeira
aos prémios póstumos
os mortos não precisam de medalhas nem de homenagens
não falem para os outros só para se ouvirem, para se sentirem boas pessoas
respeitadoras, admiradoras, nobres, cultas, éticas, morais
deixem os mortos em paz
de uma vez por todas
deixem os mortos em paz
deixem o mar falar e levar as vozes e as poesias que ficaram
calem-se de vez
e não comprem livros
a morte é sempre boa publicidade
e as editoras apresentam as suas condolências
a honra de ter publicado as obras do agora cadáver
ao mesmo tempo que esvaziam as gavetas da caixa registadora
não vá faltar espaço para as notas

os poetas devem morrer sozinhos
sem que o mundo o saiba
para que o mundo os não agarre, os não abocanhe
agora que a imobilidade finalmente chegou
e o derradeiro verso foi escrito
no grande livro do tempo

os poetas não devem ser de nada
de ninguém
nem deles próprios

por isso:

CALEM-SE
deixem a paz invadir o poema sem mácula
e ouçam a voz que vem dos lados do oceano preencher o espaço finalmente desvendado


julho 02, 2004


tesejo


fauno e bacantes.jpg 
[título e autor desconhecidos]


sabes como sou quando ouço um silvo da voz que me chama
-intenso-
e é sempre nesses instantes que nem parecem de tempo
que algo se passa
que de tudo ouço menos que o sibilar da língua
aguda, premente como a criação do mundo
cheio de espelhos
por onde não me perco
visto não haver vulva que se queira quando existe uma voz que chama
- que incendeia –
que nos diz que nada há para além do nada

e uma flor que se vira para o sol
uma mão que anseia outra descoberta
descobrindo a pele que a encobre
e protege de si própria

não percebo este poema
- nunca percebi nenhum dos que escrevi –
e no entanto há onze criaturas que se desprendem do que julgava ser
em procura das estrelas
como ouvidos que querem sereias
árvores que anseiam o vento
para murmurar
e dizer algo como: nunca
sempre que a liberdade o quiser

mas teimo em ouvir-te
sentir-te
pelos labirintos da voz que cessa à vista do desconhecido
lá onde tanto há para ver
para sentir

sei das labaredas informes que me percorrem o corpo
o corpo perdido em meio à planície
dos astros que me descem das costas
poisando na alvura das coxas
num puxanço alucinante em direcção à terra
ao mar

sei, e um saber que se há perdido na espuma das noites
ilumina de negro a costa dessa terra terna
onde as mãos descansam e
as pernas não têm chão
razão
apenas a surpresa dos tons avizinhados do amanhecer
do amanhecer sangrento pelos sexos da aurora
fecundada

aproxima-nos a sede de transcendência
e nunca nada foi tão próximo e tão distante como nós
separados pela foice argêntea da noite
num tresmalhe agreste de proximidade
gritante

sabe, nada de mim tem algo que se possa chamar teu
e de ti nada desejo que não seja meu
meu
teu
não nosso
não vindo dos pés, das línguas, do cabelo que nos emaranha às noites famintas
grotescas de nós
de árvores onde se carvam os nomes
as figuras

sei que quando vens as noites são sós
e que mesmo assim te quero
e que mesmo assim te tenho
e que nunca nada possuo que seja meu
e que as sombras são apenas o prenúncio do livro que escrevi
à luz do imaculado sentir do princípio
da soma sem parcelas onde uma lua ficou
sem que da sua prisão raio ou vénus ousassem a fuga

desejo-te
e falham-me as palavras
os gestos
a boca que desaparece
no abismo de si própria

desejo-te
e tanto que te quero que me queria esquecer de me esquecer
de sequer saber o que são…







não, digo-te que não
há nomes secretos
impossíveis de significarem
de nos falarem das asas que escondem na sombra dos seus contornos
sem que antes as destruam
como o sopro de fogo do verão tatua a pele de inferno


há nomes secretos
os outros não interessam
e essa celebração terá de partir do centro do vazio
da agulha do compasso cheia de veneno
das mãos que mais não são que transparências com voz


junho 30, 2004






umas faúlhas apenas
e toda a lenha se reviu em cinzas
nem braseiro
nem fornalha
apenas alguns dedos incendiados
no decair da praia


junho 26, 2004


só-co


ponto numa paisagem devastada.jpg 
[ponto numa paisagem devastada]


Só, entre as muitas luzes da cidade. Só, tão só que nem a solidão me deseja para companhia. Só, tão estupidamente só que apenas sei que sou eu pelo barulho intangível da minha respiração. Só, razoavelmente afastada do mundo, num caminhar incerto em direcção ao apagamento de todos os meus passos. Só, transgredindo as regras impostas pelo sexo, pelos dedos, pelas necessidades, renegando a todos os desejos de posse. Só, apagando o ter no ser.
Só para num instante ser engolida pela minha própria pele, num transporte leviano de mim para nada, para nenhures. Soturnamente só, como os bichos que insistem na lâmpada à opção negada de presença em meio à restante maralha esvoaçante. Só, como a luminosidade sombria dos lampiões que observam a ausência solar. Só, tão só.
Só quando me chego a um outro corpo e o atravesso sem pestanejar, falha de qualquer espécie de substância.
Só, como um verbo sem um substantivo, inexistente como se de um grito no vácuo se tratasse. Só, sem ó, sem s, sem um suporte material que consubstancie a inexplicável torrente que teima em crescer, em se expandir, em pervadir todo o espaço que vai de uma mão à outra, em me procurar nos cantos onde me escondo de mim mesma (e logo de tudo e de nada), em insistir na tumorização do fantoche que ousei inventar só para poder ver a minha face infantil nos lagos que se me acumulam na boca.
Só, como aqueles breves momentos que parecem desafiar o rio do tempo, numa persistência semelhante aos instantes em que fito os meus pés e falho na observância do chão. Só de terra, só de mar, só exemplar.
Solidariamente só, sozinha, entregue às ondas inscritas no cinzento amarelado das paredes dos prédios altos, mais altos que tudo, menos sós que eu na sua mudez de betão e bonecas de papel vegetal. Como pode existir tamanha solidão, quando sei que o que se desprende da memória são apenas fotografias baças do que talvez nunca existiu, quando a própria memória se transforma em imaginação e esta assume o papel condutor do que nunca sou a mesma?
Só, só, só. Só como a morte, como o feto, como alguém que tenha aprendido a inexistência da existência e não se conforme à impossibilidade do desaparecimento. Só como o suicida trancado numa cozinha, sem facas, sem gás, sem paredes nem portas nem telhado nem casa. Só pelas linhas que encontro desenhadas nos meus seios à força da chuva que escorre pelas vidraças do prazer assassino ainda pressinto o cheiro da vida – como o cheiro da terra misturado com o meu quando tentei falar contigo de boca encostada à erva e me encontrei muda, muda e só, muda e confusa por não conseguir compreender o que é a segunda pessoa. Talvez tenha sido aí que descobri estar só – não ter ficado só -, só quando percebi que as paredes não falavam comigo: apenas reflectiam a minha voz, num gozo terrível de teatro abandonado às perversões dos inúmeros avatares com que julgo encher o espaço em volta.
Só, como se tudo apenas vivesse dentro de mim e por isso nada aconteça sem que em tal eu participe. Só, como se as letras, as frases, os tratados e as poesias não precisassem de palavras para nada, e as palavras assumissem apenas o papel de jumentos transportadores da insuficiência dos meus olhos, dos meus ouvidos, dos meus dedos, da minha solidão.
Só, e é quando me sinto devastada pelo cansaço dos meus passos que encontro alguma companhia no sossego que se instala no meu ventre. E sinto a minha sombra a carregar o meu acorpo no preciso momento em que o espelho ia estalar, disseminando-me por toda a vasta superfície desenhada pelo compasso assente na minha língua.
Nomeio, e fico só. Interpreto, e fico só. Penso, e fico só. Escrevo, e à violentação da alvura da página compreendo: não há palavras, só sombras. E são as palavras que me fazem tão, tão só. Tão paradoxalmente só. São as palavras a solidão, e a solidão a tinta que permite ao universo ser universo, que me devolve ao descanso atribulado de mim própria, que desempenha o papel de mãe e carrasco, que faz amor comigo quando o fedor da propriedade se entranha debaixo da derme e me força ao vómito nos lençóis possuídos de um êxtase inocente, e nem todo um dilúvio tem a força para me retirar deste pântano.
Só, sem orgulho, sem convicção, consciente apenas das veias que observo no verso das mãos, do sangue incolor que tenho de drenar todos os dias sob risco de rebentar, só.
Tão só. Tão só. Sem ó. Sem s. sem


junho 24, 2004


I-Y




o tempo passou na indecisão dos extremos
e enquanto dormíamos na cumplicidade inexistente
fugimos outra vez

a vez
de vez

depois
deixou de existir
o momento em que o corpo virou à esquerda
e a alma seguiu à direita

mas não vás acordar
rimar com o meu sorriso

sometimes I just can't stop



ciclobronic


metamorphosis - brachnov svyatoslav.jpg
[metamorphosis - brachnov svyatoslav]

aqui ao lado.
a festa
o festim
da carne, das unhas, da sede
do momento planeado que não ia acontecer
enquanto tu, meu amigo, fodes
dez línguas desenham a dor da tua solidão
crua

onde não há tu ou eu
desespero

mas as máscaras existem
inofensivas pela calada
mortíferas ao momento do toque

e é por aí
meu porco
que as estradas se bifurcam
e os amantes se separam
deparam com o abismo da espera
meu porco
adoro-te

janelas
a oportunidade convicta de quem se crê em vida
mas que não acha provas do seu próprio coração

a respiração

companhia das paredes negras
invísiveis
das horas
dos minutos
dos segundos
em que a existência se desenrola sem que por tal se dê

pelo tempo das lágrimas
pela vereda dos dedos
pela margem do navio que naufragou à vista da terra
ao canto da sereia que queimou as asas no som do sol

o sol
esse cabrão que te acordou
e morreu a seguir
porque alguém disse:
"começa outro"


junho 17, 2004


dolore tremens




hunger - natasha gudermane.jpg
[hunger - natasha gudermane]

escrevo e tu nada percebes
escrevo e eu nada percebo
e sei aí a legitimidade destes dedos que se cravam forte na folha
numa postura de donos e senhores do que deles jorra
e se esgota na alvura plana do deserto

no entanto não há aflição
a aflição precisa de um qualquer perdão
e sei que a vida é demasiado curta para isso:
os deuses só existem para a imortalidade

fica mais a palavra que o húmus
mais o fruto do fémino ventre ao longo dos ciclos
que as maquinações extemporâneas da espécie
urge uma nova língua
e uma nova língua surge
urge um novo sexo
e ele não tardará a despontar

tudo o que é conhecimento é falso
e é por isso que é conhecimento
ao desconhecido não se conhecem concessões
e é para lá do seu horizonte que se encontra o que nos procuramos
tão perto e simultaneamente tão próximo
paradoxalmente próximo
sempre mais além

rogam as palavras para que as largue
invadem o sono numa insólita vontade assassina
de imortalidade
mas não são minhas
nunca serão minhas, percebe
são apenas bichos encativados nesta gaiola de pele e mãos
somente presas fantásticas sem espaço para abrir as asas do cú

é assim que durmo
inquieto pelos muitos que me habitam paralelamente
em nervosismo irónico pelas frontadas da existência
neurótico
fragmentado embora uno

e se soubesses a urgência momentânea de uma mão na testa
talvez sentisses pena e corresses pela erva do verão
num esbaforido desejo de mitigação da dor
a minha dor
a tua dor

sabes lá que há dores que sabem bem
sabes lá que há dores
sabes lá das dores que há



achtung bubby


sem titulo - natasha gudermane.jpg 
[untitled - natasha gudermane]

aviso #1

peço desculpa por tudo o que escrevi
e quero é que tudo se foda alarvemente~

aviso #2

nada do que sai daqui tem algum sentido
apenas umas letras que insistem na intriga
nada de mais

aviso #3

há muitas putas por esta longa noite fora
umas mais promíscuas - as melhores -
outras mais peçonhentas
umas ainda dadas a ares de senhoras
qualquer uma delas sequiosa da descoberta do efeito que o seu amo provoca no mundo exterior

aviso #4

a noite vai escura
nada do que era garantido durante o dia é estável durante a noite
até os cães uivam
e o vento parece diferente
apenas diferente

aviso #5

quanto do vosso sexo foi largado no prazo que findou?
tudo ou apenas o que pressente o que pode vir a ser?

aviso #6


há cantos e cantos
o das sereias diurnas espraia-se pela noite
não as oiçam
o das sereias nocturnas perde-se em meio à ebriedade vampírica
se o sugarem transformam-se em névoa pela manhã.
não há saída senão a profissão de compositor

aviso #7

nunca ousem prescrutar o interior de uma garrafa pelo gargalo
ficarão sem olhos e sem veias

aviso #8


aviso #9

restam três dedos
quem ousará usá-los para se preservar antes da sombra oblíqua?

aviso #10

alguém perguntaria: à década morre o espírito?
puta que os pariu

aviso #11

I know you and you know me too
I know everything that you're going through

aviso #12

quem dá a outrem um convite para uma festa
escapa-se de boa
tipicamente da saturação do convívio com espécies degradadas.
não há como a solidão

aviso #13

o orgasmo
elevado a categoria de nome
e no entanto inominável, indecifrável
lembrar: nunca deixar que outros os tenham por nós
o onanismo, mesmo que acompanhado e acompanhado por penetração só tem valor se se sentir que se está a foder a si próprio

aviso #14

o cão
a fome constante
mesmo na ausência da mesma
pelo menos não são vírus como o tal sapiens sapiens

aviso #15

deste canto vejo uma imagem de luminescência ténue
uma janela
e apercebo-me da falsidão dos sentidos
tenho uma janela dentro de mim
e uma porta
e só consigo pensar na puta da luz da rua
quando a luz por duas janelas decresce vertiginosamente de velocidade
- em relação ao ponto de origem, claro -

aviso #16

hexadecimal
vícios de um nó da árvore
encontro-me e perco-me constantemente
dementemente
duvido dos reflexos que me incendeiam os dedos nesta escravatura
e sei sem o saber que nada há além do que vejo e imagino agora

aviso #17

I'm exactly where I want to be right now
so don't fuck me with your apologies

aviso #18

quantas vezes se olha e se tem medo de olhar
só pela irracional sensação de proibido?
é medo de nós próprios em meio à solidão

aviso #19

tenho um cigarro a fumar-me
e consola-me saber que sou eu que fumo a vida
e não a vida que me fuma a mim.
soubera eu fazer o mesmo com o tempo

aviso #20

ao término da masturbação invade-me uma esperança e uma desesperança:
a esperança de saber que consigo esquecer o prazer
a desesperança de saber que não consigo esquecer o prazer

aviso #21

eram sete pombas
que se juntaram a mais sete
e pelas quintas da aveleda
esvoaçaram roubando o milho dos cultores
a essas mais sete se juntaram
e em meio ao imenso grito que largaram pelo ar
se desvelou um grande 21

aviso #22

25º
00:36 am
não se escreve a partir desta temperatura
desta hora
sem se estar alterado
ou deus castigar-vos-á

aviso #23

quando se vir uma centelha na noite
e não for o farol de um cigarro
desconfie-se:
há forças escondidas a conspirar contra os dedos

aviso #24

e se vos for exigido que tomem posse de algo
recusem
ou será o vosso fim enquanto
ser

aviso #25

eu e tu
nós e os outros
verdade ou mentira
assim ou assado
não respondam à armadilha
nunca
(poupo-me às dez mil linhas de prosápia justificativa)

aviso #26

quereis ser comerciais
um comercial é carne para cão
(embora julgue que come os cães, essa a maravilha desta parábola)

aviso #28

aviso #28

aviso #28

aviso #28

aviso #28

aviso #28

aviso #28

aviso #28

aviso #28

aviso #28

aviso

av............................






asviúvastristes
ospassosemvoltadacampa
otemposemespaços
arevoltapurulentasemdestino
oolharparaocaixãonavisãodenósmesmos
prenúnciotalvezdemorte
talvezdevida


queroumacerveja
comgravata
edezputasrançosasdetantouso
eumcéuexemplardeestrelas
eumamortecomdor
sóparanãoserdiferentedosdemais


àspalavrassegueaostentaçãodasmãos
emorgulhoásperosoberbro
decriação
quandotudoestáporcriar
eportantonuncanadasecria


osvivostristes
quandotantavidaaindapulsavadentrodeles
eummurrononarizavisaosangue
desespero
nãoosuficienteparaosuícidiodacabeça
paraodesenrolardotapetefrenteàsmulheresdepreto
putascabrasprostitutasdamorteagarradasàvida
grávidas


querotetaseervasinquietas
eumazuldemasiadoazulparaqueoaguente
edesejosinconcretizáveisdetãosimplesserem
eumsorrisodeumcãomorto
eumesgardezombariadequemgostadaminhaimagem
eumcoponapiortascadacidade
esífiliscerebral
quemecaiaqualquercoisaenemdêporisso


assimsurgemasnoitesalgemadas
deovospartidos
deovospartidos
dedesvendânciastranscendentesenadadeeu
nadadenada


nadadenada
tudodenada
fodase


 


junho 16, 2004


polivitae





Confession - Misha Gordin.jpg 
[Confession - Misha Gordin]

podia ter sido
mas nunca foi
seguiram por cada perna aberta da árvore
os muitos que nunca se conseguem separar
e coexistem em diferentes ramos
paralelos
diferentes mas iguais
os mesmos dedos
as mesmas mãos
mas com movimentos distintos
mas com unhas de comprimentos  e formas variados

nunca foi
e não só pode como é
pontualmente olham para o lado em distracção
e parece-lhes pressentir algo de familiar no outro ramo
no outro lado da rua
num tempo diferente

há uma absurda heteronímia
pelos percursos trilhado da vagina ao ómega
como se fora espelho que pode sempre mais um estilhaço
mais uma imagem projectada

e a existência são muitas existências simultâneas
fragmentadas mas comuns
estranhas entre si mas idênticas na posição do coração
dos pulmões
do sexo
nem que seja por serem diferentes

nunca é
visto não nos distinguirmos da imagem excepto ao toque no vidro
e mesmo aí quem toca o quem?

ficam pelo caminho as hipóteses
tudo é concretizado no vasto arvoredo em que empregamos passos de engano
de lodo
e nem aquele que consegue ganhar asas
voar
se liberta dos que continuam no rastejo pelos galhos chãos

todos falam
gritam
e nenhum pensa que ouve os outros
quando ouve
quando sente
quando tudo em tudo toca
tudo em tudo é e não é

e tudo isto é tão menos que o gesto de um olhar para o lado
parado no curso do tempo
subitamente parado no curso do tempo


junho 13, 2004






superhero - manuel lava.jpg
superhero - manuel lava


virá o dia em que o casulo será construído pelas minhas próprias mãos
com os fios que apanharei nas árvores onde sangue foi derramado
e não serei nunca borboleta
e não terei nada a que possa chamar meu
nos meus bolsos só permitirei objectos de outrem
e eu próprio serei um objecto no meu bolso
e não serei nunca borboleta
e muito menos crisálida ou verme

virá o dia em que ao acordar terei os pulmões limpos
a cigarreira vazia
e mil isqueiros de estrelas ao alcance da mão
e não conseguirei queimar as asas
pois nunca serei borboleta
ao acordar
sentindo pelos olhos fechados o palpitar cego do mundo
mas não me interessará
pois os meus pulmões encontrar-se-ão limpos
e nos meus bolsos vazios apenas verdades vazias
e todo o espaço do mundo
e uma carta de recomendações da associação mundial dos vagabundos

virá o dia em que vou poder escrever só para mim
e ser egoísta e egô-egô
e polémico só pela verdade
e vou queimar a bandeira e o dinheiro de um país
- que não o meu, que esse nunca terá nome nem fronteira –
e ser preso só com a satisfação de não ter medo
de ficar sem o sol e o mar
para poder cuspir para o ar sem atingir o tecto do calabouço
deitado
a tentar desenhar-me com saliva e ranho
enquanto de olhos abertos vejo o mar
bebo o sol
dentro do meu próprio universo

virá o dia em que declararei aberta a falência humana
e uma sentença de morte será lançada sobre o meu cocuruto
e terei os pés leves os bolsos vazios de tudo o que pudesse ser meu
leve
e nesse dia desenharei uma flor de lis nas pessoas com pés pesados
e as putas serão finalmente ressarcidas da pretérita ofensa
pela mão que inscrever tão infame símbolo
privilégio de reis, cardeais e prostitutas
nas bochechas dilatadas pelo excesso ruminatório
ruminam-se almas durante toda a vida
durante toda a vida são as almas ruminadas
e ninguém se cansa de mastigar
mastigar
mast()

virá o dia em que não terei de pedir perdão pelo prazer que sorvo
em que os corpos serão corpos com sexo
vibrantes, tênseis, inquietos
em que os corpos serão corpos com espírito
transcendente, independente do ego social
em que os corpos poderão também pensar
e será esse o dia em que a grande besta do apocalipse virá
virá e trará droga com fartura e vinho e imaginação e boa música e melhor poesia
e as igrejas
ministérios
estátuas
bancos
escolas servirão para alguma coisa:
lenha para aquecer na noite fria os corpos
- com sexo espírito pensamento imaginação –
extenuados após a grande festa da despedida
a inauguração onde também será cortada uma linha:
a que nos impede de ver vir o dia que virá

virá o dia em que acabarão os dias
e o tu e o eu
em que os bolsos só serão bolsos se estiverem vazios
e um orgasmo será mais importante que o tempo

virá o dia em que cada um será abandonado a si mesmo
sem espelho
numa solidão final assassina
e só então se aperceberá que existe
e respira
e sente e pensa
e terá medo
muito medo
o seu medo, não o dos outros
e provavelmente não sobreviverá à tentação
e cairá
e sentir-se-á morrer

e será levantado pelos mais puros
- os tais dos bolsos vazios
que vivem nas linhas de sombra que unem as paredes ao chão
os tais que virão no dia que virá -
e só aí saberá que a morte não vem antes da noite

virá o dia em que tudo será bem mais simples
em que tudo será bem mais complexo


junho 07, 2004






fighter - egon schiele.jpg
[fighter - egon schiele]


ao desprender das horas
quedou-se na orla do tempo
um homem pendurado

trazia um relógio abraçado à língua
e as suas pernas tinham tatuagens de sereias
em fuga ao cataclismo das noites de nápoles

ao tremeluzir das luminárias
surgiu um grito de deslumbre
e logo os dedos correram para o porto
para os navios de onde saiam ratazanas de chapéu
e medalhas

o mundo era a noite
e o oceano os corredores de portas transparentes
quando o refúgio da seiva entumecida
opiava as mãos
as linhas distorcidas
o fio por uma vida

horizonte e montanhas perdidas no mediterrâneo
panaceia de mulheres perdidas
estátuas
e um grande círculo de paisagem
situavam o abismo nos pés que olhavam o tempo
passar
indesejado
como a pausa
entre o cais e a barra
como as fotografias de memória
que o vento ajudava a incendiar
até que tudo era um fogo
até que no peito se acendia o farol

e o homem que era farol e navio
e faroleiro e fogueiro
e origem e destino
cingia os braços ao corpo
e se injectava com o ponteiro dos dias
no desespero da vida sem princípio nem fim

apenas o mar
e o tempo que não tem sal nem whisky

apenas o homem
e todos os homens que vivem dentro e fora dele
mas longe


junho 03, 2004


dolero


pain - natasha gudermane.jpg 
[pain - natasha gudermane]

luz
a da noite
o rasgo
e quando tudo o que eu te digo parece falso
é porque é falso
é porque é verdadeiro

é porque tudo o que queres está ao alcance da tua voz
e nada se descobre ao toque dos teus dedos
nada se tem quando a espuma suave das horas parece desaparecer

e uma rosa irrompe pelo teu corpo negro
às mãos transparentes da soberba
e um sonho é descoberto aos olhos doces de uma criança
virgem

vejo mil flocos a transgredir o ar
no seio das mulheres em chamas
em prantos
em âncoras que não prendem libertam
iludem
te dão as pernas que querias ter
e as asas
as asas
asas

e a cera que se molda ao formato do sol
do corpo
do corpo
do desassossego
da morte
enquanto cordão
enquanto umbigo
enquanto tudo o que não és e sempre serás
a vida
a vida
a puta da vida

[
73*52=3796
28*52-9=1447

3796-1447=2349
1447/3796=38,11%

e se alguém, numa curva da noite
te segredasse que já tinhas vivido 38,11% da tua vida
como te sentirias?
]

tudo
o absurdo
o filho da puta do absurdo


junho 02, 2004




desceu uma gota entre os dois muros
separou duas árvores em duas
ganhou um mundo fragmentado
no irónico acento de o compreender
destruiu-o

um homem tocou com a ponta dos dedos na terra
e logo as suas mãos se tornaram raízes
o seu corpo uma árvore de fogo
os seus olhos frutos de verão
transformado em caule o seu sexo

na órbita do mar mais próximo
uma duna morreu sob a pele fria da lua
desviou num rebate de paixão os olhos das águas
secou-se-lhe o sal dos olhos
olvidou-se da lição da mulher de Job
não mais foi aquecida pela saliva dos amantes

e no cima da imagem
um jovem era desenhado ao traço preciso
da loucura

no cimo da imagem
um estardalhaço de dedos e gritos
ameaçava o mundo com a promessa de um poema
E destruiu-o
e viu o sexo transformado em caule
os dedos em estátuas de sal
o poema no vento que faz cerrar os olhos






e chorar


 


maio 29, 2004


pesqueiro





stay or go - steven gosling.jpg
[stay or go - steven gosling]


na praia uma mão
forma o embaraço da partida
a vergonha da chegada

e os corpos escamados levantam as areias
levantam e procuram restos de sangue
erguem-se puros à altura do horizonte
insondáveis como estátuas cegas
tisnadas de uma cor nem de passado nem de futuro

trazem ao ombro uma teia antiga
e são mais largos que o mar
mais pesados que o sol
vagabundos por sobre a própria cadência estelar

e assim se apagam
num suspiro manso e efémero
à violência do abismo marítimo
à estreita profundeza de quem os vê partir
e sofre por saber
que o que parte
jamais deseja voltar

assim as vaginas lhes dão abrigo
à orla das águas
assim colares lhes apertam o pescoço
e uma cruz de espinhos lhes aperta o coração
assim as sementes são deixadas em terra
e se lançam as mãos ao mar

onde tudo se perpetua
onde nada se mantém
apenas a cor das noites
apenas os dedos do homem reflectidos
no espelho quebrado do fim do mundo


maio 24, 2004


vem


vem - alves tca.gif 
(à Maria Joana)


vem
recebo-te no grande deserto que me preenche o vazio
na noite estrelada onde os sussurros do vento anunciam a pureza das cores
em desbravando os limites deste mundo interior com os meus braços abertos
inscrevo-me no horizonte em ardente sinal de desejo pela tua sede

sei que aí vens
e contigo caminha a marca da minha morte
a mão que recolherá o corpo defunto no seu próprio ventre
a boca de onde os meus beijos continuarão a desaguar
os olhos que continuarão a imprimir os meus desassossegos na paisagem
sei que aí vens
(e és tu, digo-te, a minha morte a minha vida as asas que me roubarás)

sei que sentirás
no rosto a língua quente que me devora o interior da boca
ansiosa por afectos palavras perguntas emoções pela tua língua
percebo-te como o abismo onde entregarei como justa paga da tua recompensa
boa parte do meu espírito e umas quantas inquietações abandonadas
(custa-me que tanta coisa que não eu se prepare para te invadir o livro em branco)

vem
repito-te
as palavras de nada valem ao te fundir aos meus braços
ao meu peito de ferro derretido
chegará o dia em que lá verás a tua forma
tatuada em tons de carne prateada
(saberás aí que me transformaste mais que eu a ti que me roubaste que eu o queria)

sei que aí estás
embalada com o teu primeiro conhecimento do universo
rodeada por um calor calmo que se extinguirá na estupidez
(de teres de crescer chegar a jovem adulta velha morta)
encarnando uma personagem inconsciente numa moldura onde se desenhará
(ouve o rio, será com o correr lento rápido incerto do tempo)
a obra-prima do mistério da vida
da vida de maria

sei que sentes
as profecias que te segredam irritantemente, tu criança inocente
do serás isto aquilo ou ainda o outro
do terás de fazer isto não poderás fazer aquilo
do que bonita que és irás ser
do pareces-te com este aquela ou o outro
(mas percebe, esses não quererão responder às perguntas que lhes colocares)
será instante a instante que quebrarás as regras antigas
que recusarás os grilhões que te hão-de querer vender
(olha-me nos olhos, que saberás nunca deixar de ser criança de fazer perguntas estúpidas incómodas)

vem
alcançaste a raiz da árvore da vida da ciência da morte
sabes quantos ramos ainda tens de nascer para alcançar os braços da lua?
de ti brotarão as folhas que serão lambidas pelo sol
virá o vento amante que te envolverá só com o fito de te desfolhar
do teu ventre brotarão as flores que embelezarão o cabelo divino
e farás chegar às bocas de quem precisa os frutos maduros das tuas dádivas

vem
tudo te espera
é amarga a alegria que me invade as grutas sombrias
que preenche de um aroma embriagante o pomar decadente do meu espírito
(que com um toque teu não sem nenhum toque ressuscita numa loucura esverdeante)
amarga como o saber-te o princípio do meu fim
amarga como o saber-te maior que eu próprio
amarga como a largura dos dias em que desejar os teus olhos
a tua voz
o teu abraço
um beijo uma palavra que principie a nascer da tua boca

amarga como a distância que quando ao me leres
(quando fitares os lábios vermelhos destas palavras nesse ponto hoje longínquo)
terei percorrido na procura de uma paixão
amarga
(talvez apenas a paixão de me querer criança de fazer perguntas de olhar para mim e sentir o que senti hoje quando te vi)
talvez longe talvez perto sempre distante
(posso-te pedir que me grites o meu nome pai ao vento quando sonhares comigo que tentes sempre sempre roubar-me as asas?)

sabes
seria ridículo dizer-te que nasceste hoje
naquele dado local àquela dada hora com aquele dado peso
tão absurdo como tentar apanhar um bocado do rio do tempo
com uma mão aberta
com um crivo de areia
compreenderás que não nasceste nunca
pois existes, simplesmente, sem nenhuma razão ou sentido para isso
que ao existires todo o momento é um nascimento
uma mudança em que te reinventas
maria
sempre diferente
maria
nunca igual
nunca idêntica
sempre maria

vem
maria
há alturas em que as palavras inundam os pulmões e trazem o afogamento
o esvaziamento precoce do que é pedido pelo sangue
vem apenas
maria
vem


maio 20, 2004






caga nisso
vamos embora
aprovaram os transgénicos
apagaram o risco
a torre de pisa caiu


hoje apareceu uma menina negra com um rasgo de terra queimada no cabelo
uma mão decepada
um olhar longínquo
de quem já morreu
e ainda sorve a teta da mãe


caga nisso
que interessa a arte
a criação
o egocentrismo ou o tempo
a morte ou as marcas
a inteligência ou a primeira pessoa
caga nisso


mete o cú às costas
fecha atrás de ti a porta do tempo
desliga-te dos gadgets
sente o dia que passou nas passados do porvir
encaminha-te para a morte
no sentido do sul


VAI


(eu já lá estou)



odisseia - a tentação




i dont remember where - natasha gudermane.jpg
[i dont remember where - natasha gudermane]


Escrita a palavra
Vem o esquecimento dos dedos
Da língua


E dos corpos de gelo emerge a noite funda
Abismo de mar


Quando à descoberta das orlas islândicas
Se revela o mistério
Nunca o desatar dos nós
Nunca o passo no areal
Nunca a interrupção da voraz canção pelo abrir dos olhos
Nunca


Nem sequer à dor da surdez dos companheiros


maio 19, 2004


estático





naquele domigo
o teu corpo parecia
flocos de tempo a esvoaçar pelo ar
para lá
para cá
numa cadência suave e precisa como o grito
da gaivota de fogo que rasgava
de quando a quando
o círculo da janela


e parecia que não havia mais tempo
a vir ou a chegar
fomos mortos em suspensão
ou então o tempo havia parado
e divertia-se a calcorrear o cenário
estendido do céu à cidade


mas naquele domingo
tudo estava morto
e só a gaivota passava
de fogo, como o sexo
de fogo, como a beleza
de fogo, como luz


e nas tuas pernas
enroladas em torno das minhas
era mera presa surpresa em morte de poesia
vítima de um assassinato que prolongou o azul desse dia
pelas horas que voltaram a queimar


nada era estranho
nada queimava
tudo parece tão absurdo
fora do círculo da janela daquele domingo


maio 18, 2004


gemini seduction


sem titulo-b - natasha gudermane.jpg copy.jpg
[sem título - natasha gudermane]


A caminho do ponto de encontro, Ava tropeça casualmente num pensamento. Estaca subitamente no topo da memória do que se passara na noite anterior. Foi com ele, Lut, que ela efectivamente estivera, a quem se entregara numa onda inebriante de impersonificação da sua própria irmã, Iki. Toda a luxúria que nunca havia experimentado antes vestia-a agora de uma sensação de plenitude que só o pecado violado consegue trazer.


Cheiros e visões de carne no meio escuro das velas enjoam-na ao ponto de ficar excitada, imóvel no meio da rua movimentada. Tudo se assemelha a névoa. E o cheiro misturado de Lut e de Heva ainda habita os sentidos apanhados desprevenidos. Era então assim que se atingia mais um patamar: a libertação perversa do corpo enclausurado.


Com a luz do sol do meio dia nascem pequenas gotículas de suor, percorrendo o peito coberto por um vestido largo, alcançando o topo do púbis de Ava. Tudo parece irreal, e o desejo instala-se uma vez mais no seu espírito. Um dedo é elevado à boca e saboreado sensualmente, perdido numa lascívia demasiado concreta para poder ser ultrapassada casualmente.


Ava dirige-se ao café mais próximo, encaminha-se para a casa de banho, guardada por uma daquelas portas que deixam vislumbrar os pés por baixo da mesma, entra, encosta o rosto à parede em frente, estaca os pés ornados por umas sandálias cujos atacadores envolvem como serpentes as pernas torneadas, dirige as mãos sedentas para as suas nádegas, abrindo-as sofregamente e sente o sexo faminto a derramar o fluído da luxúria. Masturba-se avidamente, deixando adivinhar uma transmutação séria de si própria.


Onde será o amanhã, quem verá ao espelho? Será ainda ela? Ou ter-se-á tornado realmente em Iki?


maio 17, 2004


sul


summer time - natasha gudermane.jpg
[summer time - natasha gudermane]


o que escrevo quando nada sinto?
salto para o dorso da mariposa transparente
e adormeço após lamber as etéreas asas
antes de ler os clarões da vigília
na retina moribunda
consigo ainda sentir o cheiro do sul
puxar com sons doces a ponta do meu sexo

sonho com crepúsculos púrpura sobre um mar de palha
vejo nitidamente os corpos que se abeiram da estrada com a mão estendida
mendigando o uso das sensações
escondidos no verso da sua pele

ovelhas brancas lambem o pasto dourado
e ecoam o seu terno balir em todos os recantos do sonho
duas delas copulam alegremente sob a copa de um sobreiro
enquanto eu masturbo a minha imaginação com a imagem de universos perdidos

e continuo a nada sentir
no mar próximo esconde-se o abismo das emoções
e eu sem saber nadar

encerro-me nas pálpebras sangrentas
cruzado frágil de uma demanda pelo significado desconhecido
despersonifico-me ao atravessar a linha do horizonte
num salto tão temerário como temeroso

as águas
a consciência marinha após a planície da realidade
fluir apaixonante e apaixonado
porta que atravesso e onde fico
vejo agora tudo ao longe

para sentir larguei os sentidos
para amar larguei o amor
para conhecer procurei no conhecido o desconhecido
para ser rasguei e depus aos pés do vento o meu corpo destruído

as paisagens azuis
faunas e floras sensacionais
a harmonia das flores inexistentes
o doce sabor da intensidade orgásmica da eternidade
a solidão em que me perco a cavalo dos desejos

deixo a minha cabeça ao ponteiro dos minutos
serei decepado brevemente
das minhas veias escorrerá nectar
alimento líquido das almas sólidas
sorvam-me esgotem este oráculo
afoguem-se no vinho fumegante
encham os poços dos olhos com a música caótica
deixem-se dissimular pelas vibrações do vazio

o que escrevo quando nada sinto?
apenas os versos que nomeiam as emoções
que jorram das fontes nas terras do sul


maio 13, 2004


invisível


moon children - montagem.jpg
[recreio lunar - montagem]


À posse contrapõe-se a liberdade. Uma sombra move-se por entre sombras, imperceptível como o seu hospedeiro. As nuvens regulam a intensidade da vida: não há sombras em dias de tempestade.

Na passagem subterrânea milhares de olhos voam ligeiros numa lentidão sôfrega. Atropelam-se em rotas predestinadas à colisão, mas nunca se tocam, nunca se encaram. Uma criança penetra fundo em poços vazios – bem diferente da face da criança que julga amar.

Pelas orlas das árvores forçadas ao cativeiro brotam sons de asas que pouco batem. Até os pássaros aprendem a utilizar melhor as patas que os braços. Existe um mar, uma espécie de espuma cinzenta que a tudo abarca, a tudo cala, em tudo mora.

E é pelas tardias horas do crepúsculo que duas mãos se tocam, perigosas. Há a esquina perdida, perpendicular a um beco pejado de passagens secretas. Torcem-se as sombras, colam-se à pele, multiplicam-se os gestos, os lábios azuis afastam-se no alheamento natural que o medo do diferente provoca. Vermelho, negro, violento.

Eis chegada a hora dos vampiros, enclausurados durante a jorna em lençóis imundos, jogados na sobriedade das cavernas, perdidos de fome até ao momento da autofagia. Ressurgem as sombras, desta feita irrepreensíveis: verdadeiros fardos adiados que ninguém quer por carrego, que são alguém pelo simples facto da sua condição de renegados.

Um ponto, e tudo conflui numa lógica de umbigo para o centro da espiral. Afasta-se em curvas sempre mais, mais apertadas, mais soltas, mais leves. À agilidade surgem as forças da ordem. Às forças da ordem é enviado o peso da treva, e todas as sombras se refugiam na invisibilidade histérica das aves em fuga pelo caminho da noite.

Súbito, todas as portas se escancaram, e os corpos, destruídos pela centrifugadora de almas, apodrecem numa preparação para o dia que se segue, enquanto as suas sombras descem à rua, retiram as portas dos batentes, constroem uma torre e ascendem à lua por meios terrenos.

Assim surge a superfície invisível da lua, a estância balnear das criança que se sabem olhar por olhos invisíveis e ver o reflexo das suas sombras, de mãos e pés desesperados por um toque.


(e outro invisível)


maio 11, 2004


a transfiguração marginal


fliez.jpg
[imagem manipulada - autor desconhecido]



Sou a mosca da taverna. Poiso sorrateiramente em todos os copos. Se transporto merda nos pés, que me perdoem os fregueses, pois do taverneiro já obtive há longa temporada uma bula outorgadora de todos e quaisquer direitos sobre tudo o que por esta sala buliçosa se passeia ou pousa.

Vivo há novecentos mil anos. Sou todas as moscas de que os vossos sentidos torpes acusam a existência. Todas aquelas que tiveram as asas arrancadas pela crueldade infantil das crianças cinzentas. Todos os corpos nojentos despedaçados sob mãos, toalhas, mata-moscas, jornais, cabeças, copos, almofadas, pastas em manchas negras e vermelhas sacrificadas ao sagrado conforto humano. Todas aquelas zonzas que em horas de maior calor insistiram em se colarem às vossas peles, teimaram no zunir de círculos aparentemente inconsequentes pelas sombras mais frescas das construções emparedadas.

Tenho novecentos mil anos e ultrapassarei obscenamente todos os vossos limites.

Sou mil olhos que vêm em cada corpo mil corpos, em cada folha mil folhas, em cada feze mil fezes. E saceio mil vezes a minha fome. E embato mil vezes contra mil janelas. E fujo mil vezes de cada vez que observo mil moscas que sou eu. Só me consigo montar se fechar os olhos, os tais mil que de outro modo fudiriam mil moscas que seria eu e teriam mil orgasmos num êxtase onânico polissexual. Nem uma mosca é assim tão resistente.

Sou a mosca da taverna. Gosto do cheiro dos bêbedos e das putas. Chateiam-me os perfumes e as meninas coquetes, irritam-me os cabelos empestados em shampoos. Não gosto de humanos, mas gosto da merda que vão largando por aí. Sorrio sempre que ao cruzar uma esquina da cidade anónima, ao ultrapassar o tronco de uma árvore pela noite, me deparo com algum aflito que se alivia dos sagrados males que o povoam.

Embriago-me porcamente em cerveja morta derramada no tampo das mesas da taverna. Especialmente, aprecio cerveja tratada pelo vómito.

Sou a mosca da taverna. Deleito-me quando me enxotam. Especialmente no final da noite, quando os movimentos dos frequentadores estão já tão torpes e imprecisos como uma toupeira ao sol. O que me regalo a brincar com esses animais, a irritá-los, obrigando-os a sentir na pele o que é ser irritantemente perseguido sem se saber bem por quem, sem se saber bem como e muito menos bem porquê. É aí, nas particulares ocasiões em que meninos e meninas, cavalheiros e donzelas, mais querem nada sentir que a etérea e ébria presença do mundo e de si próprios, refugiados na doce caverna dos mostos e das destiladas, que alcanço os maiores níveis de gozo. E se por um golpe de sorte levo uma pancada mortífera e desapareço num sploft de encontro à parede, logo ressurjo, vinda da dimensão paralela das moscas, a desancar freneticamente o impiedoso agressor. Olho por mil olhos, tortura mosqueira por exosqueleto prensado. Melhor ainda é quando o assassinato é perpetuado de encontro à pele de alguém – o frágil corpo, as nauseabundas entranhas a escorrer pela epiderme, a penetrar lentamente nos corpos frágeis pelos poros dilatados às mãos da noite.

Tenho novecentos mil anos e observei o vosso nascimento, o nascimento dos vossos deuses. Faço parte integrante dos vossos medos, dos vossos pesadelos nocturnos. Fui morta pelos vossos pais, pelos vossos avós, por todos os vossos antepassados. Serei vítima sistemática dos vossos filhos, de toda a descendência que expulsarão dos vossos ventres líquidos. Existi e existirei. Vocês só têm braços porque era difícil apanharem-me com a boca. Não tiveram a inteligência de saber usar a língua, não souberam que podiam ter vindo a ser camaleões.

Sou a mosca da taverna. Quando me virem, pasmem. Ousem expulsar-me do bordo dos vossos copos, mas recordem-se: o taverneiro conhece-me.


maio 10, 2004








feet hang - norbert guthier.jpg
[feet hang - norbert guthier.jpg]



  
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(

grim
a)


maio 06, 2004



belly star.jpg 
[belly star]



Aqui, precisamente em lado nenhum, alcanço com a ponta do pé o silêncio de uma estrela caída, nua da combustão auto-infligida aos acordes da solidão.

Não se permite um som, uma brisa sequer ousa cometer a ousadia de perturbar o momento da escassa vida que se vai alisando no sentido da escassez.

Fora da pele, encerro o espectáculo lunar, despeço o olhar do universo e principio o alisamento do terreno.

Remexo as pétalas primaveris com as mãos transparentes com que me tocaste, e deito-me de bruços com o umbigo sobre a estrela.
Morro, e o deserto aumenta, o mar diminui.

Num gesticular ensandecido, levo a língua que se desprende da cabeça tombada à boca que, prateada de gelo, ofereces à minha fome.

Sinto, sinto-me em ti, sinto-me-te. Vivo da saliva que escorre fértil para a areia fina da paisagem, e logo uma raiz cresce sem que nem tu, nem eu a sintamos. Mas cresce, sei-o, seio.

Não ouso o cerrar dos olhos. É-me impossível despegar os sentidos do espelho que estilhacei em ti quando decidi partir, escapar de ti, escapar de mim. Mas não escapei de nós. Amo-me desmesuradamente, logo sou o principal alvo do veneno que continuamente se escapa dos meus dedos. Executo-me cada vez que me toco, que te toco.

Compreende, a estrela sobrevive apenas do cordão que lhe estendo: nunca mais me poderei despegar do chão. Nunca mais poderei cessar de te ver, de te sentir, de te trair. Só assim alguma luz consegue persistir – mesmo que oculta, mesmo que submersa no meu ventre materno.

E para te cobrir basta-me o sopro que é renovado a cada segundo, a cada ciclo, a cada mísero instante pelos meus poros, pelo meu cheiro, pela violenta possessão com que te fodo sem te tocar, somente sabendo que vives mais forte dentro de mim que dentro da tua pele. Assim te coloco a meu lado, morta de silêncio, a alimentar sem que o saibas, pelo tanto que me reflectes, a fragrância da estrela nua.

E é assim, percebe, com as unhas cravadas na terra, que é o mesmo que eu, eu o mesmo que tu, tu o mesmo que a estrela, a estrela o mesmo que tudo, tudo o mesmo que tudo, com os dentes bem presos na raiz que cresceu a partir do esperma que se criou no intervalo entre as nossas bocas, com os alados membros que os homens inadvertidamente libertaram dos rasgos que me infligiram onde nunca me vejo, que arrasto o mundo por esses ares fora, num grito desesperado que arremessa o todo que eles julgam não existir de encontro ao chão.

É assim que uma estrela se torna cadente e encontra refúgio debaixo do meu umbigo. E assim tu te entras dentro de mim.


maio 05, 2004



rear view - tim philips.jpg
[tim philips]


ontem à noite lembrava-me de não sei o quê


mas preenchia-me a boca um travo de luminosidade suave


recordo-me agora o que sentia ao deslizar para os reinos órficos
parece por vezes que nos encontramos enquanto charneira de tudo o que nos rodeia
num maravilhoso momento de partilha
de deslumbre pela facilidade com que basta abrir

a mão
a palma
a voz
o sentir

para logo todos os fragmentos se projectarem em sombra pelo vasto teatro
sob a ordem pacífica de um único fragmento
único


é bom correr
jogar à mudança
viver várias vidas naquela que nos tentaram ensinar ser única
mas o alto lugar
isolado
de uma aparição
assume a importância que é inexistente ao se passar rápido pelas paisagens


parece que as fadas afinal existem
demasiado perturbáveis pelo extremo ruído do mundo
auto ocultadas em pavor dos enormes silêncios que preenchem o quotidiano


por vezes é bom ouvir uma voz
apenas ouvir
uma voz


maio 03, 2004


assassinato


judith beheading holofernes - caravaggio.jpg
[judith beheading holofernes - caravaggio]


horizonte derramado em ventre
a mulher sucumbe aos braços de navalha
surge o sismo, rompe à boca do mar a voracidade do corpo
medo

no reflexo da imensidão
um grito para lá da realidade
sinaliza a demolição do círculo fechado:
tudo desapareceu, o olhar posto lá longe
onde a chuva morre e o caudal irrompe
e dois bichos antigos encontram o vermelho do céu pintado no abraço da terra

lânguido, o centro galga as linhas fronteiriças
transgride a ordem, o comando
petrifica toda a existência no vagar de um sussurro
e assume-se como marginal perante as mãos fechadas do mundo
perante as mãos fachadas do mundo

mulher-tudo-mulher-nada
mama cornucópia limpa
tudo se completa no horizonte
tudo se cumpre no ventre
tudo morre à fome da preservação
excepto a própria fome
excepto o próprio horizonte
excepto a sementeira que ultrapassa o ventre


maio 02, 2004


ghokismo


ghok - miguel marques.jpg
[ghok - miguel marques (manipulada)]


Um pequeno apontamento se torna necessário como a vida: quem nos vê do que somos quando desconfiamos o que em nós próprios julgamos ver?
Após o breve interlúdio prefaciado de forma mais curta que o habitual, passemos à leitura da pequena história. Será da mosca, será da árvore? Pouco interessa, pois os poucos capazes de inferir após este escondido mas luciferino início quão de oculto a tarefa que se segue irá tentar descrever, desses, frase feita, há-de ser o reino dos céus (as crianças que vão berrar para outras longínquas vizinhanças).
Aqui principia a história de Ghok, aquele que desafiou em façanhas, não algo corriqueiro como a própria vida, mas conceitos que ultrapassaram a espécie que os criou, coisas como a moeda, o sexo, ou, ousemos, a própria fé.
Curta estória será esta, pois é feita de algo menos verídico que o vento que a tudo envolve.
Resta dizer para conclusão (e não segredem ‘já’, pois para bom entendedor meia letra basta) que Ghok chupou o clitóris a si próprio após ter desempenhado brilhantemente o papel de decepador de pénis vigorosos em toda a sua família masculina, besuntando-se após tão delicada e complexa operação com o fito de penetrar tão incógnito quanto seria possível no misterioso ânus do elefante cor-de-rosa (sim, sim, o do LSD).
Antes de cometer tamanha façanha tatuou em cada um dos seus gémeos dois nomes. A tradução é impossível (tal como os propósitos, tal como isso não interessa de todo a ninguém). O resultado foi de sangue, espalhado, pois as tatuagens foram efectuadas com uma faca romba. Chamar-lhe-ão louco. Julgo que tanto lhe importará agora (como então, já que está morto, o que de si pouco relevo introduz à questão), pois a náusea imensa que o preenchia é, será, foi, algo que escapará a todos aqueles que não foram Ghok.
Ghok atendeu aos chamamentos imensos de todos os deuses inventados para gáudio de todos os poderes que já existiram. De tudo isto se esqueceu numa cagada memorável em que tal foi o esforço, a luta, o desafio interior, que todo o supérfluo, senão despojado do seu corpo parasita na altura em que a lata feze alcançou as tranquilas águas, se perdeu no egocentrismo liberto aquando do profundo ‘ahhh’ lançado incauto ao mundo nesse momento fatídico.
Ainda hoje, ao relembrar tal história, me surpreendo com a extrema facilidade com que se morre, para inevitavelmente se renascer no instante imediatamente anterior. Ah, o tempo que se esvanece mal se sente a vida a viver.
Ghok, o cagão (na verdadeira acepção da palavra) teve, sem ser necessária rima, uma visão, um limitado mas abrangente vislumbre de uma realidade que o transcendia, ou seja, em que ele se transcendia a si próprio. Apercebeu-se de que aquilo a que ele denominava Eu nada mais era que algo que não era ele: a carne, nervo, pele, osso que lhe ensinaram ser ele próprio. Isto quando se viu, subitamente, a observar-se a si próprio (ao seu antigo Eu).
O relâmpago Ghokiano foi instantâneo. Logo o logos surgiu, e um novo passo foi açambarcado em questão de infinitésimos: a memória.
Como se destrói a memória? Morrendo, resposta simples. O corpo, antes da sombra que Ghok antes era, trivialmente optou. Ghok morreu. Onde pára a sua memória, terá perecido juntamente com o perecer da sombra?


Um breve apontamento se torna necessário como a vida: quem nos vê do que fomos quando desconfiamos que o que era antes não mais era que um sonho, e quando o futuro se assemelha apenas a um passado?
Após o breve interlúdio posfaciado de forma mais curta que o habitual, passemos à ridícula observância do futuro inexistente de Ghok: será mosca, será árvore?


abril 30, 2004


abissus






heading to fire.jpg 
[heading to fire - autor desconhecido]


abismo
espelho do desejo reflectido na ilusão da fronteira
do dedo uma asa
do passo um momento de vertigem

a profundidade da terra erguida na imensidão do espaço
mãos que empurram
pés que travam
a saudade da liberdade a dilacerar os sentidos

o suicídio
a escuridão temperada pelo rosa-luz que penetra a pele
o clarão vaginal

o abismo


abril 27, 2004


vozes


vozes.jpg
[hands - autor desconhecido]


intensamente definidos os caminhos da chuva
a voz da noite
de lustres de sangue intermitentes num perigo súbito de desaparecimento
libertos os animais sangrentos no trilho fosfórico
pendentes
em atenção torpe insónia longa
que dura firme
simultânea
na longa queimadura da pele seca


instalam-se num desagrado os caminhos
da água que desaba sôfrega
em atropelos suicidas
a pele contra a face calma da terra


longamente
se possuem os momentos da escuridão anunciada
indagam-se os corpos apartados
na escuridão eléctrica dos abrigos pequenos
tão pequenos que assustam
assustam num sufoco de desejo laminado
reflexos e desejos laminados nos inúmeros espelhos lacrimais


são por vezes as esperas o carrasco
dúplice
que amputa lentamente
num livro de vagares de vida
as falanges incendiárias tecedeiras
expectantes
de uma combinação inesperada de acasos
repentina inscrição de alguma impossível luminosidade prenhe
que dê a tez do alimento à seiva que escorre incessante
fértil
da boca líquida do inexplicável


e seguem
vislumbrando em cada passo
de escassez
os viandantes invisíveis pelos intransmissíveis caminhos da chuva
em perigo letal
a mórbida conversão da semente em vida
da vida em desfolhamento de morte


na curva da janela diáfana
habitando os interstícios entre os nomes
os verbos
penetram-se suicidariamente sombras
humidades
os bichos ocultos no verso das mãos delapidadas
inquietas


abril 26, 2004


ortogonalidade




lucifer img.jpg
[lucifer - autor desconhecido]


Rede com buracos
A peneira e o sol
Caos
Ou um espelho luminar
Repartido por inumeráveis mãos
Ansiosas
Decepadas
Artifícios holocaustos definhamentos
Recalcadores da incómoda vontade
Ebúrneos adjectivos
Máscaras da apocalíptica espada
Que embrenhada em violência derrama verbos
Nomes temporalizados pelo ser
Pelo ser

Pelo ser


Pelo ser




Pelo ser








Pelo ser

Pelo ter

Que a algema só veio ao pulso quando se agarrou a primeira coisa à vista
Infalível
Incalculada
Eis a terrível cimitarra lunar
Castradora do magnífico hermafrodita
O espelho de narciso
O tal que desenha da imagem o ser

Nesse tempo
Durava a sombra que se desenhava pela peneira
Quando rodeou os lábios o sexo
O desejo
Planeou-se a morte pelos regaços do caos
Por sobre as rochas do metafísico promontório
As rochas feitas de barro roxo

Longitude solar
O pequeno pote chinês onde ficou o fogo que abandonou as cinzas
Tesoura-se numa prega
Numa linha do olhar inesperado
Aguardante do dedo vicioso onde se depositou o misterioso veneno
Extraído da vagina subitamente alargada
Rasgada
Pelo sexo uterino

Algures no tempo
Um espírito desabou no céu
Espalhafatou-se um grunhido cósmico pelas casas-de-banho das sombras
Dissolveu-se antes de principiar a queda
Infantil escorregou lambendo os recantos às letras
Correu com as mãos o corpo estelar
Orgasmou estrelas em super-novas
Desenhou-se em buracos negros
E a treva encarregou-se de cobrir o universo
De sombras
De frases

Algures no espaço
Desdobrou-se numa nuvem traseira aos olhos
A vermelha fragilidade dos tempos paralelos
Das peças que se cruzam no tabuleiro


abril 15, 2004


fumaçando


fumacando - miguel marques.jpg
[fumaçando - miguel marques]


engraçado
o fumo dos cigarros dos outros sobe sempre
e o meu
para me não ser excepção
procura sempre
na sua marcha graciosa
felina
as estranhas entranhas da terra

como os cigarros
quando em conjunto me fumo com alguém
o fumo dos outros vai para cima
o meu vai para baixo
eu procuro responder à resposta com a pergunta
os outros intentam perguntar a pergunta com a resposta

indago-me da causa deste peso
desta força que força tudo o que de mim se abandona
a uma gravidade que procura o colapso

tratar-se-á apenas de ser o fumo que vocifero
quiçá
feixes genésico de sementes ondulantes
cinzas
em busca perpétua de um qualquer útero renascido
morno
húmido
envolvente

o tanto que sobra do que partilho
pelas bocas rubras do mundo
pelos lábios sedentos dos olhos que se condoem
à visão atroz dos bocados de pele que vou descamando pelas alvas terras
serve de veneno e paz a estas mãos que projectam sombras uma na outra
imersas na bruma assassina do tempo

ao me observar fumando
descubro-me cornucópia incessante

só me pressinto aparecer ao me dar
ao me entregar sem nunca me prender
na expulsão a partir das falanges dos insustentáveis fragmentos
dos estilhaços espelhados de dor e prazer
incrustados na larga tela das mãos que me fumam
cortantes
sibilinos

sinto as pegadas da morte a cada baforada
a cada bailarina etérea que nasce da escuridão da boca do meu corpo
distraindo este tédio imenso em que me penso
preparando a melodia final

sinto-me o insecto larvar
que após recolhido todo o lixo que alguma vez houvera assomado ao horizonte
se interroga na larga confusão de opções
de configurações e formatos
de cores palavras e corpos
de signos significados e perguntas

assim me pressinto
insecto larvar
momentos antes da elaboração do intrincado casulo

até lá
fumando outro cigarro pesado
cogito nas metamorfoses
e na necessidade que o fumo dos outros tem de se escapar para o ar
enquanto o meu vai adubando impaciente
a árvore onde me esconderei crisálida
esperando a súbita fenda no dorso

fumando-me


abril 12, 2004


des-a-celeração


airport cry - montagem sobre edvard munch.jpg
[montagem sobre 'cry' de Edvard Munch]


Sentado estava o homem. Cabeça baixa, mãos nas têmporas, cotovelos nos joelhos, envolto no aspecto meditativo que todas as cabeças ganham nesta posição. O rosto virava-se para o chão, de modo a escapar aos possíveis olhares com que os passantes pudessem tentar captar a sua expressão.

No espaço envolvente derramava-se uma imensa luz, oriunda do sol vigoroso que se escapara à aurora ao principiar o dia. A imensa estrutura metálica formava uma gaiola envidraçada a pelo menos duas dezenas de metros de altura. Os pés passeavam-se por todo o lado, uns rápidos, outros vagarosos, ensaiando num ballet de multidão as complexas coreografias de cada uma das inúmeras pessoas que participavam no confuso espectáculo matinal. Bancas de jornais, quiosques de café e pastéis de nata, máquinas de tabaco, letreiros electrónicos com nomes, siglas e horas, cartazes publicitários, portas, corredores sem paredes, símbolos sinalizadores, apreensão.

O homem a tudo ouvia, em meio à frustrada tentativa para pensar claramente, para se abstrair da esfera sonora que a tudo invadia. As pontas dos dedos percorriam nervosas os cabelos escuros, os olhos cerrados com força não impediam a intromissão das sombras, das vozes alucinantes.

Súbito, uma voz metálica sobrepõe-se ao burburinho difuso. Poucas palavras, uma sigla, uma origem, um destino, uma indicação de desembarque. Inesperada, uma gota de suor divide a face do homem, do cimo da testa à ponta do nariz, quedando-se hesitante por segundos, por anos, num claro desafio à aceleração precipitada, exponencial, do ritmo de pensamento em alturas de ruptura. Tudo se decide num intervalo mínimo, em total incoerência frente a todo o caminho percorrido até então.

A gota decide-se, brilhando em queda lenta pela forte luz existente, numa ânsia de reflectir tudo o que ali existe antes do desfalecimento no piso cinza.

O homem decide-se, soerguendo lentamente os olhos após vastos minutos de imobilidade total, afastando ligeiramente os pés, separando da cabeça as mãos num gesto exasperante ao tempo que é efectivado.

O bulício parece imobilizar-se a partir de uma certa perspectiva, a luz aparente movimenta-se apenas nas sombras projectadas, tudo se torna asséptico, imaculado, inodoro.

Numa das mãos do homem surge uma navalha prateada. Na esquerda.


abril 07, 2004


metempsicose


geopoliticus child - salvador dali.jpg
[Geopoliticus Child Watching the Birth of a New Man - Salvador Dali]


se me penso em estagnação
logo as aves abrem as asas e preenchem a árvore de guinchos
despedaçando em notas graves esta língua medonha
destruindo a cabeça destes dedos de verbo

rejeito-me durante a noite
numa profunda angústia de condenado
rebento primaveril em medo do fruto que se esconde
se oculta pela sombra disforme da inquietude

e é ao sentir destas
… mãos …
que nasce o grito
horripilante de tanto desespero que despeja no mundo
fogo treva incendiada
este
… corpo …
estacado em pose de frustre fuga no segundo cruzamento
onde o néon de uma placa rasga na noite a mensagem da noite
em agressão violação estropiamento
da pele que já mal reconheço

talvez
um toque
uma mão
um ‘deixa’

NÃO!
não enquanto conseguir enfiar os dedos nos olhos
nas veias
no sexo
no cansaço

não!
não durante o instante em que desabo sobre ti
tal cascata de interrogações
não durante o tempo em que exista a possibilidade
da disseminação da sombra por todas as portas da casa
faca romba não
assassínio arterial mão

não enquanto cigarros juventude
velhice prematura de gestos do pensamento
derrame de esperma pelo peito ofegante
não quando o sorriso da criança
o diadema do crepúsculo
a bebedeira de azul e negro

não enquanto palavra poema tesão
saltos pedras chuva desassossego
rupturas e assonâncias pelos becos da pergunta
não enquanto desejo folhas berros
soltarem fragrâncias de sarjeta paradisíaca
nos jardins da cidade perdida

não o talvez
sempre o talvez

sempre o quê
o quê
que a base deste pedestal já tem tanta
tanta
cera
e o pavio teima na erecção original
à visão do horizonte larvar

- ouve-me pelo cheiro da brisa que nocturna se escapa –
perdi-me
quando nunca me houvera encontrado

‘antes do tempo’
dirás

ao lado do tempo
segredar-te-ei por estes ouvidos mudos
lá pelas paredes estelares onde se desenha
sob o esgar da maldita manutenção dos estados
a mutação necessária ao universo

NÃO!
sucumbirei
mas de pé
com a língua espremida pelas falanges
com os olhos no cimo da cabeça
com os pés transmutados em verso

a tudo renego sem nada perder
trata estas mãos com carinho
pois que nada conseguem conter
agarrar
nem o próprio corpo que as sustenta

pelo negrume fora minto a incoerência
ouço-me em ti búzio
jorrando cornucopiais gargalhadas
e assoma-me o denso arrepio da verdade
inexistente

lembro-me agora das lições passadas:
não há passos de volta
não há permanência fora da viagem
nem reembolsos por serviço mal prestado ou fraudulento

lembro-me agora
que se me penso em estagnação
logo as narinas se me dilatam e sangram
obrigando o trilho à viragem
o vagabundo ao caminho incessante
o desejo ao rotundo
NÃO!
persignado na testa das águas putrefactas

lembras-te
quando o toque era o riso
a lágrima o afago
o sussurro o voltar da página para novos episódios
nada disso ficou
nada disso permaneceu
em volta de tudo tudo gira
tudo vive
tudo morre e se renova incessantemente

como os passos destas plantas onde se escondem certos signos
como o som que renasce por debaixo das unhas emporcalhadas
como o infante berro que me re-obriga à apertada vagina
como estes dedos que se embriagaram de palavras
e se dirigem sonolentos para o comboio que torna a partir

direcção: ‘lá’
bandeirola ao alto
novas nuvens pelo ar


abril 05, 2004



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[adán y eva - fernando botero]

"Se pudesse separar-me de mim
Separava-me
Divorciava-me
Partia-me em duas!
Seria um divórcio litigioso
Porque esta parte de mim
Não perdoa à cara-metade.
Não ficaria com nada de mim
Excepto a pequena parte
A ínfima parte que é paz.
Para a depositar nas tuas mãos
Dizendo:
Toma é tua
Foi o que de mim restou."

de encandescente, com a qual discordo, e logo:


não
não quero
essas sobras prazenteiras que só dão prazer a quem gosta de velar os olhos pela noite dentro

abomino esse gesto
prefiro as tuas mãos noutros lugares
menos secretos
mais escondidos
escorregadios

à paz reajo com uma língua feia entrincheirada
solta por vales de água primaveril
rodeada de salgueiros tristes de desejo
mas vivos
mas amantes do regato que escorre da sombra oculta da montanha

se partes o teu espelho em dois
dá-me a metade que se não vê à luz do dia
retiro até a minha sombra da umbreira da porta
só para te ouvir gemer
- vem -

recuso
- com uma faca entalada na garganta
que te apara a pouco e pouco
a escama do corpo -
essa tua derrota
vil

ao primeiro raio de lua
que invade a fresta da gelosia
principa o suor do quarto
onde te aguardo
onde me aguardo
à tua metade sedenta

e obrigo pela treva adentro
as minhas mãos ao trabalho incessante
até que de ti mais não queiras que o nada
pois nada então possuirás de teu


abril 03, 2004


corpo digital


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[ruka - natasha gudermane]

Assoma-me sempre esta frustração antiga ao agarrar nestes dedos tresloucados, ao sair para o jardim da superfície imaculada, ao esperar que eles façam as suas necessidades no espaço entre as raízes e o caule das árvores certas. Parece que as suas dificuldades intestinais se projectam em mim com um vigor que me eleva a terrenos de um torpor incolor e nauseante. E todavia não se sente um cheiro no ar. Apenas as cores são fétidas e inebriantes.

Julgo percorrer um canteiro florido mas na realidade por onde os meus dedos me levam tem uma textura peganhenta e um paladar agri-doce. Não são pétalas que os dedos me trazem, bem próximo dos olhos avermelhados noto que são escamas verdes, reptilíneas, fracturantes. Apercebo-me dos meus dedos enfiados nas orelhas, nas narinas, no ânus do grande lagarto, conduzindo o meu sexo hirto, pleno nos limites do suportável, para a sua boca, para a sua língua trifurcada. Evito a tragédia com um puxão seco, desesperado, que me brota das células da ancestralidade luciferina.

Abandono o jardim e tento não pensar nestes medonhos membros que por castigo me conduzem inevitavelmente ao pecado de tocar, de sentir, de lamber, de remexer nas feridas abertas nos poros da pele incendiada.

Sei-o todavia, e isto para bem da sinceridade, que sou escravo e não senhor desta fauna digital que tanto persegue infantil as estrelas à noite como esventra vaginas estelares em busca da luz do dia.

Deixo-me embalar na melodia irritante dos dias cinzentos, e espero que os dedos sufoquem com falta de ar no meio destes cruzamentos de caras pesadas por onde se atravessam os sonhos curarizados. Nada adianta, morrerei antes deles darem o primeiro sinal de fraqueza.

Só me resta uma saída, uma única escapatória desta espiral centrífuga que ameaça esquartejar-me o corpo lateralmente. Mostro uma palavra a um dos dedos. De seguida outra a outro, e outra a outro, e uma frase a uma mão, e um poema às duas, e seduzo-as a pousarem os olhos num livro, a tocarem-no, a soprarem o pó que oculta o verso dos significados, a se entreterem, dedo a dedo, com o fabuloso teatro de marionetes que outros dedos ousaram fazer, uns mais velhos, outros mortos, outros ainda por nascer.

Os dedos já só vão agora ao jardim para roubar as penas aos pássaros incautos, já só pescam lulas e chocos para as obrigar à tinta preciosa. Posso finalmente repousar o meu espírito cansado no tédio suave de vislumbrar as impressões, os devaneios oníricos, as novelescas realidades, os inquietos versos, os desejos insatisfeitos, as existências perseguidas, as vidas e as mortes que se desenham e obliteram hora sim hora não, os novos signos e significados ébrios de vontade que me escorrem agora das bocas dos dedos.

Transformei-me num corpo inexistente, transparente e observador. Num corpo com dedos. Ofuscado, oculto, incogniscível aos outros corpos pelas sombras cósmicas projectadas pelos infames dedos.


março 31, 2004


maria ii


mary - joao e rita.jpg
[mary.j. - joão e rita]


uma figura ali ao lado
familiar em demasia
para lá dos tempos transactos
diz-me sem falar 'a tua morte começa aqui'
e sinto uma ternura de morrer
às cinco batidas do relógio mentiroso

pergunto-me
sem saber emissor ou destinatário
- quanto mais canal ou levada -
por onde anda a desumanidade
em que esquinas
em que trevas iluminadas de lampiões artificiais
em que corpos andanças sexos

e aquele pequeno corpo que me mói a razão
- que por mim já assassino era -
constrói sem permissa ou paciência
uma estrada
um caminho de sangue e carne
a dissoluta travessia do auge para a queda que se me anuncia

foda-se mais à tesão constante
que por estas nuvens fica gravado um nome a caracteres de sangue
de sangue
(e como é possível que dê por mim a comprovar a verdade sanguínea)
principiou a decadência, as portas estão abertas ao convite

apetece-me escrever
narrar-te, olho sôfrego
a limpidez impura destas mãos clarividentes
tumefactas

fecha-te
cerra-te
pára de me violar as entranhas com essa interrogação
que de mim sei menos que a pergunta

que de mim só sinto a boca que beija aquela cabeça
aquele pescoço
aquele sexo novo
aquela boca sedenta de palavras
sem nome


março 30, 2004


gotas


stefano arcidiacono - blood drop.jpg
[stefano arcidiacono - blooddrop]


por agora esperam as gotas
finalmente a madrugada e com ela o orvalho menstrual
um derrame de folhas, linfa, clorofila
abrasador o odor exalado pelos leves dedos da aurora
 
nas gotas
                                                         nas gotas
duas virgens descalças cavalgam restos de dunas
pedaços de relâmpagos laminares
num abraço de boca única
deslavada pelos gritos milenares de invernos distantes
                        mortes
uma súplica desce do ventre à terra
encanto rodeado por águas
pelas águas magníficas do nascente
                                           às gotas
nas gotas
 
à visão do fontanário oblongo um halo perfaz a silhueta da sede
mãos erguidas ao longe ajudam ao recorte espelhado do medo
                 a sede
             a fome
as gotas
explosão luz dor
imperceptível num estertor de orelhas quentes
envoltas no deslumbre amante do sangue
                  da sede
                         da fome
           das gotas
 
CAI
um bater mágico de palmas
ensombração tropical sombras pela vegetação macetada
pelos caminhos do descobrimento homicida
esperando a fera besta de olhos de bico
sentidos de asa
tumor ardendo pela noite preta
esguia
 
CAI
cave ne cadas
a ronda das viúvas em torno da entrada do inferno
d e s e j o p r a z e r
vida que espreita pela oportunidade do acaso
cai a espera
esperma a gota
sacia a sede que arde na curva da garganta velha
o sol a pino morte à sombra
numa existência de pegadas sem corpo
            leve
como o sangue água de rega das plantações
dos hortos de flores carnívoras
 
lentamente
go
  ta
  à
G O T A


epitáfio
pela palavra morre o pensamento, da palavra vive o pensamento; desdobram-se neste vasto terreno as tentativas de abandono da infernal chuva de significados que persiste na calcinação do sossego; a aragem é fria, o abrigo incerto, o horizonte mente pelo ilusório encerrar do que para lá dele está: o inexplicável

eis o limiar do desassossego, a esquina onde as palavras se prostituem pelos dedos dos olhares ávidos de certezas, quais louva-a-deus em cio de poesia

histórico

almas danadas